Far Cry 4

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Far Cry 4 é um jogo lançado com altas responsabilidades, graças ao seu antecessor. Eu mesmo nunca tive muito interesse na série, e peguei o terceiro jogo apenas na intenção de resenhá-lo. Surpresa, surpresa, gostei tanto dele que acabei presenteando-o com o Selo Delfiano Supremo e o posto de melhor jogo de 2012.

Será que esta quarta iteração na franquia vai manter o nível, ou quem sabe, elevá-lo ainda mais? Bom, depois de viver 38 horas e 34 minutos em Kyrat, conseguindo um total de 90,78%, o troféu de platina, e todas as missões e sidemissions concluídas, posso dizer que se você gostou de Far Cry 3, pode comprar este sem medo. Sério mesmo, clique nos banners aqui do site e compre (você nos dá uma humilde comissão fazendo isso).

Se você quer saber mais sobre o jogo, fica por aí. Pegue um crab rangoon, aconchegue-se e venha ler sobre minha passagem por Kyrat, o mundo de Far Cry 4.

TODO COMEÇO TEM UM INÍCIO

Far Cry 3 tem um dos começos mais fortes da história dos games, muito por causa do seu vilão Vaas Montenegro e a excelente interpretação por conta do ator Michael Mando. Assim, havia muita expectativa quanto ao vilão desse novo jogo, e ele não tarda a aparecer.

Você controla Ajay Ghale, um sujeitinho que tem muito pouco do seu passado revelado, mas ele não parece ser um riquinho mimado como o do jogo anterior, o que deixa ainda mais estranho terem aproveitado os gemidos de nojo quando você abre um bicho que acabou de caçar.

Ele vai a Kyrat com o objetivo de cumprir o último pedido da sua mãe: deixar suas cinzas no seu país de origem. É aí que o vilão aparece. Chamado de Pagan Min, trata-se de um rei tão doido quanto glam. Ele logo mostra a que veio, sequestrando você e seu companheiro de viagem. Ele é um antagonista divertido, ainda que não tão marcante e assustador quanto Vaas. Na real, ele não é nem um pouco assustador, puxando bem mais para o lado do humor mesmo.

Ele demonstra dois aspectos que foram consertados em relação ao jogo anterior. Em Far Cry 3, o vilão mais marcante sai da história no meio do jogo, pois ele não era o grande chefe, mas um funcionário do dito-cujo. Aqui não, só temos um vilão. E para compensar os poucos encontros cara a cara que você tem com ele no decorrer da história, ele está constantemente te contatando no walkie-talkie, e essas conversas são deveras engraçadas.

Este é o outro aspecto melhorado. Se Far Cry 3 parecia indeciso se queria seguir uma narrativa séria e pesada ou se queria ser cômico, Far Cry 4 tem um tom mais consistente. Aqui não rolam assuntos pesados como o estupro ou a tortura do game anterior. O humor é mais proeminente, dando à aventura um jeitão mais Indiana Jones. Este é, sem dúvida nenhuma, um jogo pipoca, que visa apenas entreter o jogador. E se dá muito bem neste aspecto.

UM SHOOTER STEALTH

É comum as pessoas se referirem a Far Cry como um FPS. Eu respeitosamente discordo. Para mim, ele está muito mais próximo de um stealth. A diferença é que, enquanto jogos stealth costumam fazer seu personagem ser bem frágil, não dando nenhuma outra alternativa além de se esgueirar pelas sombras (o recente Styx vem à mente), aqui você controla um sujeito poderoso, mais do que capaz de se defender de predadores ou dos mais cruéis inimigos.

Por que ser stealth então? Ora, simplesmente porque é muito mais gratificante. Assim como no anterior, seu personagem tem alguns takedowns poderosíssimos. Para você ter uma ideia, se tiver cinco ou seis inimigos próximos, você consegue matar todos eles de uma vez, e ainda leva um montão de experiência. E por que você abriria mão de algo tão único e especial simplesmente para dar uns tiros?

Ok, nem sempre a abordagem furtiva é uma opção, mas Far Cry 4 tem um level design muito bom, que normalmente deixa a seu critério qual é a melhor forma de lidar com a situação.

