Legends of Tomorrow – 1ª temporada

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Não é segredo para ninguém, no cinema a DC Comics/Warner continua mais perdida que cego em tiroteio, disparando para todos os lados e errando miseravelmente na maioria das vezes. Enquanto o conglomerado sofre para estabelecer seu universo cinematográfico unificado, na televisão as coisas são bem diferentes.

Desde que Arrow conseguiu em sua primeira temporada equilibrar um senso de realismo mais sombrio com uma estética jovem característica do canal CW (também de propriedade da Warner), seguiu-se a divertidona série do Flash e esta Legends of Tomorrow.

Esta talvez seja o maior exemplo de que ao menos na televisão, eles não só estão conseguindo criar um universo coeso, como ainda podem se dar ao luxo de criar um seriado inteiro escorado num bando de personagens coadjuvantes totalmente desconhecidos do grande público.

MEUS AMIGOS PODEM NÃO SER HERÓIS

A premissa é simples. Rip Hunter (Arthur Darvill, o Rory de Doctor Who) é um Mestre do Tempo (organização responsável por manter a ordem na linha temporal) renegado, que tenta mudar um futuro catastrófico no qual o mundo foi dominado pelo imortal Vandal Savage (inimigo tradicional nas HQs da DC) e a esposa e o filho de Rip foram assassinados pelo tirano.

Para ajudá-lo a rastrear Savage através dos mais variados períodos temporais e encontrar um jeito de detê-lo antes que o futuro vivido por Hunter se realize, ele recruta em 2016 uma equipe formada por pessoas das quais a linha temporal não sentirá falta. Contudo, se esse bando tiver sucesso em sua missão, deixarão de ser uns zés-ninguéns e se tornarão lendas.

Assim, temos a formação de uma equipe composta por um bando de personagens secundários que já haviam sido apresentados nas séries Arrow e Flash e aqui ganham sua chance de brilhar no centro da ribalta.

Temos o Eléktron (conforme sempre foi chamado nos quadrinhos por aqui), ou Átomo (a tradução correta) do ex-Superman Brandon Routh, que usa uma armadura que lhe permite encolher de tamanho, voar e disparar rajadas de energia, e mais lembra uma versão paraguaia do Homem de Ferro.

Temos Sara Lance, a ex-Canário Negro original de Arrow que, após morrer e ser ressuscitada em um Poço de Lázaro, assume a alcunha de Canário Branco. Há a dupla formada pelo Dr. Martin Stein e Jefferson Jackson que se funde para formar o poderoso Nuclear. Há também o casal Gavião Negro e Mulher-Gavião, os quais possuem uma ligação mística com o próprio Vandal Savage e, por fim, completam a equipe a dupla de bandidos saídos diretamente da galeria de vilões do Flash, Capitão Frio e Onda Térmica (Wentworth Miller e Dominic Purcell, repetindo a mesma parceria da série Prison Break).

LEONARD SNART, LADRÃO DE CAIXAS ELETRÔNICOS!

Em uma entrevista para o podcast de Kevin Smith, Andrew Kreisberg, um dos produtores-executivos da série, a definiu como um cruzamento de Liga da Justiça com Doctor Who. Faz lá certo sentido. Afinal, temos até Arthur Darvill, que foi um dos companions do Doutor, agora assumindo um papel bastante parecido com o do protagonista da popular série britânica.

É ele o capitão da Waverider (nas HQs, o mesmo nome de um personagem importante nos anos 1980/1990 chamado aqui de Tempus), a nave temporal que navega entre o fluxo do tempo. E cada episódio se passa em um período diferente, com a equipe tentando localizar e deter Savage desde o Velho Oeste, passando pelos anos 1970 e indo até o futuro.

Esse mote permitiu nessa primeira temporada episódios movimentados e bem produzidos, com a turma encontrando outros personagens conhecidos dos DCnautas, como Jonah Hex e mesmo uma possível versão futura do Arqueiro Verde bastante parecida com a da clássica HQ Batman: O Cavaleiro das Trevas. Para quem manja dos quadrinhos da editora, os episódios tendem a apresentar boas referências e homenagens a histórias e elementos clássicos dos quadrinhos.

A primeira temporada menor, com 16 episódios (concisa para os padrões da TV aberta estadunidense) também ajuda a não deixar o ritmo cair, tendo menos “encheção de linguiça”. E o clima de aventura épica divertiu satisfatoriamente durante toda sua duração, embora nunca tenha chegado a ser algo realmente empolgante e imperdível.

AGORA VOCÊ É IRRITANTE EM MÚLTIPLOS IDIOMAS

Das três séries da CW, esta, por seu climão sci fi, é a que mais necessita do uso de efeitos especiais. Eles até que estão decentes para o padrão televisivo, principalmente na criação da nave Waverider e seu deslocamento pelo fluxo temporal. Mas claro que em alguns momentos dá algumas inevitáveis escorregadas.

Por exemplo, uma luta importante entre Átomo e um robô acabou sendo mais do que o departamento de efeitos especiais dava conta de fazer com um orçamento modesto. Isso não chega a incomodar, mas o tom mais grandioso do seriado em comparação a seus outros dois irmãos em diversos momentos escancara que ele não tem grana para fazer tudo que se propõe. É algo a ser melhor pensado para o futuro.

Outra coisa que particularmente me incomodou, e isso desde a época que eles estrearam em The Flash, foram as errôneas escolhas interpretativas da dupla Wentworth Miller e Dominic Purcell para seus respectivos personagens. Os dois haviam mandado tão bem em Prison Break, chega a ser estranho como podem ter errado tanto.

Miller está completamente canastrão (e não de um jeito legal) como Leonard Snart, o Capitão Frio, e Purcell exagerou na voz de sujeito durão para o seu Mick Rory, o Onda Térmica. Chega a ser surpreendente como, mesmo com esses exageros interpretativos, são os dois bandidos quem roubaram a cena na primeira temporada. Snart com sua nobreza, mesmo que ele jamais se considere um herói, e o nervoso e psicótico Mick Rory com uma clara evolução dramática e um improvável princípio de amizade com o otimista e bobão Ray Palmer, o Eléktron.

Mesmo não sendo uma primeira temporada marcante, ao final ela acabou sendo satisfatória para um fã de longa data da editora como eu. E ainda deixou pontas bem interessantes para a segunda temporada, bem como a promessa de uma trama ainda maior que a apresentada neste ano de estreia. Seja como for, há espaço para muitas melhorias e elas certamente seriam bem-vindas.

Legends of Tomorrow não é uma boa porta de entrada para os não iniciados no universo DC, mas para quem já conhece o suficiente desse mundo nas HQs, bem como para os apreciadores de Arrow e The Flash, aí já vale dar uma chance a este improvável grupo de heróis. Contudo, se eles de fato se tornarão lendas, só as próximas temporadas dirão.

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REVER GERAL
Nota
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Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Está no DELFOS desde 2005.