Uma das grandes verdades neste momento da minha vida é “comunicação é importante”. E boa parte dos problemas realmente graves de Deer & Boy deriva disso. Da estúpida vontade dos desenvolvedores em fazer um jogo não verbal e da completa incapacidade deles em comunicar mecânicas essenciais para você avançar no jogo. Mas antes de falarmos disso…

REVIEW DEER & BOY

Deer & Boy começa bem. E por Tutatis, como é lindo. Sem cutscenes, ele começa com o menino que você controla fungindo de casa no meio da noite. Assim, o início da aventura mostra o moleque se afastando de seu lar enquanto vê notícias sobre a criança desaparecida e os bons samaritanos tentam levá-lo de volta para a família. Eventualmente, será revelado o motivo de seu escape, mas acredite, este é muito menos sinistro do que o que você está imaginando.

Durante sua fuga, o menino encontra um simpático nenê veado. E daí o jogo praticamente repete a cena mais famosa de Bambi. Você sabe, aquela da mãe do veado e do caçador. Uma vez sozinhos, o veado se apega ao menino e vice-versa, e então eles começam a viver juntos. Tudo isso acontece com calma, a ponto de que quando o jogo finalmente mostrou sua pegada sobrenatural, eu fiquei sinceramente decepcionado. Eu realmente gostaria de ter visto e jogado a história de um menino que foge de casa e faz amizade com um animal. Mas esta não é a história que temos aqui.

NO LIMBO NÃO-VERBAL

Muito de Deer & Boy remete diretamente a Limbo. Isso começa no gênero e nas opções estéticas de menu (será mesmo que ninguém consegue criar um plataforma cinematográfico que não envolva seleção de fases em pontinhos?). Mas devido à sua derrocada ao estilo sobrenatural e à insistência em não usar palavras nem nos tutoriais, Deer & Boy começa promissor, mas acaba virando um cover piorado. Infelizmente, muito piorado.

Minha raiva veio justamente de suas mecânicas sub-explicadas. Por exemplo, para abraçar o veado, o mapa de controles e todos os tutoriais de internet dizem que você deve apertar para baixo no direcional digital. Eu apertei para baixo ao longo de muito tempo de jogo, e como não funcionava pensei que ainda não tinha desbloqueado a habilidade. Acontece que, para o jogo registrar, eu precisava SEGURAR para baixo. Depois, o jogo te ensina uma nova habilidade que envolve apertar o triângulo. Obviamente, eu segurei o botão, e o veado usava seu superpoder que não mudava nada no cenário. Acontece que dessa vez eu simplesmente não podia segurar. O jogo não fala isso, mas simplesmente apertar e largar o botão tem outra função, que é a de subir no veado. Estes são dois exemplos de algo que me travou na campanha mais vezes do que os próprios quebra-cabeças. E isso não foi legal.

QUALIDADES E DEFEITOS

Deer & Boy tem qualidades. O visual é demais, o que mostra que o jogo não foi feito nas coxas e que seus problemas não derivam de falta de capricho. O videoclipe de quando o veado cresce, por exemplo, é lindo, emocionante, e sem dúvida o melhor momento do jogo. Ganha até da Hakuna Matata, que acredito que é o videoclipe mais famoso com um animal crescendo. O trabalho de câmeras é outro destaque. Apesar de ser basicamente um sidescroller, a câmera se move bastante e os personagens andam em várias direções com comandos limitados a esquerda e direita.

Porém, é simplesmente um jogo com problemas muito graves. Todo o último ato, por exemplo, acontece em um cenário escuro, abstrato e sem cores. São três características que os videogames usam quando não têm dinheiro suficiente para fazer algo elaborado e bem-feito. E a gente saber disso e ver na prática simplesmente pega mal. Para completar, é exatamente neste ato que o jogo deixa de ser um sidescroller, mas ele simplesmente não te avisa que a movimentação passa a ser possível em qualquer direção. Se você está jogando um sidescroller há cinco horas, simplesmente não vai deduzir que de repente dá para ir para cima e para baixo, mas Deer & Boy espera que você descubra isso sozinho.

MICROFONIA

Minha última reclamação se deve ao design de som, que é muito bom na maior parte do tempo. Porém, tem uma hora em que um som muito alto, que parecia microfonia, toca. Eu pensei que poderia quebrar meu aparelho de som. E não deu outra. Minhas caixas de som simplesmente pararam de produzir som. Eu desliguei e liguei tudo e voltou a funcionar, mas a partir daí eu joguei Deer & Boy bem baixinho (não estava alto antes) para evitar ter um prejuízo de alguns milhares de reais por causa de um jogo que eu nem gostei.

Somando tudo, minha experiência simplesmente não foi positiva. Deer & Boy tem qualidades, mas elas não compensam seus defeitos, nem sua falta de criatividade. Que pena.

REVER GERAL
Nota:
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Carlos Eduardo Corrales
Editor-chefe. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. É o autor dos livros infantis "Pimpa e o Homem do Sono" e "O Shorts Que Queria Ser Chapéu", ambos disponíveis nas livrarias. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).
review-deer-boy-analiseDisponível: Switch, Windows, PS5, Xbox Series<br> Analisada: PS5<br> Desenvolvedora: Lifeline Games<br> Editora: Dear Villagers<br> Lançamento: 23 de junho de 2026<br> Gênero: Plataforma cinematográfico 2.5D