O Labirinto do Fauno

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Eu não costumo chegar atrasado. Em praticamente três anos de DELFOS, nunca me atrasei para um compromisso profissional. Até hoje. Normalmente, as sessões de imprensa são marcadas para as 10:30 da matina, mas por algum motivo bizarro, essa estava marcada para as 10. Eu, mais condicionado que o cachorro de Pavlov depois de algumas centenas de cabines marcadas no mesmo horário, marquei bobeira e me ferrei. Cheguei lá às 10:10 e o filme já tinha começado. O mais irritante é que essas sessões sempre costumam atrasar mais de 20 minutos e no único dia que eu não chego na hora, começa pontualmente. Malditos maledetos!

Enfim, esse era um dos filmes mais esperados por mim neste final de ano, mas infelizmente não correspondeu às expectativas. Pelo que tinha lido, tudo indicava que era uma mistura de fantasia com terror, o que me deixou ainda mais ansioso, pois são dois dos meus gêneros preferidos unidos. Infelizmente, O Labirinto do Fauno não conta nem com fantasia nem com terror em doses suficientes para aplacar a fome do público por esses gêneros.

De um lado, temos uma guerra ocorrendo na Espanha e um capitão extremamente violento e sádico. Por outro, temos a filha de sua esposa, que descobre ser na verdade a princesa de um mundo mágico. Para recuperar seu trono, ela precisa cumprir três provas. Então, o filme alterna entre a fantasia da guria e a guerra extremamente violenta de seu padrasto. O problema é que, depois de uma cena fantástica, você não tem a menor vontade de voltar para a realidade. Afinal, o mundo real fede! Guillermo Del Toro, (de Hellboy) deveria ter aprendido com os Harry Potters da vida: mostre tudo que quer mostrar do mundo real no início. Uma vez apresentada a fantasia, ela deve durar até o fim do filme.

E pior, tem muito pouca fantasia no filme. São umas três cenas relativamente curtas e, para chegar a cada uma delas, você precisa agüentar uns 20 a 30 minutos do mundo real, o que quebra o clima e é bem chato. Para piorar, ainda tem umas falhas cabulosas no roteiro. Exemplos nos dois próximos parágrafos.

Em determinada prova, Ofélia, a guria, vai encontrar uma mesa com um banquete tremendão. O Fauno avisa que ela não pode comer nem beber nada do que está na mesa e a vida dela depende disso. O que a guria faz? Adivinhou. E convenhamos, ninguém faria isso, é algo mais nonsense do que a esquete da “piada mais engraçada do mundo” do Monty Python. Quão difícil pode ser para uma garota bem nutrida resistir a comida, mesmo que seja, sei lá, uma ruiva com bacon? Tudo bem que isso acaba rendendo a melhor cena do filme, mas o roteiro (também de Del Toro), deveria ter dado um outro jeito de chegar nesse ponto, o que não é nenhum grande desafio.

Em outro momento, um personagem deixa o sádico bandidão completamente indefeso e, ao invés de matá-lo, apenas dá umas esfaqueadas no carinha, o que também não faz sentido nenhum, já que sua única chance de escapar teria sido tê-lo matado.

Para os fãs da violência explícita, gore é o que não falta aqui. Temos pernas sendo cortadas, narizes sendo esmagados por garrafas (em uma cena que me lembrou bastante a descrição dada pelo Cyrino no filme Irreversível) e muito mais.

Infelizmente, essas cenas não são incorporadas às cenas “mágicas”. É quase como assistir a dois filmes intercalados: um de guerra e uma fantasia à Crônicas de Narnia. Seria bem legal se fosse uma fantasia de terror, que era o que eu estava esperando. Infelizmente, esse é um gênero que ainda vai ficar inexplorado por mais algum tempo.

Curiosidade:
– O Fauno é a contraparte romana do deus grego Pan, aquele bichinho pequeno com pernas de bode e que está sempre tocando flauta, manja? Ele era originalmente o deus do pastor e de seus rebanhos, mas depois foi associado à fertilidade e à natureza. Tinha uma personalidade desagradável e um apetite sexual inesgotável e por isso foi demonizado pelo cristianismo que, em sua batalha contra o paganismo, deu os atributos do bichinho a Satã. Hail!

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Editor-chefe e editor de games. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).