*Esta matéria faz parte de uma série de registros que relatam as experiências vividas em The Solus ProjectVocê pode ler as partes anteriores aqui: Parte 1Parte 2. Parte 3.

DIA 18

Estou nas cavernas outra vez. Tenho certeza que, se dissesse que tenho agorafobia, o jogo seria composto essencialmente por áreas abertas.

Há corredores tóxicos por aqui. Passar por eles me rendeu algumas (muitas) mortes. Com passos rápidos e um pouco de insistência, entretanto, fui capaz de atravessá-los.

Encontro uma grande pirâmide (não daquelas egípcias, tradicionais, mas uma pirâmide modernosa que poderia ter sido projetada por uma versão extraterrestre do Oscar Niemeyer). Avisto alguém (ou alguma coisa) lá em cima, segurando um cajado. Quando me aproximo, a figura segue para outro lado e desaparece.

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Um brinde para você que encontrar o tiozinho do cajado.

O orbe, que passei a procurar desde o fim da Parte 3, passa voando por cima da minha cabeça e flutua para longe. Sinto-me como se estivesse no final de Predador 2, e não me surpreenderia se daqui a pouco avistasse o crânio de um xenomorfo pendurado em alguma parede.

Novamente, vejo-me obrigado a fugir da bola de fumaça, o que gera um clima pra lá de opressor. Nunca sei quando ela vai aparecer e começar a me perseguir, de forma que estou sempre tenso e procurando por rotas de fuga emergenciais. Isso tudo me lembra um pouco o pega-pega com Jack em Resident Evil 7, mas sem aquele humor ácido e as frases sarcásticas que ao menos ofereciam um alívio cômico.

DIA 19

Resolvi alguns puzzles, vim atrás do orbe e agora estou subindo largas montanhas cobertas de neve. Avisto uma enorme hélice instalada em um paredão de pedra. Sinto muito frio. Tenho certeza de que, se eu tivesse pés, eles estariam congelados agora.

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Curitiba.

Jarvis me diz que preciso encontrar quatro ídolos para concluir meu próximo objetivo. Ah, essa é fácil! Peter Griffin, Chris Griffin, Stewie Griffin e Peter Griffin de novo, não necessariamente nessa ordem. Não, não é bem isso. Ao que parece, Jarvis está se referindo a pequenos bonequinhos de palha que estão muitíssimo bem escondidos pelo cenário. Ah, ESSES ídolos. Entendi.

DIA 20

O cenário é enorme e o vento constante dificulta a locomoção. Para piorar, estou com fones de ouvido, e os raios e trovões que arregaçam o céu acima de mim estão gradualmente estourando meus tímpanos. Claro que eu poderia abaixar o volume, mas não quero reduzir a dramaticidade do momento.

Encontro dois dos ídolos necessários para prosseguir. Subindo a encosta gelada, alcanço uma grande sala no interior da montanha e me deparo com esta linda criatura pendurada logo na entrada, contorcendo-se e grunhindo para mim, tentando loucamente se desvencilhar das amarras:

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“Ei, você. Me tira daqui, vai. Eu não vou te machucar (muito).”

Vai dizer que não parece o Killer Croc do Batman? Igualzinho.

DIA 21

Encontro os ídolos restantes e volto para a sala do Croc. Ajeito os ídolos em suas devidas posições e a hélice gigante lá fora começa a girar. Jarvis me diz para retornar às cavernas (ah, não diga). É claro que, quando estou fazendo o caminho de volta, descubro que o Croc não está mais pendurado na entrada do recinto. Mas você acha que eu fico apreensivo por isso?

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Sim, eu fico.

DIA 22

Embrenhado novamente nos túneis de Prometheus, volto a encontrar monstruosas pegadas que, apenas posso supor, pertençam ao Croc. Porque isso aqui é um jogo de horror e sobrevivência, preciso segui-las.

Lá pelas tantas, seguindo as pegadas, avisto um monitor caído no chão à frente, a tela brilhando no escuro e um chiadinho de interferência ecoando pelas paredes do corredor. A tela exibe uma imagem de São Yuri crucificado. Que bad vibe, parça.

Outros monitores surgem à medida que avanço, empilhados uns sobre os outros, iluminando o breu deste labirinto com imagens em diferentes ângulos do cadáver de Yuri. Ah, não. É demais para a minha cabeça. Eu só queria salvar a humanidade, e olha onde vim parar:

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Tipo um crossover de Alien com Poltergeist.

