O Evangelho Segundo Jesus Cristo

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Como todos sabemos, Cabral descobriu o Brasil, em 1500. E com ele, veio sua língua e seus costumes. Hoje, porém são os brasileiros que cada vez mais descobrem as terras lusas. Em especial, através de um escritor: José Saramago.

Após uma vida inteira dedicada à composição de excelentes obras, desde roteiros de peças de teatro, colaborações em jornais locais, antologias poéticas e, sobretudo romances, o escritor ganhou uma projeção mundial ainda maior com o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

Seria, portanto, redundância minha acrescentar quaisquer predicados ao escritor, mesmo este merecendo. Seria tolice dizer que Saramago é o escritor português mais apreciado no mundo há quase duas décadas e que muitos críticos literários o colocam ao lado de Camões como os maiores vultos da literatura portuguesa.

Creio, portanto, que tais fatos justifiquem as sucessivas reedições de seus primeiros romances e a busca sempre freqüente dos mesmos nas livrarias. Contudo, deve-se destacar ainda, a vitalidade com que continua a traçar suas frases e ligá-las às mais diversas temáticas, expondo aspectos antropológicos e fenômenos psíquicos, todos envoltos em tramas surpreendentes e fantásticas. A prova disso é dada em outro de seus livros, As Intermitências da Morte, que chegou às prateleiras em 2005, onde de forma fantasiosa se conta que a Morte decide tirar férias, abandonando seu laborioso trabalho.

Contudo, desta vez compartilharemos sobre uma outra obra primorosa de Saramago, escrita em meados de 1991, mas que só chegou ao Brasil, em 2002 através da Companhia das Letras. Trata-se de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. À primeira vista, o título pode até parecer presunçoso e carregado de uma áurea religiosa, mas tais conceitos caem por terra quando se começa a enveredar por estas páginas.

O livro apresenta-nos a prosa característica de Saramago, com a ausência de pontuações e marcações nos diálogos, mas isto não afeta em nada a leitura. Ao contrário, tais particularidades apenas nos deixam ainda mais concentrados, e imprimem uma velocidade maior aos acontecimentos.

A imagem de um deus encarnado sobre a terra dissipa-se logo nas primeiras linhas. Muito longe disso, é mostrada a concepção de uma criança comum, que sai de um ventre comum.

Não há uma estrela guia no céu, mas apenas uma garoa gelada que cai sobre a terra de Belém. Não existem reis-magos que tragam presentes e adoração, mas uma mulher que não é poupada das dores de parto. A manjedoura quente e rodeada de animais dá lugar a uma gruta fria e úmida.

Deste cenário lúgubre e nada poético é que nasce o filho de Maria e José. O jovem carpinteiro, que não tem os traços macios e agradáveis como o inconsciente coletivo o retrata. Mãos calejadas, pés descalçados, pele ressecada e escurecida pelo causticante sol da Palestina. É este Jesus, homem e não deus, que Saramago invoca. Que sente dor, fome e piedade; que abandona sua casa na adolescência em uma busca interior; que coabita com Maria Madalena num leito outrora maculado pela prostituição.

Cenas como a Anunciação, imortalizadas em óleo sobre tela pelos pintores renascentistas, onde aparem anjos ornados de vestes resplandecentes, cedem lugar à simplória visita de um mendigo que implora um prato de comida à Maria. Ao recebê-lo, então a criatura dá-se a conhecer e revela-lhe que uma vida foi gerada.

Não espere ver refletida nestas páginas uma versão moderna dos escritos do Novo Testamento, mas uma visão humanista dos predicados divinos. Um criador que ironiza os homens, ao mesmo tempo em que lamenta ter-lhes concedido livre arbítrio. É inegável a influência volteriana durante as flexões sarcásticas e o apurado senso filosófico que permeia a visão do narrador.

É praticamente impossível esboçar somente um único destaque desta magnífica obra de Saramago. Mas, sem dúvida, a cena que narra o debate entre Deus, o Diabo e Jesus em meio a um nevoeiro, a respeito do papel desta trindade no passado e no futuro da humanidade, merece uma ressalva. O que se inicia com uma descrição sarcástica da decadente aparência do tinhoso, culmina em um verdadeiro ensaio da ética divina e finalmente numa minuciosa descrição dos primeiros mártires do Cristianismo.

Eu poderia ficar apontando inúmeras outras passagens desta bela obra, mas quero que o prazer da descoberta seja experimentado por você, caro delfonauta. Assim, como Cabral descobriu as terras tupiniquins, você também deve conhecer as riquezas nativas do além-mar e por que não começar por Saramago?

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