Anomalisa

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Após parcerias bem-sucedidas com diretores como Spike Jonze e Michel Gondry, o roteirista Charlie Kaufman estreou no comando de um longa-metragem com Sinédoque, Nova York. Agora, mais um debute para o contador de histórias esquisitonas: ele dirige seu primeiro longa-metragem em animação stop motion, todo financiado através do Kickstarter.

Codirigido por Duke Johnson, que cuidou dos aspectos técnicos da tarefa, Anomalisa é uma típica história de Charlie Kaufman, apenas numa roupagem diferente. Michael Stone é um especialista em SAC (o popular atendimento ao consumidor) que vai dar uma palestra em outra cidade. Ele está passando por uma crise existencial e se encontra totalmente desiludido com sua vida e as pessoas. Daí, em sua noite no hotel ele conhece Lisa e rapidamente acredita que ela é o que lhe faltava para sair do marasmo.

De uma forma bem resumida, essa é a sinopse do filme. Claro, no meio disso entram as maluquices do roteirista, num filme que começa como um slice of life até bastante tradicional, não fosse por ele ser em stop motion (nisso, o formato o ajuda a diferenciar de outros do gênero), até que pouco a pouco as excentricidades kaufmanianas vão aparecendo pela tela, complementando a história.

Todos os outros personagens, à exceção de Michael e Lisa, são dublados pelo mesmo ator (Tom Noonan) e possuem a mesma voz, inclusive as mulheres, contribuindo para a alienação do protagonista. Isso e até mesmo o fato dos bonecos terem nos rostos o local para encaixe das diferentes expressões faciais aparentes (como se estivessem usando máscaras) têm um motivo de ser que vai ser usado em algum momento da narrativa.

Assim, tirando essa estranha impressão inicial do design dos bonecos (que se explica posteriormente), eles são bem feitos e a animação é competente, com ângulos e movimentos de câmera típicos de um longa-metragem com gente de carne e osso. Temos também nudez frontal masculina e uma cena de sexo, e sim, aqui, diferente de Team America, os bonecos são anatomicamente corretos!

O filme é ok, embora ele tenha um ritmo mais lento que pode incomodar os mais impacientes, mesmo tendo apenas 90 minutos de duração. Contudo, fiquei com a impressão de que Kaufman está apenas repetindo alguns conceitos já usados por ele mesmo, apenas em uma roupagem diferente, como se isso fosse novidade suficiente.

Às vezes ele parece se perder um pouco em onde exatamente quer chegar, transparecendo mais forma do que conteúdo. Até me surpreendi ao reler a resenha do Corrales para Sinédoque, Nova York e ver que ela recebeu o Selo Supremo. Eu já acho que faltou pulso nesse longa e Kaufman acaba se enrolando além da conta. Senti falta do controle mais firme que os outros diretores talvez imprimam aos seus roteiros, para não descambar demais para o esquisito sem razão de ser.

Também senti isso com Anomalisa, porém em menor escala. Gostei mais desse projeto em relação à sua estreia na direção, embora ainda ache que nenhum dos dois trabalhos figure entre seus melhores momentos. Contudo, se você é fã de Charlie Kaufman, talvez sua opinião não esteja de acordo com a minha, estando mais afinada com a do Corrales. Seja como for, ainda é uma película interessante o bastante para valer uma ida ao cinema.