Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

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O diretor Alejandro González Iñárritu estava num ponto delicado de sua carreira. Após a aclamação inicial com Amores Brutos (2000), caiu na armadilha de fazer sempre o mesmo filme. Tanto 21 Gramas quanto Babel tinham exatamente a mesma estrutura de contar várias pequenas histórias de múltiplos personagens interligando todas elas em algum momento em um enredo maior.

Depois de um longa que passou batido por grande parte de público e crítica, Biutiful (2010), parece finalmente ter conseguido se reinventar com Birdman, encontrando novos e bem-vindos rumos para sua carreira, falando justamente de temas como decadência artística e ficar preso às fórmulas que deram certo no passado.

A trama é centrada em Riggan Thomson, ator que, vinte anos atrás, interpretava o popular super-herói Birdman numa bem-sucedida franquia cinematográfica. Atualmente, contudo, Riggan está em franca decadência, e se apega a um projeto de ego, uma peça na Broadway que ele adaptou, dirige e estrela, a qual está a poucos dias da estreia, como última chance de recuperar algo do brilho perdido de sua carreira.

A pressão é grande e Riggan tem de lidar com os egos dos outros atores, problemas familiares e sua própria psique fragilizada. O ator ouve a voz gutural do personagem que o fez famoso funcionando como o “diabinho” em um de seus ombros, tentando-o a tomar as decisões mais fáceis, porém erradas, para revitalizar sua carreira. Ah, sim, ainda por cima ele parece acreditar que possui os super-poderes do herói.

Vale ressaltar para os nerds mais desavisados que, apesar do título e dos elementos fantásticos descritos na sinopse acima, isso não tem nada a ver com um filme de super-heróis, aproximando-se muito mais de um filme-cabeça. O próprio personagem Birdman aparece muito pouco, embora, quando o faça, ele inicie uma das sequências mais viajandonas e bonitas do longa.

A escalação de Michael Keaton como protagonista não é casual, e pode-se traçar um paralelo fácil entre o sujeito que interpretou o Batman pouco mais de 20 anos atrás e seu personagem com uma história de vida similar. Mas, diferente de Riggan, embora após interpretar o Cavaleiro das Trevas Keaton nunca mais tenha experimentado uma fama de mesmo nível, conseguiu manter uma carreira digna nos anos posteriores. Ainda assim, a experiência deve tê-lo ajudado a compor o personagem, uma figura que transita entre o patético e o iludido.

Este é um daqueles típicos filmes que tem um roteiro um tanto excêntrico, mais ao estilo de produções de cunho indie. Apesar da linha geral da sinopse ser bem direta, esses elementos, como a voz que ele ouve ou os poderes que acredita que possui, dão aquele charme esquisitão à produção e a tiram do lugar-comum.

O estilo de direção adotado por Iñárritu é outro bom acerto. Como a grande maioria do filme se passa dentro do teatro onde a peça está sendo encenada, o longa é cheio de planos-sequência acompanhando os atores pelos longos corredores e coxias do lugar e dá uma sensação bastante fluida.

Este também é daquelas produções muito levada pelo elenco cheio de bons nomes e onde todos estão muito bem em seus papéis. Além de Michael Keaton, excelente como protagonista, e do qual já falei alguns parágrafos acima, outros destaques do elenco são Edward Norton como um ator do método excelente no palco e um completo mala fora dele e, surpreendentemente, Zach Galifianakis, como o produtor da peça, pela primeira vez interpretando um personagem que não é uma cópia do Alan da série Se Beber, Não Case.

Birdman é um daqueles longas com uma cara diferente e muito centrado nas atuações. Também representa a tomada de um caminho bem mais interessante por parte de Alejandro González Iñárritu, que com ele parece ter começado uma nova página em sua carreira. Para quem gosta deste tipo de filme e para os fãs do diretor que andavam meio de bode com ele, vale a recomendação.