Space Adventure Cobra The Awakening é um jogo de plataforma 2.5D em fases, baseado em um animê de 1982/1983, por sua vez baseado em um mangá. Um dos maiores elogios que eu faço para games modernos é quando um jogo recente representa bem como eu imaginava que seria o futuro dos jogos na época do Mega Drive. E Space Adventure Cobra The Awakening é um bom representante disso.

O visual é muito legal, com jeitão de desenho animado. As fases são lineares e gostosas de jogar. A música é um jazz dançante muito agradável. E, claro, a história é contada em trechos do desenho animado que inspirou o jogo.

SPACE ADVENTURE COBRA

Lá no fim da era dos 16-bit, com o advento dos jogos em CD, por um breve momento parecia que este era o futuro dos games. Este futuro nunca chegou. Para termos os gráficos realistas de um The Last of Us hoje, foi necessário dar um passo para trás. Quem viveu os anos 90 lembra dos gráficos quadrados. Foi também o fim de jogos sidescroller por um bom tempo. E talvez para sempre as cutscenes filmadas ou em desenho animado.

Mas isso nunca deixou de me agradar. Eu ainda acho muito legal ter trechos do animê Space Cobra no jogo. Sim, seria realmente mais especial se tivéssemos cutscenes no mesmo estilo feitas para o game, mas não é o caso. Esta reutilização de um desenho animado de 1982 causa algum estranhamento. Afinal, em muitos sentidos, como em resolução, o jogo parece ter gráficos melhores do que as cutscenes.

Mas e o jogo? Sim, falemos dele, meu camaradinha astuto!

SPACE ADVENTURE COBRA THE AWAKENING

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O jogo é uma delícia em suas inspirações old-school, mas é também bastante moderno. A jogabilidade é bastante elaborada, muito além do que você esperaria de um Contra-like. Tem vários tipos de tiros, por exemplo. Há o normal, o carregado, o teleguiado – este você controla pelo controle e é uma delícia destruir vários inimigos com uma sequência mortal. O revólver quebra escudos vermelhos, enquanto o ataque corpo a corpo quebra os azuis. E daí tem o cigarro explosivo, botas que andam pelas paredes e o tradicional gancho do Batman. E, claro, tem um ult, que causa dodóis furiosos em todo mundo que estiver na tela.

O jogo é dividido em fases lineares, mas há uma influência de metroidvania. Especificamente, você pode selecionar fases anteriores depois de adquirir novos poderes para colecionar mais breguetes. Não sou muito fã disso, prefiro fazer a rapa na minha primeira visita, mas o jogo até disponibiliza muitos upgrades na primeira vez. Com todas as opções de movimento e combate, Space Adventure Cobra The Awakening é bastante elaborado e parece totalmente moderno. Isso sem falar do audiovisual caprichado. Quando você menos espera, ele coloca variações na fórmula, como fases de stealth ou de natação.

Há 12 episódios, cada um representando um dos primeiros 12 episódios do animê. Alguns episódios têm mais de uma fase, e achei bacana esta divisão baseada no desenho de TV. O que vai deixar muita gente mordida é que o episódio 13 foi adaptado também, mas é vendido à parte. O que eu não gostei muito é da narrativa.

PROBLEMAS DE NARRATIVA

Após uma introdução em que você brinca com todos os poderes do Cobra, ele se vê em maus lençóis e, para escapar, resolve mudar seu rosto e, por algum motivo, apagar sua memória. Não faz sentido ele apagar a própria memória para escapar dos vilões, mas faz menos sentido que a memória retorne quando um bandido fala “ei, você não é o Cobra, é?”.

Além disso, você fica várias fases com poderes bem limitados, e o personagem fala coisas como “se eu tivesse um gancho, poderia subir lá”. Ok, típico de videogame. Mas o que pegou para mim é que ele não coleta um gancho ao longo da campanha. O que acontece é que quando o jogo resolve que é hora do upgrade, ele simplesmente fala “eu posso usar o gancho para subir lá” e a partir daí o poder volta a funcionar, inclusive nas fases anteriores. Sinceramente, pareceu um tanto amador ele simplesmente resolver usar o gancho quando a hora fosse certa depois de ter reclamado antes que não tinha o equipamento. Não poderiam ter colocado um item de upgrade nas fases?

O PIOR CHEFE DE TODOS OS TEMPOS

Até aqui, eu daria para Space Adventure Cobra The Awakening quatro dragões vermelhos fofinhos. Mas há um chefe muito, muito ruim, que sinceramente fez sozinho com que eu tirasse um dragão inteiro da nota. Depois de duas exaustivas fases em que ele deixa claro que apenas seu revólver é capaz de machucá-lo, o Crystal Bowie começa a voar em uma prancha e fica fica 90% do tempo fora do alcance da sua arma. Pois é, o revólver não aceita atirar para cima. Quando o chefe passa onde dá para atingí-lo, você tira uma pequena lâmina de sua vida, e batata que ele tira um bom pedaço da sua.

Pois bem, depois de perder uma hora da minha vida nele, estava a ponto de desistir e então descobri que minha arma principal, que sabia atirar para cima, de fato não fazia dano no chefe. Mas machucava sua prancha. O que eu precisava era atirar nela repetidas vezes até ser destruída, e então quando o vilão caísse no chão, teria alguns poucos segundos para atacá-lo antes de ele brincar de Surfista Prateado de novo. Ainda é um lixo de chefe, mas isso tornou possível vencê-lo e continuar. Não sem antes arrancar pontos da nota, claro.

COBRA (KAI)

Eu não sou muito fã de animês e, apesar de gostar das cutscenes serem animadas, não é para vê-las que resolvi jogar. Felizmente, apesar dos problemas narrativos e do chefe pentelho supracitado, a campanha é divertida, substanciosa, e compensa o preço de admissão. Space Adventure Cobra The Awakening foi uma surpresa deliciosa, um jogo que me divertiu, e que vai, portanto, com uma forte recomendação delfiana. Mas fica a dica para todos os desenvolvedores lendo isso: se você não sabe fazer chefes, simplesmente não faça.