Gamma Ray – Live: Skeletons & Majesties

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O Gamma Ray é uma banda bem regular em seus lançamentos, mantendo sempre uma alta qualidade em tudo que lança. Particularmente, eu gosto de todos os seus álbuns, embora tenha alguns preferidos e algumas músicas que não me apetecem lá no meio.

Essa regularidade abrange todo o catálogo dos alemães, com exceção do DVD anterior, Hell yeah!!!, que apesar do nome divertido, é tecnicamente ruim demais. É incompreensível entender porque, em pleno 2008, e após vários anos de pós-produção, resolveram lançar o bagulho em widescreen não anamórfico, o que faz que, quando assistido em qualquer TV widescreen, a imagem fique em um quadradinho pequeno no meio da tela, com bordas pretas de todos os lados. Em todos os DVDs e blu-rays que já vi, tanto de música como de filmes, o do Gamma Ray foi o único a cometer este pecado, denotando um desleixo que não é comum no material dos caras.

Diante disso, foi com um pé atrás que adquiri o blu-ray de Live: Skeletons & Majesties. Por um lado, ainda tinha vontade de um vídeo mais recente do Gamma Ray ao vivo. Afinal, os vídeos anteriores, Heading For The East e Lust for Live são muito curtos e, por serem antigos e originalmente lançados em VHS, não têm a mesma qualidade técnica que se pode esperar de um lançamento recente. Por outro, tinha medo de o blu-ray ter algum abacaxi inexplicável como a imagem do anterior. Introdução feita, vamos à análise detalhada do blu-ray, começando pelo que arruinou o Hell Yeah!!!.

IMAGEM

Agora sim. Dessa vez temos um show filmado em full HD e em widescreen de verdade, preenchendo toda a tela da TV. A qualidade não está 100% o tempo todo, especialmente por algumas utilizações de filtros. Dois, em especial, me incomodaram mais: um que “suja” a tela, como se costuma ver em filmes antigos; e outro que satura as cores, deixando-as semelhantes à imagem daqueles jogos antigos filmados de Sega-CD.

A edição em geral é boa, mostrando o que deve mostrar sem exagerar nos cortes. Em alguns momentos de solos duplos, a imagem se divide, mostrando ambos os guitarristas, o que gera um efeito bem legal. Só não dá para entender porque não usaram a tela inteira para isso.

Além disso, mostra bem pouco o baixista, Dirk Schlächter, que quase não aparece, nem mesmo quando está fazendo o vocal principal (mais sobre isso em breve). Também em alguns momentos a câmera se recusa a mostrar o sujeito que está solando durante todo o solo, algo que é passável caso seja uma transmissão para TV, uma vez que os editores normalmente não sabem direito quem faz o quê, mas em um lançamento oficial, feito pela própria banda, é incompreensível.

SOM

A caixa promete som em Dolby Stereo 2.0 e Dolby Surround 5.1, mas ela é uma mentirosa de meia tigela. Felizmente, aqui as coisas são melhores do que o prometido. O som está disponível em duas mixagens, uma em DTS-HD-MA 2.0 e outra em DTS-HD-MA 5.1.

Curiosamente, o som em 2.0 soa mais aberto e mais impressionante do que a mixagem em 5.1, que é estranhamente abafada. Como a versão em 5.1 não utiliza muito as caixas traseiras, fica a minha recomendação pelo som em estéreo mesmo, ainda que pouquíssimas pessoas comprem blu-ray para ouvir em dois canais.

EMBALAGEM & MENUS

Os menus são bonitinhos em design, mas não muito práticos. Por exemplo, para mudar para a segunda página da lista de músicas, você precisa passar por todos os nomes, um por um, não pode simplesmente colocar para a direita ou para cima, como é padrão. Não dá nem para segurar a tecla para baixo, é necessário dar um clique para cada música mesmo. O pop-up menu, que normalmente possibilita a troca de músicas sem parar o vídeo é inexistente, fazendo apenas aparecer um botão que leva para o menu principal. Além disso, o som toca muito mais alto no menu do que no disco, o que gera um desconforto toda vez que você deseja mudar de música.

A embalagem não tem nada de especial. É uma caixinha simples de blu-ray e dentro traz o disco, uma propaganda com lançamentos da gravadora e um encarte bem grosso e repleto de fotos, prato cheio para quem gosta desse tipo de coisa.

Na contracapa tem também um pequeno texto da banda explicando qual é a da turnê Skeletons & Majesties, mas isso fica para nosso próximo tópico, pois finalmente é chegada a hora de falarmos do conteúdo.

O PRATO PRINCIPAL: SHOW EM PRATTELN

A turnê Skeletons & Majesties tem a ver com o EP de mesmo nome, que traz algumas regravações de músicas raramente tocadas ao vivo (Brothers e Hold Your Ground) e duas versões acústicas de grandes sucessos (Rebellion in Dreamland e Send Me a Sign).

Assim, para esta turnê de pouquíssimos shows, a ideia era resgatar algumas coisas raramente vistas ao vivo e tocar as duas famosonas em suas versões acústicas. É quase a mesma proposta do CD ao vivo Skeletons in the Closet, e o resultado é um setlist deveras legal, com um monte das minhas preferidas.

