Dia dos Mortos

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Satisfaça sua fome por miolos com o nosso especial George Romero:

A Noite dos Mortos-Vivos: O mais fiel registro do que vai acontecer no Dia Z.
Despertar dos Mortos: Quando não houver mais lugar no inferno, os mortos caminharão em um shopping.
Terra dos Mortos: Os zumbis chegam à sociedade feudal.
Madrugada dos Mortos: o remake: Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos vão dançar músicas do Michael Jackson.

É fato que o maior clássico do gênero zumbi é o Madrugada dos Mortos original, cujo título tupiniquim é Despertar dos Mortos (arruinando a sacadinha dos títulos originais “noite/madrugada/dia”). Por algum motivo misterioso, zumbis combinam com shoppings como ruivas combinam com bacon. E se Madrugada é praticamente uma unanimidade entre fãs de zumbis ao redor do mundo, esta terceira parte, Dia dos Mortos, é conhecida por dividir opiniões. Mas antes de qualquer coisa, vamos à sinopse gloriosa e sedenta por miolos.

Como os fãs de Romero já sabem, os filmes de zumbis do cara mudam de personagens a cada filme. Ao invés de acompanharmos sempre o mesmo grupinho de sobreviventes, vemos apenas como a situação dos mortos retornando à vida vai se espalhando e, aos poucos, os humanos vão aprendendo a lidar com essa nova ordem mundial.

Dia dos Mortos mostra justamente isso. Os humanos começam a se organizar e a aceitar o mundo infestado de zumbis como uma realidade. Em uma instalação militar, um grupo de cientistas se esforça para entender o fenômeno, procurando formas de reverter o processo e, principalmente, de domesticá-los (o que me lembra a situação mostrada neste filme).

Como também é comum nos filmes de Romero, os vilões não são os zumbis. Eles são como animais que estão lá e precisam se alimentar. O problema é que essa situação força os humanos aos seus limites, fazendo com que a turminha acabe se tornando inimiga quando mais precisa se unir.

Assim, sobra espaço para as tradicionais críticas sociais. O zumbi domesticado Bub, por exemplo, parece se lembrar vagamente de objetos do dia a dia, como um barbeador, um livro ou um telefone, mas assim que colocam uma arma na frente dele, o miolento imediatamente lembra como manejá-la. É assim que Romero critica o fato de que a violência é inerente ao ser humano.

Aliás, as cenas com Bub são justamente as melhores do filme. É muito tocante vê-lo aprendendo e se lembrando das coisas que fizeram parte da sua vida humana, e podemos até detectar um ar de melancolia e de saudade no seu olhar. Chega a ser poético, daquela forma que só tripas e violência explícita conseguem ser, manja?

Mas o filme também tem defeitos. E graves. Para começar, tem alguns problemas de continuidade na série. Por exemplo, em A Noite dos Mortos-Vivos e Despertar dos Mortos, é estabelecido que qualquer ser humano que morrer vai virar zumbi, a não ser que você destrua o cérebro. Também é assim na quarta parte, Terra dos Mortos. Contudo, aqui alguns humanos morrem com tiros no peito e coisas do tipo e continuam mortos, sem nenhum traço da miolite aguda.

Outra coisa que me incomodou no aspecto de continuidade é que os zumbis de Despertar não são nem um pouco perigosos e parecem ser bem fracos. Tipo, lá dá para impedir que um miolento avance segurando-o com uma mão. E se ele chegar perto de você, ainda vai demorar um tempão para te morder. Cacilda, tem umas cenas que parece que o zumbi está fazendo cafuné no humano antes de almoçá-lo. Neste não é assim, eles são bem mais fortes e perigosos e essa mudança não faz sentido. Tipo, eles aprenderem a usar instrumentos e coisas assim, tudo bem, mas mudar a constituição deles enquanto personagens também não. Ou eles são fortes ou não são, certo? Eles não podem trocar pontos de experiência por upgrades, cacilda!

Para completar meus problemas com o roteiro, o final me decepcionou muito. Acredito que é óbvio para qualquer um que está lendo isso que eventualmente algo dá errado e os zumbis entram na instalação. Ok, neste caso, é um sujeito que decide deixar os zumbis entrarem. E o cara simplesmente levanta da cama, vai lá e abre a porta. Senhoras e senhores, este é o Chewbacca e isso não faz o menor sentido!

Infelizmente, alguns defeitos de Despertar também foram mantidos, como aquela terrível trilha sonora sintetizada que acredito que já era ruim até na época do lançamento e destoa completamente do clima da história.

Contudo, algumas coisas que eram fracas nos filmes anteriores melhoraram. Nosso amigo George “Curioso” Romero parece ter conseguido uma graninha extra e isso se refletiu diretamente na qualidade dos atores e da maquiagem, que está bem mais impressionante dessa vez. Ainda assim, não consigo entender porque colocaram um mano lá com sotaque jamaicano. Isso não tem a menor importância para o personagem ou para o desenvolvimento da história e deixa extremamente difícil entender o que o fulano fala.

No final das contas, Dia dos Mortos é um ótimo filme. Tem seus problemas, mas ainda assim deve ser assistido por qualquer pessoa que saiba que o dia Z é inevitável e quer estar o mais preparado possível para ele quando acontecer.

Curiosidade:

Dia dos Mortos ganhou um remake em 2008 dirigido por Steve Miner, de Halloween H2O e que conta ainda com a Mena Suvari, de Beleza Americana no elenco. Será que é bão? E principalmente, será que chega ao Brasil?

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Nota
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Carlos Eduardo Corrales
Editor-chefe. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).
dia-dos-mortosPaís: EUA<br> Ano: 1985<br> Gênero: Zumbis<br> Duração: 102 minutos<br> Roteiro: George A. Romero<br> Elenco: Lori Cardille, Terry Alexander, Joe Pilato, Jarlath Conroy.<br> Diretor: George A. Romero<br>