O Último Virgem

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Filmes sobre adolescentes querendo transar a todo custo eram praticamente uma instituição das comédias estadunidenses dos anos 1980. Mais recentemente, tivemos a série American Pie, que resgatou esta orgulhosa tradição teen com hormônios em ebulição.

Quando o convite para O Último Virgem chegou, tudo apontava para uma comédia nacional nos moldes destas produções da terra do Tio Sam que tanto alegraram nossas tardes de infância ou adolescência. E visto que o cinema brasileiro possui longa tradição com filmes que aliam comédia e sacanagem (as pornochanchadas, muito populares nos anos 1970 e começo dos 80), poderia dar certo.

Indo por partes: sim, o longa é exatamente uma versão tupiniquim das comédias teen mais apimentadas dos USA. E não, mesmo com o histórico favorável de produções brasileiras passadas, a coisa não deu liga e o longa mais parece um remake mais barato e muito mais preguiçoso de American Pie.

Até o plot é exatamente o mesmo. Dudu é o último virgem de seu grupo de amigos do colégio. Pressionado pelos comparsas para perder o cabaço antes que a escola chegue ao fim e ele vá para a faculdade, uma chance de ouro parece cair do céu quando a professora mais gata da escola o convida para uma sessão de “estudos particulares”.

Não querendo fazer feio e transparecer sua inexperiência com ela, ele parte numa jornada épica para tirar o lacre antes do tão desejado encontro. Aí você já pode imaginar que altas confusões irão rolar, dificultando ao máximo a honrosa tarefa de Dudu de dar sua primeira bimbada.

Como já disse, tudo é muito, mas muito parecido com American Pie. Desde a primeira cena, envolvendo esperma, passando por muitas outras situações, fica a desconfortável sensação de cópia barata. Diabos, o filme tem até sua própria versão do Stifler, ainda mais irritante e irreal que o original gringo.

Embora os diálogos sejam até bons, usando de gírias e expressões que realmente se utilizam em conversas, o roteiro exagera em martelar o tema de sexo a todo minuto. Caramba, a turma de amigos só fala disso, o que me faz pensar que eles precisam mesmo é de um psiquiatra e não de uma transa.

Como o filme é extremamente derivativo, você já sabe todas as situações que vão acontecer, mesmo que algumas tenham até sido abrasileiradas para melhor comportar nossa realidade. Assim, ele é deveras previsível (você já sabe com quem Dudu irá perder a virgindade desde os minutos iniciais) e completamente sem graça.

Ninguém deu uma mísera risada sequer durante a projeção. O que, nem preciso dizer, depõe muito contra uma comédia. E o maior dos pecados: para uma comédia de cunho sexual, não apresentar um mísero peitinho sequer é deveras broxante. Sim, esta é uma comédia censura livre para uma geração mais inofensiva, que não cresceu vendo mamilos durante as tardes de Cinema em Casa.

Conforme eu sempre digo, é importante que o cinema brasileiro varie mais seus gêneros. E a ideia de fazer uma comédia adolescente mais sacana, nos moldes de outrora, é um acerto. O que não acertou foi a realização, completamente tosca e nada original. Fosse feito com um pouco mais de capricho, poderia ser uma boa opção para quem gosta deste gênero. Não é. O caso então é rever algum dos gringos antigos mesmo, que ao menos entregavam um pouco de nudez gratuita!

REVER GERAL
Nota
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Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Fez parte do DELFOS de 2005 a 2019.