Dentre essas pérolas temos, por exemplo, The Spirit, excelente petardo que mostra o lado mais hippie do Gamma Ray; ou Farewell, a bela balada tirada do clássico Land of the Free. Aliás, já que falamos em baladas, eu já vi o Gamma Ray ao vivo uma pá de vezes (já vi os caras até em outro país), e não me lembro de eles terem tocado uma balada sequer em nenhum dos shows. Curiosamente, aqui temos duas, e duas das melhores.

A outra balada é A While In Dreamland, provavelmente a música mais fofinha da banda. E veja só que surpresa, aqui ela tem a participação de ninguém menos que o ex-parceiro de Kai Hansen no Helloween e atualmente no Unisonic, Michael Kiske.

O rouxinol participa de três faixas espalhadas pelo setlist. São elas a extremamente positiva Time to Break Free, o clássico do Helloween Future World e a já citada A While in Dreamland. A participação é tão especial que cada uma delas merece um parágrafo só pra ela.

Time To Break Free é uma das minhas preferidas do Gamma Ray e é talvez um dos momentos mais alegres e positivos de toda a história do metal. Por tudo isso, se tornou um dos meus momentos preferidos deste blu-ray. Vale até uma palhinha, não acha? Vale sim! =]

Future World é o encerramento do show, e está presente aqui com o mesmo arranjo com que foi imortalizada no clássico Live in the U.K. do Helloween, incluindo a participação da plateia e o trechinho de I’m All Shook Up, do Elvis Presley. Apesar da presença do Michael Kiske, devo dizer que meu momento preferido nela foi o excelente solo duplo, no qual Kai Hansen e Henjo Richter detonam e ficou simplesmente muito divertido, exatamente como Future World tem que ser. Já A While in Dreamland… hum…

ATÉ O ROUXINOL PODE DECEPCIONAR

Delfonauta, A While in Dreamland ficou decepcionante. Quando vi que ela seria um dueto entre Kai e Michael, fiquei bem empolgado para ver o que sairia. Afinal, a versão original não é um dueto e sequer tem a participação de Kiske, o que torna esta versão totalmente única. Infelizmente, faltou ensaio para que tudo saísse redondinho.

Kiske sobe ao palco carregando a letra da música impressa e mesmo assim erra pra caramba, muitas vezes apenas cantando as notas, sem cantar as palavras. Ele parece também estar inseguro e contendo a voz, pois quando ele e Kai cantam juntos, a voz de Kai apaga completamente a de Kiske. Eu sei, eu também me surpreendi com isso.

Após a música, Hansen ainda se desculpa, dizendo que foi um momento espontâneo. Talvez seja verdade, mas dá a sensação de que faltou esforço e boa vontade. E sabe o que é pior? Mesmo assim eu achei essa versão maior legal. Fuck!

Admito que me surpreendi com a performance de Kiske. Já vi o sujeito ao vivo três vezes, duas com o Avantasia e uma com o Unisonic, e em todas elas achei que ele ao vivo deixava muito a desejar, especialmente porque em estúdio ele provavelmente é o único cantor capaz de competir com o tremendão Freddie Mercury em beleza de timbre e variedade de interpretação. Porém, aqui, com exceção de A While, ele canta direitinho, bem próximo mesmo das versões de estúdio, o que deixa tudo ainda mais legal.

O que deixa um pouco a dever é sua presença de palco, uma vez que ele se mexe bem pouco e passa boa parte do tempo em que está cantando olhando para o chão. Deve ser tímido, vai saber.

Outro que se arrisca no vocal, também em três músicas, é o baixista Dirk Schlächter, que apesar de ter aparentemente brigado com o editor, empresta sua voz para cantar as partes originalmente gravadas por vocalistas que não se chamam Hansen ou Kiske.

A primeira delas é Farewell, onde ele assume a voz que originalmente era de Hansi Kürch, do Blind Guardian. Ele também manda ver na parte de Piet Sielck em Watcher in the Sky – pois é, tem uma música do Iron Savior aqui. Legal, né?

A mais curiosa, no entanto, é Money, gravada no álbum de estreia da banda como um dueto entre o então vocalista Ralf Scheepers e o então apenas guitarrista Kai Hansen. A parte curiosa é que aqui Dirk não assume as partes de Scheepers, mas as de Hansen, com Hansen assumindo o que foi originalmente cantado por Scheepers. Na real, não fez muita diferença e a música está muito boa de qualquer jeito, mas vale como curiosidade, tipo para puxar assunto com minas em baladas.

AS MAJESTADES

As duas versões acústicas também merecem destaque. Rebellion in Dreamland ficou muito legal, bastante diferente de sua versão original. Particularmente, eu nunca vi muita graça quando uma banda faz versões acústicas de baladas que já são quase acústicas. O legal mesmo é pegar faixas rápidas e pesadas e tocá-la em violões. Ok, Rebellion não é exatamente rápida nem pesada, mas é épica, e não tem o tipo de estrutura que costumamos ouvir com violão. Também é um dos grandes destaques do blu-ray.

