Manual para Neófitos no Heavy Metal – Parte 1

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Com sugestões de Carlos Eduardo Corrales

Amigo delfonauta, seja bem-vindo à estréia da coluna “Atitude Metálica”. O objetivo aqui é trazer ao leitor diversas curiosidades e histórias legais sobre o Heavy Metal, suas bandas e os músicos, mas nada me impede também de abordar outros assuntos do cotidiano, afinal, quando falo sobre “atitude”, não posso limitar a utilização do termo apenas nos meandros musicais. Daí esclareço a origem do nome desta coluna, pois pretendo explorar um pouco do universo Headbanger. O que pensamos, sobre o que pensamos, como enxergamos o mundo e como colaboramos para a construção de um lugar melhor para os nossos filhos.

Infelizmente não posso definir no momento a periodicidade com que irei publicar os artigos, mas sempre que uma idéia legal vier à minha mente, vou sentar em frente ao computador e deixo os pensamentos fluírem. Obviamente, se você tiver alguma idéia para a coluna ou alguma curiosidade, me escreva (bruno@delfos.jor.br) pois, além de fazer questão de responder a todos os e-mails, quem sabe a sua idéia não rende um tema bem interessante? Agora chega de explicações e vamos ao que interessa. E nada melhor para estrear a Atitude Metálica do que um especial sobre o dia do Rock.

Mais um ano se passou, nem parece que em julho do ano passado escrevi aquela matéria sobre “Um Garoto que Descobriu o Rock”, onde descrevia um pouco a minha história e como minha vida naturalmente cruzou os caminhos do Rock/Metal.

Para este ano, nossa idéia de um especial aqui no DELFOS foi um pouquinho diferente. Com a explosão de bandas como Nightwish (leia a resenha do DVD End of Innocence e a do CD mais recente, Once) e os comediantes do Massacration ganhando até programa na MTV (moda television), o Metal vem sendo muito maltratado pela molecada que começou a ouvir o gênero recentemente e não é raro nos depararmos com situações constrangedoras nos shows ou mesmo em conversas informais com os novatos. Para evitar mal-entendidos e confusões sobre esse estilo amado por poucos e odiado por tantos, preparamos uma pequena lista de dicas para os neófitos que começam a ter contato com o estilo. Com uma ajudinha do Corrales que, assim como eu vive o Heavy Metal há mais de 10 anos, separei algumas dúvidas freqüentes e curiosidades para os novos bangers.

Para quem já foi absorvido por essa nova filosofia de vida, vale a pena ler os tópicos abaixo com calma, até para ver se você realmente sabe o que é ser um verdadeiro “headbanger”, ao menos segundo os delfianos. 😉

– Não vá a um show esperando que as músicas ao vivo sejam reproduções fiéis do trabalho de estúdio.

Esse item é bem tradicional e volta e meia encontro alguém na saída de um show reclamando que a música X ficou uma porcaria ao vivo.

Em primeiro lugar, lembre-se que, em estúdio, os músicos podem ensaiar e repetir um determinado ponto até a perfeição. Muitas vezes, as bandas trabalham um dia inteiro apenas para que uma única música ou apenas um trecho dela saia legal. Já ao vivo, se alguém errar (seres humanos erram!), você provavelmente não gostaria que a banda parasse de tocar para recomeçar. Isso sem contar que, em estúdio, os caras estão parados dentro de uma sala vedada e não no ritmo acelerado de um show onde os fatores climatológicos e até mesmo a empolgação podem influenciar a voz do vocalista e a perfeição das notas tocadas pelo restante da banda.

