Ao lado da Team Cherry, que fez fama e fortuna com Hollow Knight, acredito que a desenvolvedora independente de maior prestígio hoje é a Yacht Club Games. Também pudera, eles lançaram um jogo excelente com Shovel Knight. E daí passaram anos, muitos anos, desenvolvendo novas campanhas e disponibilizando-as de graça para donos do jogo. É muito raro ver uma desenvolvedora cuidar bem assim do seu público. Mina The Hollower é o primeiro jogo da dev que não é estrelado pelo cavaleiro da pá. E vem depois de uma sequência de spin-offs menores.
REVIEW MINA THE HOLLOWER
Logo a princípio, você vê como a Yacht Club Games é boa, inclusive tecnicamente. Acredita que Mina The Hollower tem suporte a HDR? Eu sinceramente não sabia que era possível um jogo 2D ter isso, ainda mais um com gráficos estilo Nintendinho. Mas cá estamos nós, pensando por qual motivo outras pessoas não fizeram isso antes. E sabe o que outras pessoas não fizeram? Colocar suporte a 120 fps. Cá entre nós, isso é meio óbvio. Se o seu jogo é intencionalmente feito para parecer algo de Nintendinho, é óbvio que ele roda sem problemas a 120 fps num PS5 pintudão. Curiosamente, é necessário ativar isso nas opções, pois inicialmente ele roda apenas a 60 fps. Mas se você tem a TV e o cabo necessários para isso, dá para ativar nas opções e nunca mais olhar para trás.
Tudo isso é coisa técnica, que mostra a qualidade dos programadores da empresa. Mas talvez mais importante do que isso é o talento dos artistas e do game design. E fico feliz em dizer que o primeiro é perfeito. Os personagens são bonitinhos e simpáticos, com excelentes animações. Tudo é feito para ativar suas memórias do Nintendinho, mas obviamente tudo que o jogo faz e mostra é muito mais do que o consolinho da Nintendo seria capaz de fornecer em 1985.
ME MACHUCA QUE EU GOSTO
Como você já sabe, Mina The Hollower é uma homenagem direta a The Legend of Zelda. A visão é de cima, mas o combate é em tempo real. O jogo é também muito difícil. Ele começa bem, com um tutorial desafiador, mas justo. Porém, assim que você chega à cidade e fica livre para explorar, os inimigos se tornam muito mais perigosos e a Mina muito frágil. Por mais cuidado que tenha sido usado na criação do jogo, parece que eles simplesmente desencanaram de tunar. Ou fizeram isso muito, muito mal.
Assim que eu saí da cidade, tentei explorar todos os caminhos que me estavam disponíveis. Aparentemente, apenas um deles poderia ser seguido de verdade, e logo que comecei a seguir, tive que lutar contra um cavaleiro que me matava quase imediatamente, com uns dois golpes. Ao mesmo tempo, eu precisava acertá-lo cinco ou seis vezes para vencer a luta. Parecia injusto.
MAS NÃO VEM ROUBAR MEU DINHEIRO
Felizmente, a Yacht Club Games não contratou o Chef José Marques. O jogo tem uma infinidade de modificadores, e estes servem para mudar absolutamente tudo no jogo. É um nível de flexibilidade que normalmente a gente só tem na versão de PC usando mods. Dá para ficar invencível ou diminuir o dano que você leva. Aumentar a quantidade de XP, checkpoints e até mesmo não perder XP quando morre. Mas dá também para deixar mais difícil. Aumentar a vida dos inimigos e os seus danos é possível. E daí tem a possibilidade de deixar tudo mais estranho ou divertido, com modificadores para fazer a Mina andar mais rápido, ficar gigante ou várias outras coisas nessa linha.
É muito bom ter este tipo de opção numa versão de console. Mas o lado ruim é que boa parte destes modificadores desligam os troféus. E isso não é legal. Poderiam colocar um troféu de “termine sem ativar modificadores”, mas desligar todos por ativar apenas um que diminui o dano que você leva é cachorrada.
THE LEGEND OF ZELDA 1
A dificuldade absurda e aparentemente aleatória pegou mal para mim. Mas o que realmente me incomodou é a falta de transparência no gameplay propriamente dito. É difícil saber para onde ir. Muitas vezes você precisa encontrar um caminho secreto para progredir, no melhor estilo Super Metroid. Isso não se faz em 2026. Pior, é difícil solucionar alguns puzzles e muitas vezes você sequer tem ideia do que fazer.
No final do primeiro dungeon, por exemplo, você encontra um carinha que pede pra ajudar ele a chegar no seu amor. E daí ele começa a te seguir, sabe o bode do meu suvaco pra onde. Só que os inimigos o atacam, e daí ele fica correndo doidão de um lado para outro, até você encostar nele. Logo depois, você encontra uma estátua sem cabeça. O jogo até aí te mostrou algumas vezes que você precisa pegar uma cabeça próxima e carregar até a estátua. Mas nenhuma cabeça parece existir para essa estátua.
Além disso, a inexistência de um mapa parece um problema grande para este tipo de jogo. O mundo parece enorme, com um monte de lugar para ir ao mesmo tempo, mas tenho certeza que quando você sabe o caminho correto, tudo fica bem menor, talvez como o Link’s Awakening.
PROBLEMA DE PRIMEIRO MUNDO
E sim, eu tenho plena convicção de que essas coisas teriam incomodado menos se jogasse após o lançamento. Afinal, antes de passar uma hora andando para lá e para cá procurando uma solução, eu olharia on-line e iria direto onde preciso ir. Mas aí está um ponto que vale martelar: um jogador não deve precisar fazer isso. Um jogo, qualquer jogo, deve ser autossuficiente. Tudo que você precisa saber deve estar nele, não “na internet”. E este não é o caso aqui.
Mina The Hollower tem muitas qualidades. Música, visual, parte técnica como um todo. Até mesmo o gênero é uma delícia. Mas ele se preocupa demais em emular a experiência do Nintendinho, inclusive fazendo o jogador zanzar a esmo. Antigamente, quando a gente era criança, tinha tempo para ficar uma semana ou mais explorando e descobrindo tudo de um mundo. Hoje ninguém mais tem esse tempo. Pelo menos não pessoas adultas, como você e eu.





