Send Me a Sign, uma das não baladas mais bonitinhas da banda, também ganhou uma versão semi-acústica. Semi porque seu solo ainda é tocado em uma guitarra. Ela ficou legal, mas não ficou tão diferente quanto Rebellion, e a voz grave que Kai Hansen usa para cantá-la soa um tanto forçada.

Em geral, temos aqui um excelente show, tanto em performance quanto em setlist. A mixagem 5.1 abafada me incomodou o suficiente para eu arrancar o Selo Delfiano Supremo desta resenha, mas ainda assim considero uma compra essencial para fãs dos alemães. Ei, mas por que eu estou concluindo o texto? Ainda nem falamos dos extras. Aguenta mais um pouco? Então vamos nessa!

O ACOMPANHAMENTO: SHOW EM BOCHUM

Além do show completo em Pratteln, o blu-ray traz ainda seis músicas gravadas em outro show. São elas The Spirit, Wings of Destiny, Farewell, Gamma Ray, Time to Break Free e Insurrection. Todas elas também estão presentes no show principal.

Todos os predicados supracitados se encaixam aqui também, bem como os poucos defeitos. Aqui a imagem não conta com os filtros pentelhos, mas o som 5.1 continua mais abafado do que o estéreo. A edição também nem sempre mostra o sujeito que está solando.

Em geral, tanto em performance quanto na parte técnica, não há grande diferença. O palco também tem mais ou menos o mesmo tamanho e exatamente o mesmo design, então fica bem difícil dizer qual show você está assistindo.

A única parte realmente diferente é em Time to Break Free, que aqui também conta com Michael Kiske. A diferença é que aqui ele está com a letra da música impressa, o que não acontece na mesma música no show principal. E pior que ele quase não a usa, ou então faz isso imperceptivelmente. Por causa disso, Time to Break Free é a única que está melhor no outro show, até porque é a única que tem qualquer diferença.

A SOBREMESA

Completando o conteúdo adicional, temos os extras propriamente ditos. Para começar, rola o áudio das quatro músicas principais do EP Skeletons & Majesties em DTS-HD-MA 2.0. Não temos as bonus tracks e é uma pena que elas estejam em estéreo, e não em 5.1, mas a qualidade do som está bem melhor e mais impressionante do que no CD, então vale a pena para audiófilos.

Temos conteúdo em vídeo também. O primeiro são 20 minutos de entrevistas feitas para o blu-ray, com alguns dos membros da banda e também com sua equipe. O mais interessante é um dos sujeitos da equipe que diz que gostaria que o Gamma Ray não precisasse ser tão metal o tempo todo, e que eles deixassem sua faceta psicodélica anos 70 brilhar também. Cara, eu concordo com você. Os três primeiros discos do Gamma Ray, antes da banda jurar fidelidade única e eterna a Odin, eram tão legais. Você pode até gostar mais do som de hoje em dia, mas é inegável que o Gamma Ray do Sigh No More era uma banda única, sem paralelos no metal. Hoje, eles são totalmente power metal, assim como centenas de outras bandas. O Gamma Ray é melhor do que boa parte delas, mas não é lá muito diferente, convenhamos. =]

O conteúdo final é um arquivo de meia hora com vídeos antigos da banda, todos da época do VHS. Temos algumas baboseiras comuns em bastidores, como quando Kai Hansen encena a cena do chuveiro de Psicose, mas também temos muita coisa deveras legal e histórica.

Por exemplo, um desses vídeos mostra o Hansi Kürsch, do Blind Guardian, gravando os corais de Rebellion in Dreamland. Temos também várias entrevistas com os membros antigos, inclusive com Ralf Scheepers, da época em que ele e Kai Hansen eram ambos líderes da banda.

Um outro momento bem interessante é uma apresentadora de TV lendo uma declaração oficial cheia de piadinhas feita por Kai e pelo baterista do Helloween, Ingo Schwichtenberg quando da saída deste primeiro da banda da abóbora. É o tipo de documento histórico, que é muito legal ver.

Por tudo isso, este vídeo se tornou meu conteúdo preferido do blu-ray, tirando o show principal, é claro. Seu único problema é justamente a qualidade, que não esconde a idade das fitas. O chato é pensar que, com um pouco de capricho, poderiam ter restaurado os vídeos em alguma empresa especializada, e em alguns casos seria mais fácil ainda, pois boa parte dos vídeos são da MTV alemã. Provavelmente com um simples contato na emissora, eles conseguiriam o arquivo destes em boa qualidade indo direto na fonte.

ESQUELETOS NO ARMÁRIO

Se pelo show já valia a pena comprar, somando este vídeo de bastidores fica impossível não recomendar. Temos aqui um excelente produto, que é tudo o que o Hell Yeah!!! deveria ter sido e muito mais. Finalmente um vídeo do Gamma Ray que dá vontade de assistir. E reassistir.

REVER GERAL
Nota
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Editor-chefe e editor de games. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).