Outro fator é a mudança de integrantes ao longo dos anos. Acredite, os maiores nomes, para não dizer todos, já passaram por mudanças drásticas em sua formação: Iron Maiden, Metallica, Judas Priest, Helloween, Gamma Ray, Venom, Slayer, Dream Theater, Saxon e por aí vai. A única que sobrava era o Blind Guardian, mas com a saída do baterista Thomen Stauch, agora não sobra ninguém. Cada músico tem seu próprio estilo e sua própria maneira de tocar o instrumento. Além disso, a maioria esmagadora dos guitarristas de Metal é bem vaidosa e se recusa a tocar um solo elaborado por um ex-integrante, principalmente quando a separação não foi exatamente amigável e, por isso, preferem criar ou improvisar quando forem tocar uma música da formação antiga. Portanto, se alguma vez você ouvir uma linha diferente em uma música, não significa necessariamente que o guitarrista errou, ele pode ter mudado intencionalmente.

Por último, é fundamental entender que o timbre (a sonoridade) dos instrumentos musicais em estúdio é totalmente diferente em um lugar aberto. Isso sem contar que, geralmente, em cada trabalho, uma banda utiliza instrumentos musicais, amplificadores e produtores diferentes, o que torna impossível uma reprodução fiel ao vivo. Por exemplo, o Metallica normalmente emendava Master of Puppets com Seek and Destroy na turnê do Black Álbum (entre 1991 e 1994). Mas repare que as músicas vêm de discos diferentes: a primeira do trabalho homônimo, de 1986, e a segunda do debut Kill´Em All, de 1983. Se você ouvir as duas versões em estúdio, pode perceber que o timbre dos instrumentos e a produção desses dois discos já são bem diferentes em estúdio. Imagina como seria para reproduzir ao vivo? Por isso a banda normalmente opta por um timbre específico, que nem sempre é igual ao da versão original. Um bom exemplo disso é o Judas Priest (leia resenha do DVD Electric Eye), que toca até mesmo as músicas antigas com um timbre mais pesado.

Também existem bandas que, por terem um som extremamente trabalhado, com orquestras, por exemplo, acabam utilizando o playback para preencher o vazio. É o caso do Therion (leia ) e do Rhapsody (leia a crítica do single The Dark Secret), por exemplo.

Mesmo com todas essas variáveis, alguns nomes ainda produzem excelentes versões ao vivo, especialmente bandas de Metal Melódico e Progressivo como Stratovarius (Leia a resenha do álbum Elements Pt. 2) e Dream Theater, mas eles também adoram alguma improvisação.

– O Heavy Metal não é um produto popular!

Quem começa a gostar do estilo logo se decepciona ao não encontrar seus principais expoentes na programação das televisões e rádios. Mas isso sempre foi uma característica do gênero, não é nenhuma novidade e, no fundo, eu acho até positivo: quem gosta de Metal tem de demonstrar iniciativa e ir atrás para conhecer melhor.

A MTV, em seus tempos de MUSIC Televison (isso não é nenhuma redundância), tinha um bom programa de Heavy Metal chamado Fúria Metal, apresentado por Gastão Moreira, mas infelizmente este programa mudou de nome na metade dos anos 90. Tiraram o “Metal” do Fúria e de boa parte de seus blocos, e incorporaram videoclipes de Punk, Hardcore e alternativo. Com essa salada indigesta, o programa acabou alguns anos depois e abriu espaço para o Riff MTV, apresentado pela então desconhecida Penélope Nova. Apesar da mudança de nome e de apresentadora, o Riff apresentava os mesmos defeitos do Fúria – não tinha uma linha definida. Você encontrava tanto videoclipes de bandas de Metal quanto o Poppy Punk de um Green Day. Em alguns anos, o Riff também foi pro saco. Hoje temos apenas um programa semanal de piadas envolvendo comediantes e a participação especial de meia dúzia de vídeos em meia hora.

Já as rádios apresentam alternativas interessantes para os fãs do gênero, mas estes normalmente são restritos a horários esdrúxulos como domingo à noite (e o pior é que todos os programas de todas as estações passam no mesmo horário, obrigando o ouvinte a escolher um), portanto o melhor a fazer é navegar pela Internet, ler o DELFOS e as revistas especializadas, freqüentar os bares de Rock (sempre tem pelo menos um dia destinado ao Metal) e conversar com os amigos que entendem do assunto – qualquer coisa pode até mandar um e-mail pra gente. Para quem mora em São Paulo, a melhor dica é visitar a Galeria do Rock (na Praça da República, Centro) e trocar uma idéia com os vendedores sobre as últimas novidades e os clássicos do seu estilo favorito.

