Max Payne 3

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ATENÇÃO: A resenha abaixo contém palavras de baixo calão. Se isso te incomoda, clique aqui e leia sobre um desenho da Disney, caralho!

Poucos jogos me deixaram tão ansioso quanto este Max Payne 3. Eu adoro os dois primeiros e o segundo, Max Payne 2 – The Fall Of Max Payne, foi uma das primeiras resenhas a ganhar o Selo Delfiano Supremo, antes mesmo de o selo existir. Isso que é pintudice!

Esta segunda continuação foi anunciada muitos anos atrás, mas teve um ciclo de desenvolvimento bem longo e complicado. Ainda assim, eu nunca desisti dela, e de tempos em tempos checava se alguma data de lançamento tinha sido anunciada. Quando ele saiu, as resenhas foram bastante positivas, e aí foi só alegria.

EU DEVERIA TER PERCEBIDO QUE TINHA ALGO ERRADO

Finalmente, coloquei minhas mãos cheias de dedos no jogo. Logo de cara, os gráficos se destacaram, mas eu fui aos poucos me decepcionando com o jogo. As legendas eram pequenas e escuras demais, a atuação dos atores brasileiros era fraca e a maldita mira em pontinho, tradicional da Rockstar, é difícil de enxergar e pouco eficiente.

Mesmo a jogabilidade em si parecia inferior à dos jogos anteriores e ainda mais decepcionante se comparada com jogos atuais, como Uncharted 3.

Falando assim, no entanto, parece que Max Payne 3 é uma bomba. E a verdade está longe disso e não reflete minha própria experiência com o jogo. Verdade seja dita, eu me diverti pra caramba com ele. Depois de algumas horas, coisas como as legendas pequenas não me incomodavam mais. Outras ainda me incomodavam, e vou desenvolvê-las mais à frente, mas o importante neste momento é que você saiba que Max Payne 3 é daqueles jogos tão legais que você não quer que acabe. E este é o melhor elogio que pode ser feito a um game.

UM EX-POLICIAL ALCOÓLATRA EM UMA CIDADE QUEBRADA

Em Max Payne 3, nosso ex-policial alcóolatra preferido vem para São Paulo (sim, São Paulo, Brasil =P) como segurança particular da milionária família Branco. Ele acha que vai ser um trabalho fácil, no qual ele vai poder ficar apenas bebendo o tempo todo. Bom, se fosse assim, não rolaria jogo, então acho que você já imagina que as coisas vão complicar bem rápido.

Não sei você, mas quando fiquei sabendo que Maximus Dor Três aconteceria no Brasil, achei estranho. Por que será que escolheram o Brasil para isso? Bom, jogando o game, a inspiração é clara: Tropa de Elite. Diálogos, cenários e cenas inteiras foram tirados diretamente dos longas de sucesso do José Padilha. Lembra, por exemplo, quando um criminoso, na favela, prende um cara com pneus e bota fogo nele? Tem isso no jogo, exatamente dessa forma e no mesmo lugar. Mesmo a tradicional narração do protagonista tem muito a ver com a do Capitão Nascimento. A forma de ambos verem o mundo, em especial, é bastante parecida.

Se o primeiro Max Payne era claramente influenciado por Matrix, este claramente não existiria sem Tropa de Elite. Mas diante de uma inspiração tão clara, por que será que escolheram São Paulo e não o Rio de Janeiro, onde o filme acontece? Bom, caro delfonauta, esta é uma pergunta que eu não sei responder, mas talvez seja só para não deixar a chupinhada muito clara. =]

VOU QUEIMAR SEU CU, FILHO DA PUTA!

Seja como for, essa proximidade com o nosso dia a dia é justamente o que torna Max Payne 3 uma experiência única para nós, brasileiros. Todo mundo está acostumado a entrar em uma sala cheia de inimigos e ouvir alguma coisa tipo “you’re gonna die, motherfucker”, mas ouvir um “vou queimar seu cu, filho da puta!” é algo totalmente novo. Em determinado momento, um carinha veio tentar me pegar, eu atirei nas pernas dele e ele caiu, gritando “fui atingido!”. Ele ainda estava vivo, então atirei de novo, ao que ele gritou “ai, caralho!”. Foi muito engraçado! =P

E não é só isso. Entrar em uma academia e ver um aviso dizendo “Faça supino apenas com auxílio”, assim mesmo, em português, é muito legal. Sem falar em detalhes como placas de trânsito ou o design dos estacionamentos exatamente como é aqui no Brasil. São coisas pequenas, e a gente está tão acostumado com o visual estadunidense que, quando vemos algo realmente como é na nossa cidade, chega a ser até estranho. Mas muito legal, ao mesmo tempo.

