The Spirit – O Filme

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Risadas. É sempre bom ir ao cinema para dar boas risadas, certo? Pois essa foi a reação da maioria dos críticos presentes à cabine de The Spirit – O Filme. De fato a película de Frank Miller se pretende uma mistura de filme noir e comédia, mas o pessoal estava rindo por outro motivo. Eu? Não dei nem um leve sorrisinho, pois estava estupefato, vivenciando novamente um horror que pensei ter ficado no passado e sobre o qual você descobre mais à frente, porque esse parágrafo acabou e os próximos dois trarão a já manjada sinopse.

Denny Colt (Gabriel Macht) era um policial que morreu e, sabe-se lá porque cargas d’água, ressuscitou de posse de uma incrível capacidade regenerativa, de fazer inveja ao Wolverine. Agora, como Spirit, ele continua com a polícia, mas como uma espécie de espião, agindo por fora da lei, patrulhando as ruas de Central City, enfrentando seu arqui-inimigo Octopus (Samuel L. Jackson) que tem o mesmo poder que ele, e passando o rodo na mulherada que cruza seu caminho.

Contudo, quando Sand Saref (Eva Mendes), um antigo amor de infância e hoje renomada ladra, volta à cidade atrás de uma caixa misteriosa, ela atrai a atenção tanto da polícia sob o comando do Comissário Dolan (Dan Lauria, o pai do Kevin Arnold em Anos Incríveis) quanto do Octopus, que está atrás do mesmo objeto, pois seu conteúdo pode estar relacionado com suas capacidades regenerativas e com a origem do próprio Spirit. E lá vai ele tentar desvendar o mistério. Pronto, passamos pela sinopse e nem doeu nada. Doeu foi assistir a essa tranqueira.

Provando de uma vez por todas que Frank Miller hoje é um arremedo do grande autor que foi no passado, ele entrega um filme visualmente chupado de Sin City, com muito estilo visual, mas neste caso com pouco conteúdo. Sim, apesar de ele negar veementemente em entrevistas, o visual não deve nada ao filme que codirigiu com Robert Rodriguez, mas se Sin City era primariamente em preto-e-branco com alguns elementos coloridos para ressaltar a importância deles, esse é o contrário. Colorido, embora com uma paleta de cores bem desbotada, com algumas poucas cenas em p/b só porque ficaram estilosas. É lindo de se ver. Os enquadramentos são ótimos e a fotografia é belíssima como seu parente próximo. Mas além de ter perdido o fator novidade, a fotografia é a melhor coisa do filme, e que eu saiba ninguém vai ao cinema só para ver um filme belamente fotografado.

A história é aquela coisa de sempre, com origens, um McGuffin (o objeto que move a trama) e uma tonelada de frases de efeito de filmes noir que estão lá só porque ele deve achar que soam legais, mas nada acrescentam para a parca história.

No entanto, diferente de Sin City, The Spirit investe pesado no humor. Aliás, acho que deve ser o primeiro filme que junta comédia e filme noir. Só que é um humor bem infantil, bobão, seria perfeito para levar uma criança pequena se não fosse tão violento. A idéia era fazer rir com o filme, mas o resultado é tão constrangedor que os jornalistas da cabine estavam era rindo do filme.

Como disse lá no começo, eu não consegui dar nem um sorriso amarelo porque estava paralisado pelo trauma. The Spirit ressuscitou aquele humor camp da série do Batman barriguinha que Joel Schumacher elevou à nona potência em Batman Eternamente e Batman & Robin. Miller pegou o que o energúmeno do Schumacher fez e ainda deu mais um upgrade. Só de escrever isso já me recordo do horror, o horror… Bom, pelo menos o sobretudo do Spirit não tem mamilos.

Este filme tem de tudo: um vilão que faz longos e megalomaníacos monólogos a cada cinco minutos (e Samuca Jackson ainda paga mais mico ao alternar um figurino mais ridículo que o outro), um herói que, não satisfeito em ter narrações em over, também fala sozinho, capangas burros feito portas e um impressionante revezamento de cenas que causam vergonha alheia, como quando Spirit fica pendurado para fora de um prédio.

As cenas de ação até se salvam, pois é como ver um episódio de Comichão e Coçadinha em live action. É bem violento, mas tão exagerado que o humor imposto por Miller no filme funciona nesses momentos.

Mas essas cenas (basicamente todas entre Spirit e Octopus) são basicamente umas três apenas e o resto do filme inteiro é composto dos diálogos e situações clichês-vergonhosos já mencionados. E, cara, além de ser ruim de doer aguentar essas partes, elas ainda são lentas pra caramba. Graças a Lúcifer o filme só tem 108 minutos. Já imaginou se fosse um épico do tamanho de um Senhor dos Anéis? Acho que entraria em combustão espontânea só para não morrer de tédio.

No mais, apesar de Miller homenagear alguns de seus autores favoritos e até alguns de seus próprios trabalhos com referências espalhadas como um mimo aos nerds, ele acabou mesmo é por prestar um grande desserviço ao personagem. Eu nunca li nada do Spirit de Will Eisner (é, eu sei, isso é uma falha grave), mas sei que Frank alterou algumas coisas (mesclou personagens, Octopus nunca mostra o rosto na HQ). No entanto, se o clima geral das histórias for assim mesmo, então essa HQ definitivamente não é para mim. Se não é o caso, o filme não contribuiu em nada para despertar meu interesse pelo gibi. Pelo contrário, diminuiu bastante minha vontade de conhecê-lo.

O filme, além do Batman & Robin de Joel Schumacher, e já que estamos falando em quadrinhos, também me trouxe dolorosas lembranças, pois também é muito parecido com os dois últimos trabalhos do Francisco Milho na nona arte: Batman – O Cavaleiro das Trevas 2 e Grandes Astros Batman e Robin. Assim como essas graphic novels, a versão cinematográfica do personagem de Eisner é um amontoado de clichês e situações bizarras que, além de não divertir, simplesmente não diz a que veio.

Pouco para um homem que faz parte da trinca sagrada de autores nerds, pois se nos quadrinhos ele está em baixa, acaba de provar que também não é no cinema que vai dar sua tão esperada volta por cima, ao menos não com The Spirit. Que Robert Rodriguez controle com mãos de ferro a produção de Sin City 2. Pois se Miller continuar com toda essa liberdade para agir impunemente, aí, meu amigo, não sobrarão nem risadas. Só restará o horror, o horror.

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