Sigo para uma caverna tão escura que, mesmo com a tocha, é impossível enxergar mais que um ou dois metros adiante. Chega, não dá. Meus nervos me impedem de seguir em frente e decido encerrar o jogo por aqui. É isso aí, gente fina. Sem mais resenha literária, sem mais gameplay textual. Vocês que imaginem por conta própria o final desta história.

DIA 23

Tá, eu continuo.

Entro em uma nova área chamada Path of Ice. Há um grande complexo aqui que passa por dentro das montanhas geladas. Jarvis fica com interferência e uma voz diz através dele: “To us… to us…”. Certeza que é trote.

Isto aqui parece um inferno gelado. Nem sei mais o que estou procurando, apenas caminho (às vezes corro) na direção que Jarvis me aponta, como uma marionete sendo guiada por um titereiro em forma de walkie-talkie.

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Eu não quero ir por aqui.

E se Jarvis estiver tramando algo? Talvez ele esteja do lado dos aliens, afinal. Chega, não seguirei mais os objetivos apontados por ele. Farei meu próprio caminho a partir daqui.

Tornar-me-ei um explorador verdadeiramente livre, desprendido das amarras tecnológicas, como um Indiana Jones do espaço sideral. Sem mais objetivos pré-definidos, sem mais a manipulação silenciosa de ferramentas eletrônicas. Sem mais Jarvis.

DIA 24

Não deu. Parece que, para conseguir avançar na história, preciso mesmo seguir os objetivos apontados por Jarvis. Maldita Skynet.

Seguindo as pegadas no chão, sem conseguir entender por que alguém em plena capacidade de suas faculdades mentais seguiria as pegadas de um monstro, termino por encontrar o corpo bastante morto do Croc:

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Suicidaram ele.

As pegadas terminam aqui. Fico feliz, por um lado: pelo menos sei que o Croc não está por aí atrás de mim, podendo surgir a qualquer momento. Fico não tão feliz, por outro: que tipo de monstro ainda maior e mais assustador teria dado cabo de sua vida?

DIA 25

Estou fazendo contato com tecnologias cada vez mais sofisticadas enquanto avanço em minha angustiante jornada regada a Doritos e Coca-Cola com rum. Aqueles globos oculares do Big Brother estão por todos os lados agora, vigiando atentamente meus passos, e sempre que vejo um deles me lembro daquela música horrível do RPM.

Seguindo por um corredor, avisto ao longe a figura do tiozinho que estava sobre a pirâmide lá no começo do texto, aquele segurando o cajado. Ele está atrás de uma grade, e atrás dele e da grade há outros dois sujeitos. Todos eles têm a mesma aparência do falecido Croc. São, portanto, diversos Crocs.

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Ha.

Antes de prosseguirmos, deixe-me abrir um parêntese.

Fica bastante claro para mim, neste ponto, que estamos lidando com duas raças distintas aqui em Gliese-6143-C: existem os cadáveres humanoides, cujos esqueletos estão espalhados por tudo e foram devidamente fotografados na Parte 3, e existem esses cosplays de Godzilla que deram as caras agora. A julgar pelo que tenho visto, parece-me que os seres humanoides estavam sendo escravizados (ou talvez simplesmente monitorados, como em um experimento) pela raça de Crocs.

Fecha parêntese.

Caminho até as grades e pressiono o botão para que elas se abram. De um lado eu, o futuro da espécie humana. Do outro, o tiozinho do cajado me observando com seus olhinhos de jacaré. Cara a cara. O confronto final! É hoje, rapaz.

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Qualé.

Entretanto, as grades se abrem muito lentamente (tipo muito lentamente mesmo, quase em slow-motion), e o tiozinho do cajado resolve que não quer ficar esperando. Ele vira as costas para mim e caminha para o lado oposto, em direção aos demais Crocs no fundo da sala.

Enquanto isso, sou obrigado a esperar que as grades terminem de se abrir para que eu possa persegui-los. E é claro que, quando finalmente consigo pular para dentro da sala, os Crocs já deram no pé, desaparecendo em uma nuvem de fumaça. Bem coisa de videogame.

Descubro uma sala em cujo centro repousa um trono de pedra cercado por televisores, de onde alguém monitorava tudo o que acontecia neste planeta. Esses Crocs eram uns voyeurs safados! Resta saber se eles estavam apenas vigiando a raça humanoide que vivia aqui ou, mais que isso, interagindo com ela – ou mesmo a torturando.