E se você ainda está lamentando por não poder assistir ao videoclipe do Sodom no Disk MTV, pense que hoje em dia temos a Internet que possibilita o acesso à rápida informação. Imagine há 20 anos, quando a rede mundial de computadores não existia. Se você realmente gosta de Heavy Metal, tire o bumbum da cadeira, vá atrás de suas bandas preferidas e aproveite para sempre se renovar e descobrir coisas novas. Esse é o ciclo do estilo.

– Rodinhas de porrada NÃO fazem parte da cultura metálica

Ao contrário dos panacas de plantão que insistem em abrir rodinhas de porrada, mesmo em músicas nem tão pesadas, como Carry On do Angra, essa pancadaria nunca fez parte do verdadeiro Heavy Metal. Não é a toa que quem gosta do estilo foi apelidado de “Headbanger”, ou seja, pessoas que batem cabeça e não incomodam quem está ao seu redor curtindo o som (a não ser quando o cabelo de uns caras mais sem noção esbarram em você como se fosse um chicote). Não existe coisa mais irritante do que presenciar indivíduos abrindo rodinhas quando você quer apenas curtir um solo ou a batida da música. As rodinhas são originárias do Punk e Hardcore, estilos totalmente diferentes, com outras raízes e não são bem vindas em shows de Heavy Metal.

Se você é um Punk que curte alguma coisa de Metal e vai aos shows, tranqüilo. Será tão bem-vindo quanto qualquer pessoa. Mas respeite seus semelhantes e aprenda a curtir o som sem incomodar os outros. Se você é um novato que nunca foi aos shows, por favor não cometa o erro patético de sair dando ombradas no cara ao lado. O principal prejudicado pode ser você mesmo.

Tem muita menina que tem medo de ir em shows de Metal, achando que pode ser perigoso. Isso é uma lenda urbana. Pode ir sem medo. E os caras podem levar as namoradas tranqüilamente. Não tem nada mais gostoso do que ficar abraçando a pessoa que você ama enquanto sua banda preferida toca aquela balada linda. Segundo o Corrales, o romântico aqui do DELFOS, o show do Savatage é o mais indicado para casais apaixonados pela quantidade de belas músicas que eles têm.

É um fato que muitas bandas de Thrash como Slayer e Anthrax estimulam a formação de rodas, mas esses são casos esporádicos de bandas com comprovada influência Punk. Acredite, quem gosta mesmo do puro Heavy Metal está preocupado em curtir a música e não em dar porrada. O que nos leva ao próximo tópico:

– Headbangers não são trogloditas

Infelizmente, esse é um dos estereótipos dos Headbangers e gostaríamos muito que você também ajudasse a mudar essa interpretação. Não é porque o som pode ser considerado agressivo que nós somos assim. Normalmente, os Headbangers são pessoas inteligentes, famintas por cultura de todos os tipos, que adoram uma boa leitura e papos inteligentes com seus amigos e podem tanto falar sobre política quanto discutir sobre a obra de H.P. Lovecraft.

– Não seja preconceituoso em relação a outros estilos dentro do Metal

Esse sempre foi um dos grandes problemas internos da cena. Como você sabe, dentro do Heavy Metal, existem diversos subgêneros como o Power, o Melódico, Black, White, Thrash, Death, Doom, etc. Essa classificação costuma ser vista com repúdio pelos bangers mais antigos (a maioria dos termos surgiu na metade dos anos 80), mas foi necessária para separar o som de uma banda como o Sepultura (leia minha empolgação depois de entrevistar os caras) de um Helloween, por exemplo. Mesmo que ambas pratiquem Heavy Metal, são estilos totalmente diferentes.