Inclusive tem longos diálogos que são totalmente em português, e não existe no jogo uma opção para legendá-los em inglês. Em outras palavras, tem todo um roteiro e uma profundidade na história que só podem ser desfrutados por pessoas que falam português. E absolutamente tudo faz sentido, sem aquelas coisas absurdas como “ei, me passa a sua mira”, que temos no Uncharted 3. E olha que lá a dublagem foi feita especificamente para o Brasil. Aqui, os atores poderiam até falar a língua do The Sims que só a gente mesmo perceberia a falta de autenticidade. Não tinha necessidade internacional para os diálogos entre os brasileiros fazerem sentido e acrescentarem à história.

MAX PAYNE VS. MODERN WARFARE 2

Pelo meu conhecimento, o único outro jogo de grande porte em que dava para jogar no Brasil era Call of Duty: Modern Warfare 2, em que você invade uma favela carioca. Lá, era comum os inimigos gritarem coisas como “ele foi atingido, he’s been shot”, o que era ridículo. Por que diabos ele traduziria o que acabou de dizer para o inglês?

Este tipo de coisa não acontece em Max Payne 3. Aqui os diálogos e gritos de inimigos estão todos dentro de um contexto. As pessoas da favela não falam em inglês nunca. Os personagens com maior nível de instrução falam em inglês com sotaque típico brasileiro apenas quando estão se dirigindo ao Max. Achei muito legal terem pego atores brasileiros que falam inglês para fazer a família Branco, por exemplo. Ok, a atuação brasileira é sempre ruim, e fica ainda pior quando comparada com os personagens feitos por pessoas de outros países (como o próprio Max), mas aí já é um problema dos nossos tespianos, e não tinha muito a ser feito para evitar isso.

Também achei um tremendo charme terem tomado o cuidado de pegar atores com sotaque nordestino para fazer alguns personagens brasileiros. Se você mora em São Paulo, sabe que grande parte da nossa população é composta por pessoas que vieram do nordeste. Este nível de atenção mostra o carinho no desenvolvimento do jogo e dá uma autenticidade absurda a ele. Estadunidenses ou suecos não vão perceber a diferença do português paulistano para o nordestino, e mesmo brasileiros não apontariam a falta de atores nordestinos como uma falha no jogo. Mas eles tomaram este cuidado assim mesmo, só para nós, brasileiros. E isso é muito legal.

Além disso, tem um monte de música cantada em português feita para o jogo, todas elas tocando nos lugares certos. Se você está em um evento social da alta sociedade, vai ouvir uma bossa nova. Em uma casa noturna, algo eletrônico. Na favela, samba ou rap. Tem até uma música que cita o nome do nosso prefeito, feita pelo rapper Emicida. =]

A representação de São Paulo não é perfeita, no entanto. Se os lugares mais chiques realmente são parecidos com os bairros nobres de São Paulo, a favela claramente foi baseada nas favelas cariocas, provavelmente por terem usado o Tropa de Elite como base.

Tem uma fase que rola no Rio Tietê. Quando eu fiquei sabendo que a investigação me levaria para lá, achei maior legal, pois seria uma fase que aconteceria em um lugar conhecido, que poderia ser fielmente reproduzido no jogo. Infelizmente, o Tietê river que o Max visita está mais próximo dos mangues nordestinos do que daquele rio que cruza uma das áreas mais movimentadas de São Paulo. Tem até barcos, portos e coisas assim por ali.

Ainda assim, seria injusto dizer que a Rockstar não tomou cuidado ao representar o Brasil em seu jogo. Sim, tem momentos em que rola algum ruído, como estes citados acima, mas não dá para não admirar os momentos em que Max capta a idiossincrasia do status quo brasileiro, como quando ele encontra umas crianças tirando uma pelada na favela e diz “me falaram que as crianças aqui já saem do útero chutando uma bola. E para a maioria delas essa será a única chance legal de uma vida melhor”.

Talvez alguns brasileiros se ofendam com a representação que o jogo faz de São Paulo, como uma cidade em guerra, sem lei, onde os corruptos mandam em tudo e os cidadãos de bem não têm nenhuma chance de serem felizes. Particularmente, eu vejo São Paulo exatamente dessa forma, então isso não me incomodou, mas considerando que até um filme B genérico já gerou polêmica por aqui, pode ter gente que se incomode.

A JOGABILIDADE NÃO É COMO EU ME LEMBRAVA

Aqui entra o principal problema do jogo, e cá entre nós, é algo que a Rockstar nunca conseguiu fazer direito. Sim, a empresa é ótima para criar ambientações, personagens e história, mas a jogabilidade, mesmo em seus maiores jogos, sempre deixou a dever.

Ao contrário do que era em seus dois primeiros jogos, aqui o Max Payne é um personagem frágil, que morre muito, muito rápido. Às vezes você está andando por um corredor e do nada aparece um cara e te mata antes que você possa reagir. E é mais comum do que deveria você ser morto por alguém que sequer sabe onde está, ou saber que tem pelo menos mais um inimigo no cenário e não ter ideia de sua localização.

