Keeper, da Double Fine. Se tem algo do capitalismo que eu literalmente odeio (quase tudo) é a consolidação. Para quem não sabe, é isso de quase tudo que existe pertencer a poucas empresas enormes. Assista a Space Jam Um Novo Legado, por exemplo, e você vai ver personagens de criança brincando com os estupradores de Laranja Mecânica e com o Pennywise. Isso é extremamente distópico e do mal. O mundo dos games vai pelo mesmo caminho, com quase tudo atualmente pertencendo à Arábia Saudita e à Microsoft.
Algo péssimo vem com essas consolidações: o fechamento de empresas repletas de criativos que a gente gosta. Mas, de vez em quando, muito de vez em quando, o povo que foi adquirido consegue restaurar sua independência. É o caso da Double Fine, que justamente por causa da recém-readquirida liberdade, foi capaz de lançar Keeper no PS5.
Keeper é um joguinho que me interessou muito quando saiu para Xbox. Infelizmente, ele saiu em uma época em que a relação da empresa com a imprensa era péssima – uma representante da Microsoft chegou a me dizer por e-mail que “como os jogos estão no Game Pass, você não precisa de códigos de review”. Ainda é cedo para dizer se as coisas vão melhorar, mas pelo menos mais recentemente eu consegui cobrir o remake de Halo.
KEEPER REVIEW
Com a saída da Double Fine da Microsoft, finalmente posso voltar a lidar com a própria assessoria de imprensa deles. E assim, cá estamos nós com Keeper, um jogo extremamente diferente, belo e criativo. Keeper é um jogo relativamente curto e muitos podem classificá-lo como um walking simulator. Porém, seu gameplay é mais do que apenas andar. Se fosse encaixá-lo num gênero, seria o de quebra-cabeças. Mas bem diferente do que qualquer pessoa pensa quando imagina um jogo de quebra-cabeças.
Para começar, você joga como um farol. Ele anda de forma meio pateta, inclusive cai várias vezes nos primeiros minutos. A animação é realmente especial, e eu adoraria assistir a um filme estrelado por um farol que se movimentasse deste jeito. Porém, em um videogame é um tanto irritante. Difícil atribuir a reclamação à animação, ou mesmo à velocidade. Talvez ambos. Mas se fosse escolher um problema principal, no entanto, seria o fato de que correr, apertando X, parece parar de funcionar sem aviso e com frequência. Assim, antes de se movimentar para aquele local aparentemente aberto, que pode ou não ter um colecionável, você certamente vai pensar duas vezes.
QUEBRANDO A CABEÇA (DO PÁSSARO)
Além do farol que você controla diretamente, você também vai acompanhado de um simpático passarinho (ou melhor, passarinha). Os quebra-cabeças, em sua maioria, dependem da combinação das habilidades de ambos os personagens. Com o farol, você pode mirar sua luz e torná-la mais forte. Isso interage com outros seres vivos e abre passagens e ferramentas. Com o pássaro, por outro lado, você o envia para manipular diretamente itens ou equipamentos. Tipo empurrar uma alavanca ou pegar um breguete. Keeper é um jogo simples, que usa poucos botões. Mas a combinação dos botões é bastante variada e criativa. Há também outros “atos” para a história, que mudam bastante a jogabilidade, mas o quanto você vai gostar disso está sob discussão.
E já que falamos em variada e criativa, o audiovisual de Keeper é um espetáculo à parte. A Double Fine sempre teve bons artistas, que fazem coisas fofinhas e estranhas. Certamente Keeper pode ser descrito desta forma. Porém, ele também parece muito caro. E vá lá, talvez este seja um benefício da consolidação (que não compensa todos os malefícios).
AUDIOVISUAL
O que faz Keeper parecer tão caro não são os desenhos em si, mas a quantidade de detalhes que ele renderiza em cada cena, assim como uma iluminação elaborada que simplesmente não é comum vermos com um visual mais cartunesco. A combinação de tudo gera um jogo visualmente impressionante, que é bonito mesmo quando é intencionalmente feio. Certamente, mesmo sem os quebra-cabeças, já seria legal simplesmente andar de uma ponta a outra de Keeper. A música é sutil, sem temas marcantes, mas que contribui bastante para o clima e atmosfera deliciosos do game.
Embora seja relativamente curto, eu argumentaria que Keeper é mais longo do que deveria ser. O visual, tão marcante no começo, eventualmente passa do surreal para o abstrato, o que tira boa parte da graça. As mudanças de jogabilidade também são algo a se conversar, pois não me agradaram. Eu gostei muito da parte de plataforma e algodão doce, mas os atos seguintes me agradaram bem menos. E eu já estava muito disposto a terminar quando o jogo “mudou”.
Demorou para sair, mas esta é minha opinião sobre Keeper. Um jogo bonito, impressionante e criativo, que finalmente sai das garras da “dona da bola” Microsoft.



































