Elis

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Elis Regina até hoje é considerada uma das maiores cantoras do Brasil. Uma das precursoras da MPB, indo contra a onda “banquinho e violão” da Bossa Nova que dominava a cena musical à época. E agora ganha a própria cinebiografia para chamar de sua.

Elis, o filme, segue o padrão do gênero sem tirar nem pôr. Mostra desde sua chegada ao Rio de Janeiro, para seguir o sonho de ser cantora, até sua morte por overdose em 1982. No meio disso, claro, sua trajetória meteórica, bem como seus dramas pessoais.

O delfonauta sabe que eu gosto de filmes sobre música ou músicos, independente de eu gostar do gênero musical ou mesmo do artista retratado. Eu não sou fã de MPB e portanto não conheço muito a obra de Elis Regina, mas estava animado para ver o filme e descobrir um pouco mais.

Só que a película sofre daquele velho mal das produções brasileiras, especialmente as cinebriografias. Seu roteiro é vergonhoso de tão horrível. Principalmente os diálogos, o cúmulo da exposição. Em diversos momentos os diálogos servem não para conduzir a história, mas para mostrar ao espectador quem é aquele sujeito que acabou de aparecer e assim por diante.

São erros primários, que prejudicam toda a condução narrativa. Coisas ridículas, como personagens se tratando por seus nomes completos, tipo “como vai, Nelson Motta?”, porque a lógica é explicar através da fala ao espectador que aquele personagem é uma figura importante de nossa música.Você sabe, em detrimento ao fato de que ninguém fala assim, muito menos amigos com um bom grau de intimidade.

Isso é só um pequeno exemplo, e o filme está recheado de casos assim. O problema é que esse excesso de exposição nos diálogos prejudica a qualidade das atuações. As performances dos atores brasileiros, sempre bastante criticadas, sofrem ainda mais com um texto ruim. Não há ator que consiga salvar diálogos tão engessados e inverossímeis.

Como resultado, a maioria das atuações aqui é muito ruim. Por sorte, a protagonista Andréia Horta é uma das poucas que se salvam, conseguindo transmitir com fluidez e naturalidade todas as complexidades da personalidade forte de Elis Regina.

Além disso, o filme também parece nunca se concentrar a contento num período da vida dela. Ele usa de vários recortes e não se aprofunda em nenhum, deixando tudo superficial demais, tudo muito corrido, seja em seu lado profissional, seja no pessoal.

Afinal, logo que ela conhece Ronaldo Bôscoli (seu futuro primeiro marido), ela o odeia imediatamente. Alguns minutos depois ela já mudou de ideia e está se apaixonando por ele. Faltou desenvolvimento para que os fatos de sua vida fossem apresentados com mais calma e naturalidade.

Eu, que, como disse, fui assistir ao filme esperando saber mais de sua vida, saí da sessão sem ter aprendido nada de novo. Pelo contrário, até senti falta de algumas coisas (só uma mísera e curta cena para Falso Brilhante?). E reitero, não sou um admirador da cantora. Logo, se eu que sou leigo não fiquei satisfeito, imagino como será a reação de seus fãs.

Com todos estes problemas, o longa ainda entretém moderadamente e é sempre bom quando uma produção nacional muda o foco das mesmas velhas temáticas de sempre, para apresentar a história de figuras importantes de nossa arte. Assim que nossos cineastas e roteiristas melhorarem a forma de construir essas narrativas, as produções vindouras vão ficar muito melhores.

Do jeito que está, ficou aquela coisa meio “especial da Globo” esticado. Ainda dá para assistir, mas é visível que tinha potencial e deveria ser muito mais do que foi apresentado. Afinal, se Elis Regina foi uma de nossas maiores cantoras, ela mereceria um filme à sua altura, coisa que Elis definitivamente não entrega.

REVER GERAL
Nota
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Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Fez parte do DELFOS de 2005 a 2019.