Veja bem, Max Payne 3 não é exatamente difícil. Quando você perde toda sua energia, desde que você tenha um painkiller, pode usar o item e voltar à vida automaticamente caso consiga matar o sujeito que te matou. Tem um monte de painkillers espalhados pelo cenário, então é difícil você chegar a morrer de fato. A maior parte das vezes que eu morri não foi por falta de painkillers, mas por não ter conseguido achar o caboclo que me matou. Ainda assim, mesmo quando você consegue achar o cara, é frustrante ter acabado de ressuscitar e, antes mesmo de ficar em pé novamente, já estar com a energia vazia porque o Max morre com dois ou três tiros.

Assim como todos os outros jogos de tiro da Rockstar, você tem uma opção de mira automática, que coloca sua mira automaticamente em um dos inimigos. E o jogo fica quase não-jogável sem isso, graças à fragilidade de Max e aos inimigos difíceis de achar. Eu até comecei a jogar com o free aim, mas o jogo estava tão frustrante que logo me vi obrigado a mudar, e só então comecei a me divertir. Convenhamos, um desenvolvedor achar necessário colocar essa opção em um jogo que é apenas tiroteio (ao contrário do GTA ou do Red Dead Redemption, que têm um monte de outras possibilidades), é uma tremenda admissão de fracasso. Aposto que ninguém sentiu falta dessa função ao jogar Uncharted ou Gears of War, por exemplo. Eu sei que eu não senti.

Além disso, o bullet-time deu um belo passo para trás. Lembra como, em Max Payne 2 – The Fall Of Max Payne, você ia ficando mais rápido e os inimigos mais lentos conforme ia matando eles? Pois isso já era. Agora o bullet-time é simplesmente uma câmera lenta, que dura muito pouco e demora muito para recuperar. Mesmo aquele pulinho famoso, que deixava tudo em câmera lenta, está praticamente inútil, pois deixa Max totalmente vulnerável quando cai no chão e a velocidade volta ao normal. E às vezes até tira energia, se você bater em uma parede no caminho, aumentando ainda mais a fragilidade do personagem. Assim, praticamente eliminaram a maior característica da série, dando aos tiroteios de Max Payne 3 a mesma sensação dos de GTA. E deveria ser bem melhor, uma vez que o foco deste jogo é justamente nisso.

Essas coisas realmente diminuíram minha empolgação e diversão com o jogo, mas é importante ressaltar que não o estragaram. Só não o colocaram no mesmo patamar divino ao lado dos anteriores. Ainda assim, fazem com que Max Payne 3 pareça um jogo datado, especialmente em comparação com os Uncharted da vida (ou seja, outros shooters focados na história).

A HISTÓRIA E O MULTIPLAYER

Max Payne 3 claramente deu umas flertadas com Uncharted, pois tenta ser tão cinemático quanto a história de Nathan Drake, com a diferença que aqui as cenas que tentam ser cinemáticas normalmente se limitam a uma ativação automática do bullet-time.

A história não tem nada de novo, e sua narrativa, com viradinhas a toda momento, é emaranhada e não muito interessante. Isso, somado ao clima sério e às longuíssimas cutscenes não-puláveis (algumas com mais de 15 minutos) acaba dando aquela sensação de “caramba, me deixa jogar”. Ainda assim, os diálogos são tão bem escritos que evitam que as cutscenes sejam entediantes. E os gráficos, provavelmente os melhores e mais realistas dessa geração até o momento, também são dignos de nota.

O multiplayer a princípio pode parecer um tanto forçado para um jogo com foco na história, mas é divertido. Achei legal a forma usada para implementar o bullet-time, afetando apenas dois jogadores (o alvo e o caçador) e não diminuindo a velocidade geral da ação. Eu não sou muito fã de multiplayer competitivo, e não acho que Max Payne 3 vai mudar isso e me fazer colocar o disco no PS3 com esse objetivo, mas as poucas horas que passei nele foram divertidas.

EU FUI OBRIGADO A CONCLUIR, MESMO AINDA TENDO COISAS A DIZER

Max Payne 3 é um jogo excelente, e se torna especial para nós, brasileiros, por ser nossa primeira oportunidade de passar um jogo praticamente inteiro em um Brasil muito bem realizado. Tenho minhas dúvidas sobre quão bom ele seria para um gringo, alguém que não se importe se o jogo rola no Brasil ou em Budapeste. Para essas pessoas, eu recomendaria outros shooters da geração atual, embora Max Payne também tenha seu charme e muitas qualidades. Mas se você é brasileiro e gosta da série, não tenha dúvidas, esta é uma compra cuja diversão é garantida.

Aliás, já leu nossa resenha de Max Payne 2 – The Fall Of Max Payne?

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