O vídeo abaixo dá um bom exemplo disso. Normalmente eu deixo os vídeos de gameplay que uso nas resenhas com algo por volta de dois minutos, mas nesse caso eu esqueci que estava gravando e acabou ficando maior. O legal é que com isso ele ficou bem natural e mostra várias das abordagens possíveis no combate do jogo. Para você ter uma ideia, eu começo a porradaria montado em um elefante, mas quando os desafetos matam o bichinho tenho que adaptar como posso, alternando entre o stealth e o tiroteio aberto. Se liga:

AS POUCAS NOVIDADES

Um dos principais problemas de Far Cry 4, no entanto, é quão parecido ele é com seu antecessor. Temos várias animações repetidas, as mesmas armas, os mesmos animais e os mesmos inimigos.

A ilha em si é bem diferente da anterior. Se Far Cry 3 acontecia em uma ilha paradisíaca, com belas praias e vales, aqui o cenário é mais inóspito e montanhoso, incluindo neve. Também é uma ilha, mas é menos um lugar que você vai para relaxar e mais para se aventurar, o que combina com o clima do jogo.

No campo dos inimigos, a única novidade é o caçador, uma versão da AI para o seu próprio personagem. Ele tem uma abordagem mais stealth: o jogo não avisa quando ele está te vendo, e só é possível marcá-lo com a câmera (uma habilidade que te mostra onde estão todos os inimigos marcados) por alguns segundos. Para ser sincero, ele é bem chato, e acrescenta apenas frustração ao jogo quando você pensa estar escondido e de repente começa a levar flechadas que não sabe de onde vêm.

Tem também algumas novidades na locomoção. Uma bem legal e bem diferente é o rapel, que permite que você escale, desça por montanhas íngremes ou mesmo que se balance entre duas plataformas no esquema “Tarzan”. É bem divertido e bem usado no mundo aberto. É uma pena que as missões não se aproveitem tanto deste novo acréscimo à jogabilidade.

Tem também um mini-helicóptero, que acaba sendo o sucessor espiritual da asa delta do jogo anterior (embora aqui ainda existam asa deltas, elas perderam o charme comparadas ao helicóptero). É a forma mais fácil e prática de cobrir grandes distâncias na ilha, mas é muito chato que tenha um limite de altura especialmente baixo. Tem alguns lugares da ilha nos quais você está voando próximo ao chão e ele já começa a apitar.

Além disso, agora você pode atirar enquanto dirige, e uma novidade bem prática é o autodrive. Pois é, delfonauta, agora se você tem um ponto marcado no seu mapa, basta apertar L3 e deixar o carro ir até lá sozinho, podendo relaxar para admirar as belíssimas paisagens ou para soltar uns pipocos nos desafetos que estiverem ao redor.

REPETINDO AS LIMITAÇÕES FORÇADAS

Um dos principais problemas do antecessor se repete aqui. Seu personagem começa MUITO limitado. Por exemplo, ele só consegue carregar uma arma por vez. Para escapar dessas limitações, você precisa caçar uma grande quantidade de animais de vários tipos, o que não é muito interessante nem divertido. O chato é que é uma coisa que você é obrigado a fazer, ou sua mochila não vai ter espaço para quase nada, você não terá armas e mal poderá carregar dinheiro.

Isso faz com que você passe suas primeiras horas caçando para “se preparar” para o jogo de verdade. Além de não ser divertido, eu sinceramente me sinto mal fazendo esse tipo de coisa. Por exemplo, em determinado momento, eu vi dois rinocerontes bebendo água, e me senti um tremendo vilão ao matar eles. Não é a mesma coisa que matar um leopardo que está te atacando, entende? Isso é algo que espero ser totalmente excluído em futuros games da série. Os animais até podem existir, mas não quero ser obrigado a caçar para me livrar de limitações forçadas que outros FPSs não têm.

Outra coisa que você vai passar as primeiras horas fazendo é escalando as torres de rádio. Isso é necessário para revelar o mapa, outra limitação que poderia não existir. Escalar as torres em si, até que é bem divertido. O problema é ter que gastar tempo indo de uma para outra. Confira abaixo um vídeo comigo escalando uma dessas torres, para ter ideia de como isso funciona em primeira pessoa.

Por fim, outra coisa que você vai fazer bastante é liberar os acampamentos. Isso é muitíssimo divertido, especialmente em cooperativo. O lado ruim é que você acaba sendo obrigado a fazer isso para ter os pontos de fast travel no mapa. Seria melhor se fosse uma atividade opcional, que você faz pelo tesão de fazer, não por necessidade.

