Van Halen – A Different Kind of Truth

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Eddie Van Halen é uma das maiores lendas da guitarra elétrica. Depois de Jimi Hendrix, Eddie talvez seja o homem que mais influenciou a forma de se tocar o instrumento no mundo. Porém, depois dos fracassos da era Gary Cherone e a luta contra um câncer na língua, parecia que o guitarrista não voltaria a mostrar seus tappings e solos incríveis para os fãs. Mas, para alegria de muitos, Eddie se recuperou e a banda começou aos poucos a renascer, culminando na inesperada segunda volta de David Lee Roth aos vocais e a inserção de seu filho, Wolfgang Van Halen, no baixo, substituindo Michael Anthony. Agora, 14 anos depois do último CD de inéditas, o Van Halen III (1998), finalmente temos um novo material, o aguardado A Different Kind of Truth.

Se você acompanha as notícias do DELFOS, você foi testemunha da minha própria desconfiança com relação a esse álbum enquanto teasers e músicas eram lançadas. O single escolhido, Tattoo, não tinha me empolgado nem um pouco. Mas agora você vê aquele selo ali em cima e pensa: “O que aconteceu?”. Pois é, caro delfonauta, eu nunca estive tão feliz em estar errado. Sem dúvida, os teasers não fazem jus ao novo trabalho do Van Halen.

Tattoo, a faixa escolhida como single, abre o CD. É uma faixa mais comercial, cadenciada, por isso foi a escolhida. Porém, se você não gostou dela, fique tranquilo: talvez seja a mais fraca do álbum. Não que ela seja ruim, longe disso, é uma faixa extremamente competente e tem um solo ótimo (o que é dispensável falar, uma vez que estamos falando de Eddie Van Halen), mas as coisas vão engrenando mesmo depois dela.

She’s The Woman sim nos mostra o que podemos esperar deste CD, com um refrão que nasceu para ser cantado ao lado dos clássicos da banda. Seguindo, temos You And Your Blues, que nos transporta de volta aos anos 80. Chinatown começa com um riff alucinado e explode em energia, e a agradável Blood And Fire (uma das que, nos teasers, eu achei média, mas que, no álbum, ganha força) começa lenta e nos brinda com um refrão agradavelmente pegajoso.

Chegamos à metade do álbum, e somos brindados com Eddie flertando com um estilo que lhe deve muito, e sempre foi um admirador nada secreto de seu trabalho: o metal. Bullethead traz a velocidade do estilo, enquanto As Is, a minha preferida do álbum, é uma faixa completa. A introdução conduzida pelo baterista Alex Van Halen logo ganha a companhia de um riff pesado de guitarra, mas que, depois, se desdobra num insano e divertido acompanhamento para Diamond Dave mostrar toda sua fanfarronice, pedindo até “um pouco mais de volume no fone de ouvido” no meio da música. Seguindo a canção, Dave explora seus graves numa levada blues, até o riff explodir novamente. Se alguém tinha dúvidas se o Van Halen tinha voltado, os tappings no solo deixam claro que Eddie continua em forma.

Nesse momento, peço licença para comentar sobre os membros da banda. Alex continua mostrando uma tremenda segurança na bateria e, agora, acompanhado do sobrinho Wolfgang, formam uma cozinha para lá de competente. Aliás, não senti muita falta de Michael Anthony. Talvez nos backing vocals. Mas, se um baixista é lembrado mais pelos seus backings do que pelo seu trabalho no baixo, algo está errado aí. A adição de Wolfgang realmente não foi coisa de “pai coruja”, ele tem capacidade para estar ali.

Agora, o que falar da dupla Lee Roth e Eddie? O primeiro continua como sempre: um vocal descontraído, muitas vezes recitando as letras, Dave mostra que continua um fanfarrão, apesar da idade, e não se leva a sério. Pode-se questionar se tecnicamente ele é inferior a Sammy Hagar, e talvez ele realmente seja. Mas para quem cresceu ouvindo os clássicos do 1984, é muito bom ouvir novamente aqueles vocais, além de ele ser um frontman extremamente carismático.

Já Eddie continua brilhante: seu estilo de tocar e o timbre da sua guitarra são inconfundíveis. Uma mistura muito bem dosada de técnica e feeling, dando ao ouvinte um prato cheio para se deliciar. Eddie deita e rola, mostrando a mesma genialidade nos riffs mais pesados e rápidos e nos sons limpos. Sem dúvida, ele é o protagonista novamente. E não me importo se algumas faixas foram resgatadas do passado, pois, de forma alguma, o CD soa datado ou sem criatividade. Pelo contrário. Soa simplesmente como o bom e velho Van Halen.

Voltando ao CD, ainda pegando algumas pitadas de metal, ele continua para Honeybabysweetiedoll, com um riff forte e cheio de personalidade. Segue com Trouble With Never, e Outta Space, duas faixas mostrando um puro hard rock de alta qualidade.

Em Stay Frosty o flerte agora é com o blues. Uma introdução feita para que Diamond Dave mostrasse todo o seu carisma ao microfone, mostrando seus graves e declamando a letra, até explodir em mais uma divertida levada.

E ainda temos Big River, que traz um cheiro de “anos 80” extremamente bem-vindo, e Beats Workin’, que encerra um álbum que não tem nenhuma música dispensável.

Senhoras e senhores, temos o velho Van Halen de volta. A Different Kind of Truth é um registro digno da época áurea da banda, e já está entre meus álbuns preferidos. Se você é fã da era Sammy Hagar, talvez seja melhor procurar algo do Chickenfoot que, diga-se de passagem, é uma banda extraordinária também. Mas, se quando você pensa em Van Halen, lhe vem à cabeça clássicos como Panama ou Hot For The Teacher, esse CD precisa estar na sua prateleira.

Pode pular sem medo de ser feliz, ensaie seus golpes de karatê ao estilo Diamond Dave, porque você não vai precisar de um Delorean para voltar no tempo ouvindo este ótimo CD.