Despertar dos Mortos

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Satisfaça sua fome por miolos com o nosso especial George Romero:

A Noite dos Mortos-Vivos: O mais fiel registro do que vai acontecer no Dia Z.
Dia dos Mortos: Como podemos servir de exemplo para os zumbis se nos comportamos tão mal?
Terra dos Mortos: Os zumbis chegam à sociedade feudal.
Madrugada dos Mortos: o remake: Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos vão dançar músicas do Michael Jackson.

Uma das fantasias freqüentes de muita gente é ficar preso em um shopping center, de preferência com acesso a todas as lojas. Mas creio que poucas dessas pessoas (tirando talvez os nerds) gostariam de ficar nessa situação acompanhados de um bando de zumbis.

Sim, amiguinho, por essa combinação você já deve saber que estou falando de um filme do mestre George Romero, Despertar dos Mortos, a segunda parte de sua “quadrilogia dos mortos”, a qual ganhou uma refilmagem recente de Zack Snyder (o homem por trás do homoerótico 300), conhecida por Madrugada dos Mortos.

Em sua segunda empreitada pelo universo dos mortos ambulantes, George apresenta uma situação de transição. Após o início da epidemia de zumbis mostrada em A Noite dos Mortos-Vivos, o número de defuntos canibais cresceu rapidamente e está dominando as grandes cidades. Diante desse fato periclitante, um grupinho de amigos decide fazer o mais sensato e dar no pé. De helicóptero, o piloto Stephen, sua namorada Francine, e a dupla de policiais Peter e Roger (todos interpretados por ilustres, mas bons, desconhecidos, o que só ajuda a melhorar a identificação com os personagens) encontram um shopping isolado e decidem descer para pegar provisões. O lugar está infestado de zumbis, mas a tentação consumista de ter qualquer coisa que desejarem à mão (e sem precisar pagar), faz com que eles ignorem o bom senso e decidam ficar.

A partir daí acompanhamos como o grupo se arranja no lugar, lida com os indesejados mortos-vivos que dividem o espaço e lentamente transforma o enorme centro comercial em seu próprio mundinho particular, quase utópico. Claro, a manutenção dessa utopia vai demandar um alto custo.

Como já é de praxe em um filme de mortos-vivos de Romero, além do terror gore, recebemos também fartas doses de crítica social. Neste caso, o cineasta volta seu foco para o consumismo desenfreado. A visão de zumbis cambaleando trôpegos em frente às lojas não é tão diferente da que se encontra em qualquer shopping center durante um fim de semana. E o sentimento de possessão, não necessariamente apenas material, é explorado em falas e situações, especialmente no final.

No entanto, mais importante que isso é o extremo pessimismo que Romero aplica à própria humanidade. Em sua quadrilogia, mais ameaçadores que os zumbis são os próprios seres humanos. Os mortos-vivos são apenas frutos de um fenômeno inexplicável e simplesmente atendem à sua mais básica necessidade: comer. São as pessoas que se colocam em risco para atender às suas vontades mesquinhas e geralmente são os próprios responsáveis por sua derrocada pelo simples fato de não conseguirem conviver juntos, ou ao menos em grandes grupos. Vide a meia hora final de Despertar, um verdadeiro atestado a essa idéia de que, por mais que a situação esteja ruim e precise de união, fazemos justamente o contrário, piorando tudo ainda mais. Assim, nós somos nosso pior inimigo.

Mesmo com todas essas pesadas críticas, ainda sobra espaço para um pouco de humor, incluindo aí uma cena antológica de hilário desrespeito aos pobres seres em putrefação. E acredite, quanto menos você souber sobre isso, melhor.

Bom, creio que já deu para perceber que eu gosto bastante desse filme. Mas então por que ele não levou a honraria mais desejada do mundo, o Selo Delfiano Supremo? Simples: embora os 126 minutos tenham sanguinolência e críticas sociais das mais refinadas, o parco orçamento do filme dá uma atrapalhada.

Os efeitos de maquiagem, de autoria do mestre Tom Savini (o qual também aparece em frente às câmeras) são demasiadamente toscos. Sabemos que o cara é bom, mas sem dinheiro fica difícil fazer algo de qualidade minimamente satisfatória. É muito evidente que as próteses são de borracha e o sangue utilizado ficou mais parecendo tinta, de tão forte que é a cor. Se você não assiste a um filme desses por causa dos efeitos gore, provavelmente não irá se incomodar, mas para mim isso foi um dos pequenos pecados da película.

Provavelmente George teve de usar grande parte do orçamento no aluguel da locação e do helicóptero, elementos importantes para a história. É realmente uma pena ele não ter tido mais bufunfa, mas se por um lado algumas coisas que inevitavelmente teriam de ser mostradas não ficaram tão a contento, ele se esforçou para mascarar outras. Por exemplo: devido à restrição orçamentária, ele não mostra tantos tiros acertando zumbis, mas dá uma mascarada nesse quesito na montagem. Para quem gosta da parte técnica da filmagem, é uma aula de como lidar com essas restrições com eficiência e simplicidade.

Ah, sim, a trilha sonora é outro ponto fraco. Cheia de sintetizadores cafonas, é a grande responsável por deixar o filme datado. Mas fora isso, não há mais nada de negativo a ser mencionado.

Para aqueles que assistiram apenas à refilmagem de Zack Snyder e esperam por alguma comparação, lamento, mas não poderei fazê-la. Afinal, apesar de a premissa ser a mesma, os personagens e situações são completamente diferentes, tornando-se obras distintas uma da outra. Então o melhor a fazer é assistir aos dois, de preferência um atrás do outro!

Despertar dos Mortos possui tudo o que se espera de um filme do pai dos zumbis: sangue em profusão, críticas ácidas ao maior vilão de todos (o homem), e muita diversão capaz de agradar não só a fãs do terror, mas a um público mais amplo devido ao seu conteúdo de qualidade. De George Romero não se poderia esperar menos.

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Editor-chefe e editor de games. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).