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Quero ter uma sala assim quando eu crescer.

De qualquer forma, a raça humanoide foi dizimada enquanto os Crocs estavam aqui, escondidos no subsolo (um salve para a Teoria da Terra Oca), e creio que não seria exagero culpá-los por sua extinção.

Seguindo adiante, o caminho só piora: está cada vez mais escuro e não consigo encontrar suprimentos. Atravesso túneis que parecem vivos, com grandes espinhos que descem do teto para empalar qualquer coisa que se mova sob eles.

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Um corredor polonês turbinado.

Inesperadamente, acabo chegando a um local bem agradável, com céu azul e tudo. Como não poderia deixar de ser, fico aliviado por sair da escuridão. Orbes passam voando sobre mim, carregando o que parece ser a peça de uma grande máquina.

DIA 26

Recebo uma transmissão do centro de comando do Projeto Solus. A garota do outro lado me informa que todas as pessoas (isto é, o que restou da humanidade) foram colocadas para hibernar em sono criogênico, pois não há comida ou água suficiente para elas.

Essa garota diz que está sozinha lá em cima, porque alguém precisava colocar a galera para dormir e fazer esta ligação. Com a voz trêmula, ela me chama de “a última esperança da humanidade” e pede que, pelamordedeus, eu faça algo a respeito desse lance de salvar todos eles.

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Primeiro tenho que salvar a mim mesmo.

A garota nem mesmo sabe se consigo ouvi-la, porque não tenho como responder à birosca da mensagem, mas ela tem fé de que estou vivo aqui embaixo e implora para que eu conclua minha missão.

“Manda nudes”, eu digo para ela, gritando a plenos pulmões no falante do comunicador, mas a menina não me ouve, ou finge não ouvir, uma vez que não recebo nenhum. A transmissão se encerra e volto a botar o pé na estrada.

Chego a um grande poço, tão verdadeiramente grande e largo e profundo que caberia até mesmo esta resenha dentro dele. Jarvis me diz para usar o teletransportador para descer pelo buraco, e uma mensagem aparece na tela me alertando de que ficarei um bom tempo sem voltar para cima.

Ou seja: a partir daqui, não há retorno. Estou entrando no estágio final da missão. Antes de ir para o fundo do poço (literalmente), avisto um disco voador se aproximando, o que de certa forma me incentiva a abandonar a superfície e mergulhar de novo no subterrâneo.

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Picasso curtiu isso.

DIA 27 (Quase um mês tentando entender o que está acontecendo e até agora nada)

Vim parar dentro de um vulcão. Estou vendo os Crocs constantemente, mas eles estão sempre um passo à frente de mim. Quando me aproximo, eles viram a esquina de um corredor e desaparecem, ou se distanciam tão rápido que nem consigo segui-los.

Estariam eles intimidados pela minha bravura? Ou seriam apenas um bando de répteis de prédio, com medo de sair na mão? As duas opções são basicamente a mesma coisa, e para meu conforto decido acreditar em ambas.

Encontrei um mapa interestelar. Nele, pude ver 1) o sistema solar, 2) Gliese-6143-C e 3) um planeta ainda desconhecido, mas potencialmente habitável, não muito longe daqui.

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Isso é muito Prometheus.

Recolho uma forma de energia alienígena (uma esfera branca e muito brilhante) do interior de uma máquina e Jarvis me diz para retornar à superfície – para o satélite, uma vez mais.

O menu do jogo me informa de que já explorei todas as áreas possíveis do game. Agora é reta final. Correndo por aí todo destrambelhado, tentando não tropeçar em nada para chegar logo ao final do jogo, alcanço novamente o local da crucificação de Yuri.

Agora há uma pirâmide flutuando sobre o oceano ao fundo. Sigo para o satélite e instalo as peças restantes. Por fim, uso a esfera luminescente para dar um tcham no sistema do satélite e fazê-lo pegar no tranco.

Dois (eu disse DOIS) furacões se formam no horizonte e uma chuva de meteoros despenca do céu – tudo isso simultaneamente. Que momento! Mais épico que isso, só dois disso. Infelizmente morro.