E fazê-las é algo que você faria com prazer, delfonauta. É muito satisfatório chegar perto de um acampamento, procurar um local alto, marcar todos os inimigos com a câmera e usar um sniper com silenciador para pegá-los um a um. Só falta uma coisa que já faltava no anterior: a possibilidade de reiniciar o acampamento caso você seja visto ou algo não saia como o planejado. Para fazer isso, você precisa salvar o jogo manualmente e se matar. Burocrático demais para algo que poderia ser uma simples opção no menu.

Ah, e aproveitando o assunto, Far Cry 4 ainda não tem os autosaves cada vez que você faz algo, como em outro jogo da Ubisoft, o Assassin’s Creed. Assim, se você passou um tempo caçando e colhendo plantas, pode perder tudo caso morra, a não ser que salve manualmente. Seria melhor se os saves fossem automáticos cada vez que você pega algo.

E já que falamos dos acampamentos, agora é hora de falar de outra novidade que os torna ainda mais divertidos.

COOPERATIVO

Agora você pode convidar um coleguinha para se juntar ao seu mundo. Juntos, vocês podem explorar, tomar acampamentos ou fazer quaisquer sidemissions. Só ficam fechadas as missões de corrida e as da campanha, todo o resto está aberto para você e sua dupla dinâmica.

E obviamente, o mais legal aí é tomar os acampamentos, especialmente uma das quatro fortalezas – acampamentos mais difíceis, planejados para serem jogados em coop. É muito divertido fazer isso com um amigo, marcando os inimigos juntos e planejando quem vai pegar quem de acordo com as habilidades de cada um. Uma vez, tinha dois inimigos lado a lado, e nós atiramos um em cada um com nossos snipers silenciados ao mesmo tempo. Foi lindo! Confira abaixo o gameplay de um acampamento em uma das minhas aventuras cooperativas.

Claro, se ao contrário de mim, você não for fã de usar um sniper silenciado, sempre pode montar num elefante e matar todo mundo da forma menos sutil possível. Uma coisa que senti falta nos acampamentos é que não é mais tão comum ter um predador por perto para fazer a matança para você, o que era especialmente divertido no jogo anterior.

O coop tem apenas duas grandes falhas. A primeira e mais gritante é que o jogador convidado não salva o progresso (missões feitas ou acampamentos dominados), apenas a experiência adquirida. Não tem porque ser assim, se ambos ainda não fizeram aquele acampamento ou aquela missão, deveria contar para o jogo dos dois, não apenas para o host. Isso acaba deixando menos divertido entrar no jogo de um amigo do que brincar no seu próprio mundo.

Outro lado ruim é que o jogo impede que você converse durante as telas de loading. Isso é facilmente solucionável criando uma party, portanto acaba sendo mais uma inconveniência do que um problema.

Infelizmente, só é possível jogar cooperativo com amigos. Ele até permite que você entre no jogo de um desconhecido ou abra seu jogo para um visitante, mas pela minha experiência, isso não funciona. Eu não consegui entrar no jogo de ninguém ao tentar, e ao abrir o meu mundo por algumas horas, também não fui visitado por ninguém.

PVP

Far Cry 4 também conta com um modo de multiplayer competitivo. Cá entre nós, era melhor que isso nem existisse, pois é um ponto fraquíssimo em um jogo que é muito forte em todos os outros aspectos.

Admito que eu não sou muito fã de PVP, mas este é consideravelmente pior e mais chato do que o convencional. Para você ter uma ideia, sequer tem uma opção de deathmatch. Além disso, há muitos problemas de conexão e é comum você morrer sem nem ter visto quem ou o que te matou.

É normal a câmera mostrar seu assassino neste tipo de multiplayer, mas Far Cry 4 não faz isso, o que torna especialmente frustrante morrer tanto sem saber o que está acontecendo.

Tem também a possibilidade de criar mapas e jogar mapas que outras pessoas criaram, na melhor tradição LittleBigPlanet. Esse tipo de coisa não me apetece muito, mas se você gosta, é uma opção para aumentar a vida de Far Cry 4. Felizmente, independente disso, ele tem uma duração bastante satisfatória, ao contrário da série LBP, que conta com o público para aumentar sua jogatina.

SHANGRI-LA

Tem um tipo de sidemission específico no single player que merece um intertítulo só para ele: as fases de Shangri-La.

Nessas missões, você não controla Ajay, mas um herói da mitologia de Kyrat em sua busca pelo paraíso na Terra. Essas fases são visualmente lindíssimas, e têm um gameplay diferente do jogo principal. Suas armas são limitadas apenas ao arco e flecha, mas é um arco e flecha bem mais pintudo do que o do jogo normal, que tem até bullet time.

