Jovens, Loucos e Mais Rebeldes

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Richard Linklater possui um talento especial para captar os anseios e os desejos de uma geração. Seja o par romântico de jovens de Antes do Amanhecer (que depois cresceu com dignidade nas partes seguintes da trilogia), seja os adolescentes de Jovens, Loucos e Rebeldes (1993).

Você deve ter percebido pelo título em português desta nova produção e até mesmo pela tagline do cartaz, que a aponta como uma espécie de “continuação espiritual” do longa que colocou o diretor no mapa, que o novo filme tem suas semelhanças com a obra da década de 1990.

De fato, chamá-lo de “continuação espiritual” parece mesmo mais que apropriado, visto que, embora não seja uma sequência direta e nem sequer tenha os mesmos personagens, tematicamente é mesmo muito similar, com o mesmo feeling da outra produção.

Fica a sensação de que se Linklater tivesse produzido este filme lá por 1997, e não somente agora em 2016, ele de fato poderia ser uma continuação direta, utilizando os mesmos personagens e o mesmo elenco.

Desta vez, sai a galera do ensino médio no último dia de aula de 1976, e entram universitários pouco antes do começo das aulas no ano de 1980. O filme abre com Jake (Blake Jenner) chegando à cidade onde vai estudar. Ele vai cursar faculdade e jogar no time de beisebol da instituição. Assim, vai morar numa casa junto com os outros colegas de time.

O longa inteiro se passa no curso do fim de semana anterior ao início das aulas, com Jake se enturmando com seus novos companheiros, conhecendo as baladas da região, tentando pegar as minas (justificando assim o título em inglês), participando de seu primeiro treino com o time e falando sobre tudo e nada com seus novos amigos.

O filme não tem absolutamente nenhum nome conhecido no elenco, mas todos eles estão muito bem e o senso de camaradagem entre eles, com suas brincadeiras, provocações e altos papos-furados é bastante palpável. A vida numa cidade pequena, com poucas opções de diversão, e a galera tendo de ser criativa para suprir este quesito, também é muito bem retratada.

A escolha da época, a virada da década de 1970 para a de 1980, também está bem representada na reconstituição, com o pessoal frequentando discotecas dignas de Os Embalos de Sábado à Noite e pela trilha sonora cheia de canções do gênero.

O mais legal mesmo é que esse é aquele tipo de filme que não tem um grande fio narrativo. Há a premissa básica e depois é só conversa, quase como se pudessem ser remontadas em diferentes ordens sem alterar o produto final. Você sabe, papos do tipo que você tem com seus amigos quando está tomando uma cerveja e tudo parece muito importante.

É o caso de ou você se identifica com as questões retratadas e curte a experiência ou, se não rolar essa conexão, vai odiar a coisa toda. Para mim, pelo modo como é feito, bem poderia ter 80 minutos como quatro horas e eu ia curtir da mesma maneira. O importante não é para onde ele quer chegar, mas a forma como captura uma geração.

Se você gosta dos filmes mais centrados em diálogos de Richard Linklater até do que da condução da própria trama e, sobretudo, se gostou de Jovens, Loucos e Rebeldes, então sabe exatamente o que esperar deste aqui. Não, ele não é uma continuação oficial, mas o clima definitivamente se mantém. Pode assistir que vale a pena.