Malévola

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É notável como, nos últimos anos, os vilões vêm atraindo cada vez mais atenção nas obras nerds. Eles sempre tiveram seu charme especial, mas ultimamente isso ficou muito mais evidente. Escritos com mais carinho e com mais tempo sob os holofotes, alguns deles chegam até a ofuscar os mocinhos e virar as grandes estrelas de seus filmes. Entre Coringa, Khan, Loki, Smaug, Soldado Invernal e Magneto, temos cada vez mais caras maus cujo fã-clube é tão grande quanto o de seus respectivos heróis.

Até nos filmes infantis, onde tudo sempre foi muito preto-no-branco quanto a quem é bonzinho e quem é do mal, recentemente tivemos Megamente, Meu Malvado Favorito e Detona Ralph, em que os protagonistas são vilões, e isso é extremamente interessante e divertido.

Só que tem um detalhe: quando eles criam vilões que roubam a cena assim, eles frequentemente dão a eles um passado trágico, para humanizá-los e de alguma forma justificar sua passagem para o lado negro. Pessoalmente, eu não faço questão disso. Alguns vilões são simplesmente maus, e eu consigo gostar deles mesmo assim. Não dá para torcer por esse tipo de vilão, mas também não dá para negar que eles são cativantes. Eles não têm nenhuma boa razão para fazer o que fazem, e não estão atrás de nada em particular, a não ser o sofrimento de seus adversários. Já disse o Alfred, “alguns homens só querem ver o mundo queimar”. Com eles não há redenção, nem negociação. Eles são imprevisíveis e, portanto, mais assustadores, e isso obriga o herói a subir ainda mais o seu nível e melhora a trama como um todo.

No clássico A Bela Adormecida, a Malévola se empenha a destruir a vida de uma princesa, de sua família e de todo seu reino só porque não foi convidada para um batizado. Isso nem chega a ser uma vingança de verdade, é só uma desculpa para que ela tenha o prazer da crueldade em si. Ela ajudou a definir a nossa imagem de vilão “caótico e mau”, e é isso o que faz dela uma personagem tão marcante, mesmo que seu filme seja um dos mais passáveis da Disney. Quando soube que este muito aguardado filme solo contaria sua história de origem, fiquei com um certo medinho. Adorei a ideia de aprofundar mais a personagem e desenvolver melhor suas motivações, mas não queria que a deixassem boazinha, porque assim ela ficaria descaracterizada e toda a graça estaria perdida.

A má notícia é que isto é exatamente o que acontece aqui. O filme abre com uma fadinha fofa e feliz que, por um acaso do destino, é chamada de Malévola. Isso soa estranho, mas a minha teoria é que o nome dela não significava nada em particular, até que seu legado o torna um sinônimo para maldade. Mais ou menos como aconteceu com Maquiavel, sabe? É a única explicação, porque ela é realmente uma moça do bem, que usa seu poder e suas belas asas para ajudar a proteger seu reino mágico do reino humano logo ao lado. Seus poderes mágicos têm até uma simpática cor amarelada, e só ficam naquele tom clássico de verde depois que ela é vítima de uma terrível traição e se torna a bruxa impiedosa – e sem asas – que nós conhecemos. Tipo um Lanterna Verde às avessas.

O melhor momento do filme é este breaking bad dela, mas mesmo nele, a perversidade da moça foi suavizada. Até a grande maldição está diferente. Creio que isso não seja mais spoiler para ninguém, mas no original, a Malévola diz que a pequena Aurora, ao completar 16 anos, vai se espetar numa roca de fiar e morrer. Até que uma das três fadinhas, que ainda não tinha feito sua benção, reverte a maldição dizendo que Aurora não vai morrer, mas sim cair num sono profundo do qual só acordará com um beijo de amor verdadeiro. Aqui, a própria Malévola já manda o feitiço nesta versão reversível, afinal, ela não acredita em amor verdadeiro.

Apesar dessa mudança, a cena do batizado tem falas idênticas à da animação, e a impressão que dá é que a partir dela a narrativa vai seguir paralelamente com a do original, mostrando o lado que a gente não viu. Mas não. É daí para frente que o filme muda de tom outra vez e a relação dela com a princesinha vai tomando rumos inesperadamente cuti-cuti. Se você estava querendo vilania descarada, saiba que este filme não tem coragem o suficiente de seguir por este caminho. Então é melhor ajustar suas expectativas, ou o filme pode ficar até irritante.

No entanto, se você conseguir desapegar disso tudo e se acostumar com essa nova interpretação da Malévola, o filme se torna até bem convincente. Especialmente por causa de Angelina Jolie. Ela está excelente, linda e impressionante de um jeito que não se via há muito, muito tempo. Sharlto Copley, que você deve se lembrar de Distrito 9, também continua competente e é outro ponto alto do filme. E ainda tem o corvo sidekick da vilã, que aqui tem uma forma humana, e ficou surpreendentemente legal.

A parte visual é linda. Apesar dessa indecisão do filme entre a estética de conto de fadas e um tom mais sombrio, a direção é muito estilosa, e usa bem as cores, as luzes e sombras. Os figurinos e maquiagem também impressionam, especialmente as da protagonista. As cenas de ação são decentes, apesar de bastante genéricas. Inclusive a aguardada cena do dragão, que veio totalmente diferente e bem menos épica, mas pelo menos aconteceu, e é sabido que a presença de um dragão é sempre um ponto positivo.

Outra qualidade que ajuda a salvar o filme é que ele segue os passos de Frozen quanto ao amor à primeira vista e o beijo de amor verdadeiro. Já que eles decidiram se afastar tanto do original, então a esperança era que eles mudassem também o que não era legal nele, e foi isso o que eles fizeram. E graças a isto, a cena mais conhecida do conto de fadas ganhou um significado muito mais especial.

Ou seja, o filme tem qualidades e defeitos igualmente grandes. O peso de cada um deles acaba dependendo do que você estiver esperando. Mantenha as expectativas sob controle e é provável que você consiga curtir. Com certeza já é melhor que Branca de Neve e o Caçador, Jack: O Caçador de Gigantes e afins.

CURIOSIDADES

– Vivienne, a filhinha de Angelina Jolie com Brad Pitt, faz uma pontinha aqui como uma das versões mais jovens da princesa Aurora. Você provavelmente vai perceber assim que ela aparecer, porque ela parece muito com a mamãe. Óun! *-*

– Não é fácil gostar de uma fadinha quando ela tem a cara da Dolores Umbridge, concorda?

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REVER GERAL
Nota
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Delfonauta desde pré-adolescente, se tornou delfiana oficialmente em 2012. Não consegue gostar de nada casualmente e estuda Letras só para adquirir base teórica para fazer melhor o que sempre fez por hobby: analisar obsessivamente e escrever longas dissertações sobre Cultura Pop.