Você também tem um tigre amiguinho, que pode usar para distrair ou matar os inimigos, dando ainda mais estratégia para o excelente stealth do jogo. Tem cinco fases em Shangri-La, uma como parte da história e as outras quatro são opcionais. Elas são tão boas que eu até as espalhei durante meu tempo com o jogo para não queimá-las muito rápido. Quer ver o gameplay nessas missões? Seu pedido é uma ordem, delfonauta.

Como nada é perfeito, no entanto, a última dessas missões de Shangri-La traz o único chefe do jogo. E vou te dizer, delfonauta, ele é bem chato. Segue aquele esquema bem longo (deve demorar uns 20 minutos para morrer) e se você perde, volta do comecinho da luta, não interessa quanta energia dele já tenha tirado. Bem frustrante e um dos piores momentos de um jogo tão legal.

E TEM OUTRA COISA

Algumas outras coisinhas valem ser faladas, embora não tão elaboradas. Você tem algumas escolhas ao longo da jogatina, que afetam as missões que você vai fazer e seus objetivos. O resultado final da história não muda muito, mas eu tenho vontade de jogar tudo de novo fazendo as outras escolhas para ver o que mais o jogo me reserva.

A título de curiosidade, eu fiz as missões da Amita. Escolhi ela porque ela já era mais agressiva desde o início, enquanto o Sabal era extremamente amigável. Pensei que seria mais interessante seguir ela e ver as coisas mudando, com ela se tornando mais amigável e o Sabal mais agressivo. Mas essa escolha me doeu bastante, pois em geral eu concordava bem mais com as opiniões do Sabal.

Tem alguns outros pequenos problemas também. Sempre que você tem duas barras de energias sobrando, o jogo fica te empesteando com uma mensagem de “aperte triângulo para se curar”. O problema é que eu, em geral, não queria usar minhas seringas até estar perto da morte e duas energias é bastante na maior parte da história. Mas como essa mensagem não some nunca, era comum eu usar a seringa só para a maldita mensagem sumir.

A trilha sonora também merece destaque. Eu a achei simplesmente excelente, sem dúvida a melhor que eu vi no PS4 até o momento.

Em outro lado do espectro, o jogo permite apenas um save, o que significa que se você quiser jogar de novo, terá que apagar todo o seu progresso, uma limitação que não deveria mais existir nos games atuais.

Isso, somado ao início que obriga você a caçar por várias horas para poder jogar de verdade, me deixa menos animado para jogar de novo, o que é uma pena, pois todos os outros aspectos do game me dão vontade de começá-lo novamente assim que terminei.

Isso também poderia ser melhorado caso houvesse a possibilidade de um replay das missões. Dá para refazer os acampamentos e as corridas, o que é legal, mas eu queria poder jogar de novo as fases de história sem precisar revelar o mapa e caçar tudo de novo.

Também tem alguns bugs que preciso citar. Por várias vezes, os efeitos de som e as vozes sumiram, e eu tive que reiniciar o jogo. Além disso, é comum algumas missões não perceberem que os objetivos foram cumpridos, obrigando o jogador a reiniciar. Por fim, de vez em quando eu terminava uma missão, mas uma mensagem sobre ela no meio da tela não sumia. Adivinha: tinha que reiniciar.

No quesito coisas engraçadas que não deveriam acontecer, também tem coisas que valem ser faladas, como o leopardo de duas cabeças que apareceu para mim (veja na galeria).

CHORANDO DE LONGE PELA QUARTA VEZ

Far Cry 4 é um jogo excelente, sem dúvida um dos melhores disponíveis até o momento para a nova geração e um dos melhores do ano. Sua campanha não tem o mesmo impacto do antecessor, até pelo jogo ser parecido demais, às vezes lembrando mais um spin-off ou um pacote de expansão do que um novo jogo.

Isso, somado ao péssimo PVP e ao frustrante chefe de Shangri-la, custaram meio Alfredo da nota. Porém, esses pequenos problemas não devem fazer com que você não o experimente. Como já disse no início da resenha, se você gostou do terceiro jogo, pode comprar sem medo. Ele me rendeu quase 40 horas de jogo, e a imensa maioria delas foi MUITO divertida.

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Far Cry: O primeiro jogo.

Far Cry 3: Estrelando o melhor vilão da história dos games.

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