Esta Beat’em up Collection (QUbyte Classics) é um caso fascinante. É muito comum vermos jogos antigos sendo relançados. Normalmente são jogos bons, ou baseados em grandes franquias, ou lembrados com nostalgia. Esta coleção, no entanto, traz sete jogos desconhecidos, obscuros ou feitos sem licença das plataformas originais. De todos os incluídos, eu conhecia apenas um, e este é considerado um dos piores jogos de Mega Drive já feitos. Os outros vão do péssimo ao muito fracos. Para deixar o título óbvio e sem inspiração mais complicado, três dos sete jogos simplesmente não são beat’em ups. Em outras palavras, tem tanta coisa errada aqui que é assustador pensar que estes jogos estão sendo relançados em 2025.
REVIEW BEAT’EM UP COLLECTION
Vamos começar deixando claro. Não tem nada de (muito) errado com a coleção em si. Os jogos são, na maior parte do tempo, bem emulados. Eu vi imagens estranhas em um momento de dois jogos, mas não tenho certeza se foi problema de emulação ou do jogo original. Cada game tem quatro espaços de save, dá para configurar os controles como desejar, e há opções básicas de emulador, como rebobinar ou scanlines.
De extras, cada jogo tem um sound test, manuais (aparentemente feitos para esta coleção, não são os antigos) e um texto com alguns dados de cada lançamento. Estes textos trazem erros feios de inglês, mas vale ler, pois explicam quais jogos saíram originalmente sem licença das plataformas, quais saíram apenas na China, e assim por diante. Em geral, através dos textos você tem uma ideia do que vai jogar e do motivo pelo qual nunca ouviu falar deles.
O menu é bonitinho e acessível, embora a ordem dos jogos seja estranha, já que os games não estão organizados por plataforma original, ano de lançamento nem alfabética. Parece apenas aleatório. Pelo que pude constatar, todos os jogos estão aqui em suas versões de Super Nintendo e de Mega Drive, embora pelo menos um deles tenha saído para arcade e dois (se não me engano) sejam originais de Amiga. Eu passei muitas horas com esta coleção, joguei todos os jogos até o fim, então agora vou falar um pouquinho de cada um deles.
Todos os jogos trazem também cheats. Coisas essenciais hoje em dia, como vidas e continues infinitos, mas também coisas que afetam consideravelmente o game design. Falo mais em breve.
GOURMET WARRIORS

Este é um jogo estranho. Intencionalmente estranho. Os inimigos são bizarros, o nome é absurdo e você recupera vida entre as fases combinando alimentos e cozinhando. É um beat’em up que coloca toda sua personalidade no estranhamento, e esta é sua única graça. Como jogo, não é gostoso e eu achei legal jogá-lo apenas para aumentar meu repertório. Imaginei que o restante da coletânea seria melhor. Infelizmente, este é provavelmente o segundo melhor incluído aqui.
FIRST SAMURAI
Este é um plataforma 2D estilo Ninja Gaiden de Nintendinho, com navegação de proto-metroidvania. Ele é dividido em fases, mas você pode explorar em qualquer direção. Para passar de fase, você precisa coletar cinco breguetes e daí ir a um ponto aleatório e específico da fase, onde o chefe vai aparecer. Este é o jogo em que os cheats mais afetam a experiência, pois dá para você já começar as fases com os cinco breguetes. Daí, basta encontrar o chefe. E isso também dá trabalho e é muito chato.
O principal problema de First Samurai é o sino de feitiçaria. Este sino pode ser usado a qualquer momento, mas se você usar no lugar certo, ele abre o caminho para avançar. Alguns casos são óbvios. Por exemplo, tem fogo bloqueando seu caminho, daí o feitiço apaga o fogo. Em outros, é de arrancar os cabelos. Tem uma fase em que você precisa usá-lo em uma plataforma específica para aparecer escadas. Ridículo. First Samurai é um jogo praticamente impossível de acabar se você não estiver assistindo a um vídeo guia enquanto joga. E dificilmente eu teria jogado até o fim se não estivesse jogando a trabalho.
SECOND SAMURAI
Curiosamente, esta continuação de First Samurai saiu apenas para Mega Drive, considerando que o anterior saiu apenas para SNES. O jogo é bem mais simples, e isso é bom. Você ainda precisa pegar breguetes para avançar, mas como as fases são quase exclusivamente side-scrollers, é menos chato. O sino, felizmente, ficou de fora também, então você sempre sabe para onde ir. Ainda assim, não é um jogo recomendável e é bem difícil se divertir com ele.
