Chappie

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O diretor Neill Blomkamp estava no 1×1. Chegou ao mundo dos longas-metragens com os dois pés na porta com o tremendão Distrito 9 e em seguida decepcionou com Elysium, um bom filme no geral, mas que não faz jus ao talento e criatividade demonstrados em sua primeira tentativa.

Chegou a hora do desempate, pois seu terceiro longa, Chappie, aporta esta semana em nossos cinemas. Bom, indo direto ao ponto, ele é melhor que Elysium, sem aquela cara de quem não teve controle criativo, mas não chega perto de Distrito 9. Volta a pender a balança a seu favor, mas o diretor ainda precisa se esforçar mais para provar que não é um one hit wonder e apresentou todo seu melhor já na estreia. Mas antes de falar mais sobre isso, vamos dar uma passada pela sinopse.

Num futuro próximo, são criados robôs policiais para patrulhar Johannesburgo. O engenheiro dos robôs trabalha por fora num projeto de inteligência artificial e o implanta numa das unidades policiais, criando a primeira forma de vida artificial. Porém, o robô acaba nas mãos de três marginais, que querem usá-lo em seus roubos. Só que ele é basicamente uma criança e tem de ser ensinado sobre tudo.

Essa é só a linha geral da história e há mais coisa na trama, mas não convém contar aqui, até para não tirar muito da graça do negócio. Vale dizer apenas que o longa bebe de boas fontes do cinema de ficção científica, buscando referência em obras como RoboCop (inclusive a voz dos robôs policiais é de ninguém menos que Peter Weller) e Blade Runner, visto que há toda uma discussão sobre a vida e sua finitude, às vezes mais cedo do que se gostaria.

Mas quem matou a charada foi o Corrales, que também estava na cabine, ao dizer que a película o lembrou do clássico oitentista Um Robô em Curto-Circuito. E é por aí mesmo, visto que diferente dos longas anteriores de Blomkamp, aqui não há nada de crítica ou discussão social, privilegiando puramente o entretenimento, com direito até a vilão caricato (Hugh Jackman, de bermuda e mullet!). Sem dizer, claro, que ambas as premissas são bem parecidas.

E assim como o clássico da Sessão da Tarde, este também é mais fanfarrão e levado pelo humor. Chappie é como uma criança inocente e quem acaba por ensiná-lo é um trio de bandidos estilo gangsta, que o ensinam a falar e se portar como um mano, o que gera diversos momentos engraçadinhos.

Isso não quer dizer que não tenha ação, pelo contrário. Ela está presente em boas quantidades e no estilo característico do diretor, envolvendo mechas, câmeras próximas, um bom trabalho de montagem e até uma violência maior do que o tom deste filme pedia.

Aliás, esteticamente,o filme é muito próximo de Distrito 9. Tanto que até achei uma certa covardia de Neill Blomkamp. Já que Elysium não deu certo, voltou a terreno familiar, repetindo o que funcionou. O filme abre com a estética documental de Distrito 9, com depoimentos e cenas de noticiários, só para ser completamente deixada de lado no resto da projeção, sem falar na própria ambientação novamente em Johannesburgo, voltando para o visual árido e desolador de suas favelas e regiões degradadas.

Poderia ter saído da zona de conforto e criado um estilo diferente para o filme, mas ao optar por aproximá-lo de seu primeiro longa, a comparação não só se torna inevitável, como obrigatória. E aí não tem jeito, Chappie pode ter o mesmo visual, mas é só, todo o resto está a léguas de distância. Embora, valha reiterar, que este aqui é um trabalho de puro entretenimento, sem qualquer pretensão crítica.

Se visto sobre essa ótica, o longa funciona muito bem e merece ser visto em tela grande pelos seus efeitos. Mas, a exemplo do que ocorreu com Elysium, fica uma certa decepção no ar por ter sido entregue apenas um bom filme e não algo espetacular. Parte da culpa é do diretor Neill Blomkamp, por ter mostrado muito talento já em sua primeira empreitada, parte pode ser nossa por criarmos expectativas difíceis de serem superadas.

Seja como for, se você conseguir baixar tais expectativas e vê-lo sob a ótica de um filme menor e despretensioso, certamente vai se divertir bastante com Chappie. Agora é esperar para ver o que o diretor fará no novo longa da franquia Alien. Talvez pegar uma série já estabelecida e com estética própria possa lhe proporcionar uma boa mudança de ares. Fica a torcida, como sempre é o caso com ele.