Tropa de Shock – Inside The Madness

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Muitos anos atrás, na segunda metade dos anos 90, eu estive em uma banda. Com isso, eu convivia com bastante gente do cenário do metal e me lembro de muitas dessas pessoas terem uma antipatia que me parecia não justificada pelo Tropa de Shock. Na verdade, eu ouvi falar primeiro da banda por causa dessas pessoas, e só muito tempo depois vi um show deles, provando que a máxima “falem mal, mas falem de mim” ajuda a tornar o trabalho de alguém conhecido.

Mesmo quando assisti ao show dos caras, não entendi o motivo para tanta antipatia. Lembro de o show não ter me marcado nem de forma positiva nem negativa, a não ser pelo fato de ser aquela banda de quem a turminha tanto falava.

Desde então, 20 anos se passaram. Eu não toco em uma banda desde aquela época, e acredito que a maioria das pessoas que falavam do Tropa também não. E cá estou eu, resenhando o mais recente CD dos caras, que veja só, é muito legal!

O que temos aqui é um heavy metal tradicional com altas doses de melodia. As duas primeiras músicas (vou desconsiderar a introdução que é basicamente um minuto de barulhinhos), I Broke My Mirrors e Revelations of a Soldier têm um quê bem forte de Judas Priest. Você sabe, aquele metal entre o cadenciado e o rápido, que parece ter sido criptografado por Odin para que a gente ouça enquanto bate cabeça e faz cara de malvadão. Em outras palavras, é maior divertido!

A seguinte, Call My Name, já remete diretamente ao lado mais melódico de um Iron Maiden, inclusive com as guitarras cantarolantes que o Thin Lizzy deu ao mundo e o Maiden aprimorou. É uma trinca de abertura bem forte, e a seguinte, Waiting For Another Way, mantém a adrenalina alta.

Aqui cabe falar um pouco da performance da banda. As guitarras de Augusto Abade e Lucas Pelarin são o destaque claro, com riffs impactantes e solos bonitos e cheios de melodia. A bateria de Márcio Minetto também é muito do meu agrado, nunca caindo naquele jeitão “helicóptero/metralhadora” tão popular quando o heavy metal se torna muito rápido.

Já o vocalista Don… Bom, esse é um caso difícil de descrever. Nos melhores momentos, a voz dele lembra aquele timbre bem tradicional do metal, algo entre Rob Halford e Ralf Scheepers. Especialmente quando ele dá aqueles gritinhos, o negócio é bem empolgante.

No entanto, tem algo estranho na forma que a voz foi gravada. Ela está muito baixa, como se a produção tentasse esconder as limitações do cantor. E em alguns casos, especialmente quando ele canta de forma mais contida, isso se torna ainda mais audível.

A faixa seguinte, All My Reasons, é uma balada. Uma balada pesada, na linha de Infinite Dreams, do Iron Maiden. E é raríssimo eu falar isso, especialmente se a banda em questão não for o Savatage (responsável pelas melhores baladas do metal, em minha opinião), mas esta balada é a melhor do disco.

Eu costumo ser um pouco parcial quando falamos de solos de guitarras em baladas – eu costumo gostar muito deles. E o de All My Reasons é demais, desbocando em uma melodia guitarreira que dá para imaginar um estádio cheio de gente cantando junto. É daquelas raras baladas tão boas que deve fazer um sucesso absurdo nos shows da banda. Eu gostei tanto dela que só depois de tê-la ouvido muitas vezes é que percebi que a dita cuja tinha mais de sete minutos de duração. Só é uma pena que eu não tenha encontrado o áudio dela no Youtube para compartilhar aqui.

A divertida faixa título, Inside The Madness, por outro lado, tem até clipe. Ouça por si mesmo:

Afraid of Hell volta com aquela energia malvadona, mas not really de um Judas Priest, e continua com A Silent’s Dark, que é a mais rápida do disco, e pode até ser classificada como heavy metal melódico. Ela é boa, com um refrão bem naquela linha “todo mundo cantando junto agora” e me lembrou os bons momentos do Stratovarius, antes da banda descambar para uma novela mexicana (aliás, aproveite e leia nossa entrevista exclusiva com o guitarrista Timo Tolkki, no qual ele abre o jogo sobre todas as bizarrices envolvendo o Stratovarius).

Beyond The Sea e Slaved Anywhere são mais cadenciadas, voltando a trazer aquela energia digna de um Judas Priest. Isso encerra o álbum propriamente dito, mas a versão que recebemos tem duas faixas bônus.

A primeira delas é I Like Chopin. Trata-se de uma cover da banda de pop Gazebo, que ficou muito legal. Tão legal, aliás, que é, ao lado de All My Reasons, minha preferida neste CD.

Toda a energia pop e comercial da versão original ganhou uma roupagem heavy metal, cheia de melodias guitarreiras e um climão que me lembrou a divertida United, do Judas Priest. Apesar de ter gostado muito da versão presente aqui, não dá para falar dela sem destacar a performance do vocalista, que aqui acaba demonstrando mais suas limitações do que nas faixas mais tipicamente metal.

O CD termina com Freedom Again, que já estava presente no CD Immortal Rage, de 2013, e que traz novamente o lado mais metal melódico da banda. É uma boa faixa, mas fiquei curioso para saber porque resolveram repeti-la.

Quero também falar um pouco do trabalho do encarte, que traz fotos da bandas em cenários e situações bem engraçados e cheios de Photoshop. Lembrou-me um pouco dos encartes do Dimmu Borgir pelo tipo de produção, embora aqui as fotos sejam mais engraçadas do que malvadas (não que as da banda norueguesa também não me façam rir).

Depois de tanto ter ouvido falar do Tropa de Shock na minha adolescência, foi legal pegar um trabalho dos caras para ouvir com a devida atenção necessária para se resenhar. E eu gostei muito do que ouvi. Gostei o suficiente para ficar com vontade de acompanhar o que a banda lance de agora em diante.

Não é um som exatamente original. É um metal tradicional bem tradicional mesmo, bebendo bastante dos medalhões ingleses do gênero. Mas ei, eu gosto dos medalhões ingleses do gênero. E acho que você também. Então pode comprar sem medo.