SWORD OF SODAN
Este é o único que eu conhecia. Quando tinha uns 11 anos, aluguei o desgraçado. Se você está pensando “Corrales não gostou destes jogos porque são antigos”, permita-me dizer que já achei Sword of Sodan um lixo no início dos anos 90. O jogo é feio, a animação é truncada e o gameplay é um dos piores já feitos. Você pode apenas andar para a direita e esquerda, e é praticamente impossível vencer um inimigo – qualquer inimigo – sem ser atingido várias vezes. O jogo não tem música, os efeitos sonoros são barulhinhos sem sentido. Enfim, nada se salva.

Na infância, eu obviamente não tirava dinheiro do meu próprio bolso para alugar um jogo, e mesmo assim fiquei muito decepcionado de ter gastado “o jogo do final de semana” com esta porcaria. Na verdade, o jogo é tão ruim que me marcou bastante, mas de alguma forma, eu não lembrava do seu nome. Lembrava dos gráficos, da jogabilidade, basicamente de tudo. Menos do nome. Se esta coletânea serviu para algo foi para dar nome ao boi.
Sword of Sodan é considerado por muita gente um dos piores jogos de Mega Drive (se liga nos resultados do Google) e olha, provavelmente é mesmo. Também foi um dos primeiros jogos extremamente violentos que eu vi na vida. Aluguei ele próximo do Immortal, e quando constatei que ambos eram da EA, achei que a editora só fazia jogos violentos e “para adultos”. E podia até ser verdade na época, mas os dois eram simplesmente muito ruins, e usavam a violência apenas para chamar a atenção.
LEGEND
Legend volta aos beat’em ups propriamente ditos. Ele é um jogo sem nada de especial, algo entre o ruim e o mediano, que talvez eu tivesse gostado se tivesse jogado nos anos 90, quando ainda conseguia me divertir com porcarias. Hoje, ele parece bem melhor do que os três últimos jogos citados, mas simplesmente não há motivos para jogá-lo.
IRON COMMANDO
Iron Commando também é feito pela The Arcade Crew, a mesma desenvolvedora do Legend. Curiosamente, é o único jogo nesta suposta coleção de beat’em ups que traz a temática tradicional do gênero, de briga de rua. E inicialmente até empolga, mas a IA é totalmente desregulada. Você não consegue dar dois socos seguidos sem alguém te derrubar. A escopeta, por exemplo, exige aquela masturbada tradicional antes de atirar e é quase impossível conseguir fazer isso antes de levar porrada, cair e derrubar a arma. A única forma de suportar este jogo é ligando nos cheats a munição infinita, pegando uma metralhadora e jogar fingindo ser Contra. Um Contra bem ruim, mas é a única forma que dá para explicar ele ter passado pelo QA e sido lançado de verdade.
WATER MARGIN
Water Margin é um jogo feito para o mercado chinês para o Mega Drive sem licença da Sega. A desenvolvedora em questão se especializava em “jogos ilegais”. Não parece um prognóstico positivo, né? Pois para minha surpresa, e provavelmente a sua, Water Margin é de longe o melhor jogo da coletânea. Não é um bom jogo, de forma alguma. Mas sua campanha foi o mais perto que eu cheguei aqui de me considerar entretido. O que é diferente de estar se divertindo.
Water Margin não é bom, mas diante das outras coisas incluídas aqui, é um jogo que dá para jogar até o final. Ele é relativamente bonito, tem músicas de verdade e parece balanceado. O que mais me incomodou nele foi a programação da IA, que segue a cartilha dos anos 90 à risca. Ou seja, os inimigos sempre te atacam por trás e os que estão na frente sempre dão distância suficiente para você não conseguir atacá-los. Isso deixa meio chato quando você tem que limpar todas as telas, mas de novo, era algo bem comum mesmo em jogos bons da época, como Golden Axe.
BEAT’EM UP COLLECTION (QUBYTE CLASSICS)
E assim falamos de todos os jogos incluídos. É uma coletânea totalmente aleatória, desprovida de clássicos ou mesmo de alguma relação clara entre os jogos (com exceção da série First/Second Samurai), feitos por desenvolvedoras distintas e que só estão aqui porque de alguma forma a QUByte adquiriu os direitos. Aliás, vale falar que quase todos já tinham sido lançados individualmente para plataformas modernas pela própria QUByte. Assim, o que esta coletânea fez foi juntar vários jogos lançados pela empresa brasileira em uma coletânea, o que sem dúvida é uma forma melhor de comprar todos. Mas ainda fico pasmo ao constatar que Sword of Sodan foi relançado duas vezes, sendo que tantos jogos bons de Mega Drive ficaram esquecidos na história e hoje só podem ser curtidos em emulador.





