DIA 27 (Vou ficar muito de cara se não receber algumas explicações logo)

O satélite começa a funcionar e, finalmente, consigo ligar para casa. A garota dos nudes atende do outro lado e me identifico para ela como Octavius Sken (misericórdia, preferia ter continuado sem nome!), membro da tripulação da nave Solus 3.

Digo a ela que encontrei resquícios de uma antiga civilização por aqui. “Há coisas vivas neste planeta”, eu digo. E ela parece muito contente por saber que, sim, é possível habitar este planeta. Uhul!

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Bora abrir este champanhe.

Mas, antes que ela se empolgue demais, apresso-me em explicar que essas formas de vida são potencialmente hostis. A garota, contudo, parece sofrer de uma surdez seletiva, e diz com toda a alegria do mundo: “Oh, então Gliese-6143-C pode suportar vida!”. E eu fico, tipo: “É, este planeta suporta vida, que bacana, mas você precisa me escutar, mulher! Essas formas de vida são mais avançadas que nós, elas são um perigo pra burguesia”.

Então eu conto a ela sobre as salas cheias de armadilhas que encontrei, sobre as câmaras de sacrifício, sobre os sinais que apontam para um genocídio ocorrido neste planeta. E, para finalizar, digo a ela que encontrei uma alternativa: há um planeta próximo daqui, um planeta provavelmente mais seguro que este, que pode ser habitado pelo que sobrou da humanidade.

Mas a garota não responde. Teria ela desligado ou estaria finalmente procurando meus merecidos nudes? Quando enfim passo a ela as coordenadas desse tal planeta supostamente seguro, a ligação [insira aqui uma piada com qualquer uma das operadoras do Brasil] começa a falhar e perco a conexão com o centro de comando. Aff, bem quando ia dar boa.

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Vou ter que me virar com o que tenho.

Um disco voador surge no céu, sobrevoando o satélite. Vejo os Crocs se aproximando, saindo das sombras para me cercar. O tiozinho do cajado está entre eles. Ele me diz que está na hora de dormir. Uma luz muito forte toma conta da tela e sou absorvido pela claridade.

Enquanto desmaio, percebo (tarde demais) que os Crocs estavam me usando esse tempo todo, esperando que eu juntasse as partes do satélite e fizesse uma transmissão para casa. Deixaram-me dizer apenas o necessário para que o centro de comando acreditasse que este planeta era habitável, e então cortaram a ligação (sendo, ainda assim, mais eficientes que as operadoras do Brasil).

Fui usado como isca, na maior cara de pau. Eu esperava ser a salvação da humanidade, tá entendendo? Mas agora, por minha causa, ela terá o mesmo destino que a raça humanoide. O que me faz pensar: quantas sociedades já não encontraram seu fim nas patas escamosas dos Crocs e em decisões políticas questionáveis?

Ainda estou digerindo os acontecimentos recentes quando meus olhos se abrem e me vejo deitado no centro de uma sala hipertecnológica – dentro do disco voador, acredito eu, ou quem sabe em um estande da Polishop. O tiozinho do cajado entra na sala e diz que não preciso me preocupar, pois eles irão cuidar muito bem dos meus amigos.

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Nem sei o que dizer.

A visão em primeira pessoa dá lugar à imagem de Gliese-6143-C vista do espaço. Um disco voador surge ao longe, girando como um frisbee espacial, e me pergunto se estou dentro dele. Penso no Jarvis. Espero que tenha sobrevivido. Sobe a trilha sonora. Rolam os créditos. Fim de jogo, para mim e para a humanidade.

Se você está lendo isso, acho que não sobrevivi. Nem sei como estou escrevendo agora, já que fui dominado pelos Crocs. A vida é mesmo engraçada. Sou como o protagonista de Beleza Americana, narrando a própria morte.

Até onde posso ir? Não sei, mas não quero me prolongar muito mais. O que posso dizer para você? Vote com consciência. Fique longe dos Crocs. Passe protetor solar, prefira manteiga a margarina e apadrinhe o DELFOS. É isso, obrigado pela atenção. Os créditos estão terminando agora. Fade-out. Enfim o descanso eterno (ou até que eu resolva jogar de novo).

The Solus Project
Câmbio, desligo.
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Yohan Barczyszyn
Cumpriu pena no curso de jornalismo e agora tenta se recuperar para fazer algo que preste. Entre a prática da quiromania e a escrita, prefere a primeira, por uma questão de domínio técnico. Multi-instrumentista, utiliza a música apenas para justificar o uso contumaz de entorpecentes.