Amizade Colorida

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Muita coisa aconteceu na minha vida após me tornar um delfiano. Tudo por culpa do Corrales, claro, e prometo a mim mesmo que o assombrarei até o fim dos tempos. A infelicidade desta vez começou com um e-mail intitulado “Cabine Amizade Colorida”. Quando abri e vi que era uma comédia romântica com o Justin Timberlake, eu comecei a gritar, derrubei minha caneca de café no teclado, respondi amaldiçoando o dia em que conheci o DELFOS e falei o que faria se fosse obrigado a ir na tal cabine de sexta-feira.

“Calma, Daniel, é para o bem maior,” ele começou. “Eu não posso pegar essa cabine porque tem outro filme ruim no mesmo dia, então vamos sofrer juntos.” Eu respondi que não respondia pelos meus atos após mais de uma hora e meia de comédia romântica com Justin Timberlake, mas que aceitava fazer isso pelo DELFOS. Continuamos brigando por causa disso durante a semana inteira, fazendo com que o quinquagésimo segundo passo para dominação global fosse para o espaço.

GOOD MOURNING/BLACK FRIDAY

Após chegar ao local e verificar que o C4 estava preparado em minha mochila, resolvi ligar para o Corrales (isso lá pelas 9h55) e descobrir onde ele estava. Eu estava desconfiado, afinal, ele poderia ter mentido sobre a existência da cabine de Premonição 5. Ele falou que apareceria na porta em 15 minutos. Resolvi dar uma volta e fiquei um pouco calmo após ver em uma vitrine de uma loja a trilogia de Star Wars em blu-ray e lembrar que o Corrales convidou todo mundo para uma maratona na casa do nosso amigo Cyrilove (agora eu já sou íntimo dele e posso chamá-lo assim).

Surpreendentemente, o Corrales popa na entrada do shopping após 17 minutos, o que me deixou deveras raivoso. Afinal, dois minutos de atraso já indicavam que havia alguma coisa errada naquele dia. Cabine de Premonição 5, sei. Ele estava é me enrolando, e a minha suspeita de que só haveria a exibição do Amizade Colorida no Pátio Shopping Paulista só aumentava.

Conforme andávamos até o cinema, o Corrales, inquieto, começou uma conversa mole. Levanto minha sobrancelha esquerda. “Puxa, é a quinta vez que me ligam hoje. Pode ser uma coisa importante, urgente, eu preciso retornar para essa pessoa.” Eu perguntei se ele conhecia o número. Ele não conhecia, é claro. Aí ele veio com um papo furado de que não coloca créditos no celular. Eu falei que ele poderia fazer a ligação pelo meu celular se colocasse o som no viva-voz, o que o fez suar ainda mais (estava frio no dia da cabine).

Tenso, o Corrales elogiou meu celular novo. “Nossa, que bonitinho! E é flip. Sempre quis um assim! Onde você comprou? Eu também quero!”. A ligação caiu na caixa-postal. “Bem, eu não vou deixar um recado falando que me ligaram do tal número”, falou desconcertado após devolver o celular. Já estávamos perto do cinema.

DON’T WALK AWAY

Chegando lá, havia apenas um balcão com um cartaz grosseiramente enorme do filme Amizade Colorida, uma fila de jornalistas bastante organizada bem à frente e uma assessora de branco credenciando os profissionais. “Estranho, não tem um balcão da Warner”, começou o Corrales, com um sorriso amarelado no rosto. “Geralmente eles são tão organizados. Fique na fila, eu vou até ali falar com a moça de azul e já volto.” Antes mesmo de eu perguntar “qual moça de azul?”, ele sumiu.

Comecei a ranger os dentes de nervosismo, preocupação e raiva quando o Corrales enviou uma mensagem para o meu celular. “Deu problema. Vou precisar ir atrás da cópia de Premonição com eles. Volto em quinze minutos.”

TIME WHAT IS TIME

Quando eu fico muito estressado, começo a comer, e comer muito rápido. Felizmente, havia uma mesa cheia de coisas gostosas para experimentar enquanto aguardava o retorno do ditador para possivelmente realizar um suicídio coletivo.

Passaram cinco minutos. Comi um pão com recheio de peito de peru.

Passaram 10 minutos. Tomei vários copos de sucos de laranja e percebi que havia pedaços de bolo de cenoura com cobertura de chocolate na mesa.

