Guillermo del Toro nunca escondeu sua predileção por monstros e outras criaturas fantásticas. Pelo contrário, costuma povoar suas obras com eles, para alegria de nós nerds, que também gostamos disso. Eis então que ele resolveu, em A Forma da Água, contar uma história de amor. À sua maneira, claro.
Elisa (Sally Hawkins) é uma mulher muda que trabalha como faxineira numa instalação do exército dos EUA. A trama se passa nos anos 1950, durante a Guerra Fria. Eis que um dia chega no local uma criatura marinha capturada e levada lá para ser estudada para ver se pode oferecer alguma vantagem contra os soviéticos.
E não é que Elisa faz amizade com ela e não demora a se descobrir apaixonada pela criatura? E aparentemente o sentimento é mútuo. Mas como podem duas pessoas de mundos tão diferentes (sendo que uma delas sequer é uma pessoa) dar vazão a esse relacionamento? Bom, aí só vendo o filme para saber.
O que posso dizer é que a coisa funciona, nunca cai para o esquisito ou o puramente creepy, algo que, convenhamos, seria fácil de acontecer com uma sinopse dessas. Na realidade, o romance é bem bonito e pode ser encarado como uma metáfora para as relações entre pessoas tidas como minorias, outsiders, alternativos ou como você bem quiser chamar.
Não é gratuito o fato da protagonista possuir uma deficiência física, seu melhor amigo e vizinho ser um homem velho gay, sua melhor amiga do trabalho ser negra (relembro: a trama se passa nos anos 50) e até um dos cientistas do laboratório (Michael Stuhlbarg) é de certa forma marginalizado por motivos que não convém contar aqui.
UM AMOR DIFERENTE
Não deixa de ser uma fábula sobre tolerância quanto a relacionamentos que não se encaixam na dita “regra normal”. Afinal, se uma garota quer namorar uma criatura anfíbia que parece um cruzamento do Monstro da Lagoa Negra com o Abe Sapien de Hellboy (inclusive sendo interpretado pelo mesmo ator, Doug Jones), ninguém tem nada a ver com isso.
O filme é bem bonito visualmente, aproveitando-se daquela estética típica dos anos 1950. Sua condução alterna momentos fofinhos, outros mais engraçados, mas não se furta a pegar mais pesado quando a história pede, até com mais violência do que uma trama desse tipo sugeriria num primeiro momento.
Enquanto o assistia me dei conta de algo que não havia me tocado antes. Há uma grande relação entre as obras de del Toro e Tim Burton. Ambos são sujeitos com uma imaginação que vai sempre para lados mais fantásticos e bizarros. Definitivamente fora do convencional.
E até esteticamente, neste caso, alguns momentos lembram coisas como Edward Mãos-de-Tesoura. Eu diria que o que mais os diferencia é que Tim Burton é mais family friendly, enquanto Guillermo del Toro é bem mais “faca na caveira”, com mais violência e situações mais explícitas. Mas enfim, isso é apenas algo que o filme me suscitou e acho que valia a partilha.
Após o fraco A Colina Escarlate, é bom ver o mexicano dar a volta por cima, embora eu também não tenha considerado A Forma da Água essa maravilha toda que alguns críticos andam dizendo que é. É muito bonito, e é uma experiência que vale a pena ser vista. E para mim isso já está de bom tamanho.