Desta forma, se você for um fanático por Black Metal, não deve execrar quem gosta de Metal Melódico e vice-versa. Lembre-se que as raízes são as mesmas, apenas a evolução dos estilos seguiu caminhos diferentes. Se você gosta de Thrash, tente conhecer alguma coisa de Melódico, de Black, Death, Progressivo, etc. Não fique limitado a apenas um gênero. Muitas bandas adoram passear ou flertar por vários gêneros (o Therion – leia resenha dos mais recentes álbums – é o melhor exemplo disso) e você pode se surpreender.

Hoje em dia, eu consigo ouvir todos os estilos dentro do Metal sem problema algum. Gosto de ouvir tanto uma banda mais suja, como o Venom (leia nossa entrevista com o Hammerfall, onde o Venom é citado), quanto um Gamma Ray (leia resenha do álbum ao vivo) e suas belas harmonias.

– Respeite outros estilos de música

Os verdadeiros bangers se preocupam com a MÚSICA e a mensagem que seus intérpretes querem passar. Exatamente por isso, o fã de Metal também é um dos mais ecléticos. É verdade que normalmente a galerinha que começa a curtir o estilo com seus 15 anos costuma ser um tanto radical e diz gostar apenas disso, mas depois isso felizmente muda. Headbangers mais maduros também costumam gostar de Música Clássica, Rock em geral, Blues e até mesmo alguma coisa de MPB. Sim, eu gosto de Milton Nascimento e Chico Buarque e isso não me torna menos banger.

O que nós não gostamos, é de música artificial, feita apenas para vender, sem sentimento, banalizadora e deturpante e você já deve saber exatamente do que estou falando certo?

– As letras das músicas são fundamentais no Heavy Metal!

As letras de Metal concentram uma miríade de influências, indo desde o protesto (Disposable Heroes do Metallica) até o fantasioso (Rhapsody e Blind Guardian – leia resenha do DVD). Não faltam letras que enveredam pelo caminho do misticismo (Therion), da filosofia (Pain of Salvation), das reflexões sobre a vida (Gamma Ray), do auto-conhecimento (Metallica), temas históricos (Nile, Iron Maiden), entre tantos outros assuntos. Exemplos de letras inteligentes não faltam e citarei aqui apenas dois exemplos de um mesmo disco: Heaven Can Wait e Lust For Life do Gamma Ray. Se algum dia você se sentir deprê, leia as letras dessas duas músicas com calma e tenho certeza que você pensará duas vezes se seus problemas são tão importantes assim comparados ao tamanho e à beleza da vida.

Isso é até um pouco óbvio, mas sempre é bom lembrar que, ao contrário do que a maioria pensa, Heavy Metal não é barulho. É lógico que você pode se identificar com a batida das músicas ou com aquele solo inspirado, mas nunca se esqueça de ler as letras e tentar interpretar o que, exatamente, os músicos queriam dizer quando as escreveram. Tenho certeza que você irá se surpreender com o conhecimento e a cultura de muitos compositores, como por exemplo Kai Hansen do Gamma Ray (ex-Helloween) e suas letras otimistas ou James Hetfield (Metallica) e suas composições introspectivas, ou até mesmo curtir uma mini-aula de História com Alexander The Great do Iron Maiden. É praticamente impossível se dizer um fã de Heavy Metal sem parar para prestar atenção nas letras das músicas, portanto um conhecimento mediano de inglês é quase um requisito.

Normalmente as pessoas costumam ter dúvidas sobre o motivo de as bandas de Metal cantarem em inglês. Acham que é “americanização”. Pois o motivo é justamente esse: a importância das letras no estilo. Cantando em inglês, possibilita que mais pessoas entendam a mensagem. Ou você entenderia melhor uma música cantada em alemão ou em finlandês (dois dos países mais frutíferos na cena)?

Como diz o gaguinho, p-p-por hoje é só pessoal! Na quarta-feira da semana que vem, publico a continuação do artigo onde destacaremos mais alguns pontos importantes nas características dos verdadeiros Headbangers e também uma lista das 10 melhores músicas de Heavy Metal de acordo com a diretoria do DELFOS.

Não perca!

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