Foram-se 15 minutos. Comecei a lacrimejar, mas aí vi que alguns jornalistas estavam bebendo café e descobri o local onde se conseguia o líquido preto.

Eram 10h30. Todos tinham entrado na sala de cinema. Terminei o café e, sem opções, segui meu destino.

BEYOND THE DOORS OF THE DARK

Sentei-me impaciente na cadeira da sala. Pouco minutos depois, mas que pareceram uma eternidade de xingamentos ao ditador, o filme começou. Fiquei extremamente surpreendido quando comecei a rir logo nos primeiros minutos, mesmo com o Justin Timberlake aparecendo na tela. O filme pegou os diversos problemas de relacionamentos e os transformou em piadas divertidas, mesmo que isso já tenha sido feito várias vezes.

Até consegui esquecer a traição do Corrales, pelo menos durante a maior parte do longa. Os personagens principais são divertidos e interessantes. Há cenas de gargalhar aqui, porque é impossível não se identificar com várias situações dos dois personagens. Os coadjuvantes são excelentes, especialmente o amigo gay do Justin Timberlake (interpretado por Woody Harrelson).

Há algumas referências aqui, como Harry Potter e Seinfeld, e isso é sempre bem legal. Eles até fizeram o sexo entre amigos ficar engraçado, “racionalizando” o processo. Você vai entender quando assistir à cena. O filme também brinca com as próprias fórmulas desgastadas de comédia romântica, embora no final não dê certo, porque ele se rende aos clichês.

Uma outra coisa curiosa é que também neste filme há uma pessoa com a doença de Alzheimer. É interessante a forma que o roteiro encaixou o personagem e fez algumas piadas (leves e até positivas) com isso. Agora, eu não sei se elas estão longe da realidade. Como não conheço ninguém com a doença, não fiquei ofendido, mas eu acho que esse é o tipo de coisa muito delicada para se colocar em um filme de comédia. Dependendo da sua própria experiência e forma de encarar essas coisas, esses momentos do filme podem deixá-lo mais “emocional” ou até irritado.

O problema de Amizade Colorida é que se trata de uma comédia romântica, ou seja, é óbvio demais. É spoiler dizer que os dois amigos que resolveram fazer sexo sem compromisso se apaixonam e ficam juntos no final, depois de se separarem? Não, não é um spoiler. O delfonauta já tinha sacado isso só de olhar o pôster do filme. Ou seja: Amizade Colorida já foi feito várias vezes.

Tirando isso, há os típicos momentos de vergonha alheia com Justin Timberlake cantando em vários momentos do filme. Nessas cenas, eu voltava a pensar em soltar o dedo do detonador, mas felizmente elas passam rápido. A bunda do cara aparece pelo menos umas três vezes também. Bundas masculinas são naturalmente engraçadas, desde que mostradas apenas uma vez. Mais de uma, dá vontade de chorar. Concluí, ao fim da sessão, que temos um filme mediano, um pouco mais divertido e com uma ou outra coisa diferente da maioria dos representantes do gênero.

DEATH IS YOUR SAVIOUR

Após um grande “ufa” quando o filme terminou, resolvi tirar satisfações com o Corrales pelo telefone, que se recusou a atender. Irritado, eu decidi ir embora, arquitetando minha vingança. Quando estava saindo da sala, uma mulher de azul apareceu e se dirigiu a mim. “Ah, aí está você! Nós temos um especial dos melhores filmes do ator Ashton Kutcher para celebrar a carreira dele, já que ele vai entrar no Two and a Half Men. Seu chefe acabou de me ligar e disse que você poderia assistir para fazer a matéria sem problemas.”

Tudo o que me lembro depois disso foi o terror, delfonauta. Foi tamanho que não agüentei e soltei o dedo do detonador. Após o cabum atômico, não sei onde estou agora, não consigo acessar meus e-mails e sinto muita raiva do Corrales. Ele vai me pagar um dia por tudo isso, sim, ele vai.

Whenever the dark is near… I will return from the grave to haunt you… Godforsaken boss.

ANOTHER LIFE

Só para me vingar do Corrales, os intertítulos deste texto são muito mais trües e são nomes de músicas apenas de bandas de metal. O primeiro delfonauta que identificar todas as bandas ganha um selo de trüeza delfiano.

PS: Aproveite para ler a versão do Corrales para essa história na resenha de Premonição 5.