G3

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Existem aproximadamente 48 finais de semana durante um ano. Desses 48, a grande maioria não tem shows internacionais. Então alguém pode me explicar por que diabos estão acontecendo tantos shows internacionais ao mesmo tempo? Quer exemplos? Aconteceu com o festival Rock the Planet e com o Cradle of Filth, que rolaram no mesmo dia. Além disso, também teve Dio e Therion no mesmo final de semana. E, como para casar, precisa de três, aconteceu nesse final de semana, com G3 e Nightwish. Aliás, alguém mais já percebeu que a Tarja fica doente toda vez que o Nightwish vem para o Brasil? E o pior, nesse final de semana, além dos dois shows, ainda estavam acontecendo alguns dos maiores vestibulares de São Paulo. Ora, é fato que boa parte do público de shows de Rock está na idade do vestibular, o que torna essa data ainda mais mal escolhida.

Quando entrei na pista do Credicard Hall, estava começando o “show” do Robert Fripp (que tem o King Crimson no currículo). Aliás, de show não teve nada. Ele ficava escondidinho do lado dos amplificadores, sentado, sem absolutamente nenhum movimento ou comunicação com a platéia. Ele não quis nem ser fotografado. Para falar a verdade, até achei que ele fosse um roadie (na verdade, ele apareceu muito menos que os roadies) e que os barulhinhos que estava tocando eram a introdução mais longa da história – já que, ao menos para o meu gosto musical, aqueles barulhinhos atmosféricos estão muito longe de serem considerados música. Ainda mais música voltada para a guitarra, como deveria ser um show do G3. E pensar que se tivessem trazido o G3 para cá alguns meses antes, teríamos assistido Malmsteen. E o show do Robert acabou como começou… Do nada. O cara nem agradeceu o público. Sem nenhum intervalo ou enrolação, Steve Vai entra no palco e agora sim começa o show. E que show, meu amigo!

Mas antes de falar do show propriamente dito, devo comentar sobre o lamentável público que estava nas primeiras fileiras. Enquanto os fotógrafos que estavam no chiqueirinho estavam tentando fazer seu trabalho, os semi-retardados que estavam lá ficavam xingando, empurrando, gritando para os fotógrafos saírem dali e coisa do tipo. Não estou generalizando dizendo que o público inteiro do show era tão imbecil, mas tinha um grupinho de mentecaptos lá na frente que parecia estar mais preocupado em encher os fotógrafos do que em assistir o show (eu queria ter dinheiro sobrando desse jeito). O mais ridículo é que, se bobear, esses energúmenos são os mesmos que reclamam quando vêem uma resenha sem fotos, ou com fotos de má qualidade, ou até mesmo os caras que vêm todos bonzinhos pedir para enviar as fotos para eles guardarem (sim, para cada show que eu fotografo, pelo menos umas 10 pessoas entram em contato comigo por e-mail ou ICQ para pedir as fotos). Sinceramente, não existe outra palavra para descrever tal comportamento, senão “ridículo”.

Voltando ao show do Vai, para falar a verdade, ele começou meio devagar. Steve sentou em um banquinho no meio do palco e ficou por algum tempo, mostrando suas habilidades em sua guitarra de três braços. Pouco depois, contudo, ele levantou, a banda entra no palco e aí sim começa um verdadeiro show de guitarra. E que banda o cara trouxe. Dentre os músicos presentes estavam mais dois ótimos guitarristas, além do fantástico Billy Sheehan (ex-Mr Big) no baixo.

O legal é que Vai não foi um cara egocêntrico e soube dividir as atenções, já que todos os membros de sua banda tinham a oportunidade de brilhar e fazer seus solos, inclusive em alguns momentos, os três guitarristas e o baixista solavam ao mesmo tempo. E o que pode parecer ter sido uma bagunça foi uma tremenda demonstração de técnica, muito ensaio e profissionalismo. Foi um verdadeiro G3 antes da hora. E foi, principalmente, muito divertido, já que Steve Vai é um verdadeiro showman. Ele faz caretas, gira a guitarra, toca com a boca, parece um feiticeiro cuja varinha de condão é a guitarra. Ele até fazia poses para os fotógrafos, olhando para as câmeras e tal, coisa que nunca tinha visto antes em minha ainda breve carreira de fotógrafo. E ainda tinha um ventilador bem na frente do Vai, que fazia o cabelo dele ficar voando, na melhor tradição Hard Rock oitentista. Só faltou o David Lee Roth.

Seu show foi completamente instrumental, com muito pouca comunicação verbal com a platéia. Praticamente toda a comunicação era feita através da guitarra, que ria, chorava, cantava. Sem exagero, a guitarra de Vai é bem mais expressiva do que muito vocalista que já vi por aí. E ele ainda fica mexendo a boca no ritmo das melodias enquanto toca, o que deixa ainda mais divertido. Enfim, foi uma verdadeira referência à guitarra e o melhor show da noite, disparado. Algumas das músicas tocadas foram Answers, Bangkok, For The Love of God e Juice, entre outras, em mais ou menos 70 minutos de muita técnica (o mesmo tempo que duraram os dois shows anteriores do Nightwish em São Paulo, apenas para comparação).

Após um show desses, o público precisava de um tempo para respirar e meia hora de intervalo separou Vai de Satriani. Meia hora que pareceu uma eternidade, mas após essa eternidade, o careca de óculos escuros começa seu show, que foi muito bom, mas não chegou aos pés do show de Vai, principalmente por ter sido bem mais egocêntrico. Totalmente focado no careca, a banda era apenas o acompanhamento MESMO. Os caras não eram nem iluminados pelos holofotes.

Tecnicamente, é claro, o cara também deu um show, além de ter tido mais comunicação verbal com a platéia, apresentando músicas, animando a galera e coisas do tipo. Até cantou em algumas músicas. A galera também participou bastante, cantando algumas melodias como a de Cool Nº9, por exemplo. Outras músicas tocadas foram Satch Boogie, Up In Flames, Flying In a Blue Dream e Is There Love In Space. Nas últimas músicas do set, Satriani já contava com a participação de Robert Fripp, lá atrás dos amplificadores (veja a foto aí embaixo para entender quão escondido ele ficou o show inteiro).

E então, a hora que todo mundo esperava chegou, o show do G2! Sim, porque me desculpem os fãs, mas a julgar por essa apresentação, Robert Fripp não merece ser o terceiro G. Eu já vi bandas ensaiando com mais presença de palco do que ele. Chegava a ser deprimente ver Joe Satriani se sentindo obrigado a ir até o lado de Fripp, lá no fundo do palco, na tentativa de que alguém da platéia olhasse para o indivíduo mais sem expressão da história do Rock. O cara quase nem solou no show. Nem na hora do agradecimento tradicional, com a banda se abraçando, ele se juntou aos outros.

Juntos, tocaram Ice 9, Red (cover do King Crimson), The Murder e terminaram com a ótima Keep On Rockin’ In The Free World (cover de Neil Young). A escolha dessa música é curiosa, já que, para um show que enaltece o virtuosismo guitarrístico, ela é bem simples, o que não significa que ficou ruim. A banda que acompanhou os guitarristas foi a mesma que estava tocando com Satriani. Particularmente, preferia que a banda de Vai tocasse, mas nem tudo pode ser perfeito e o show já havia superado minhas expectativas há muito tempo – e quem acompanha meus textos sabe que eu sou bem exigente e não elogio por qualquer coisa.

Não posso encerrar essa resenha sem elogiar a pontualidade do show. Robert Fripp começou sua apresentação exatamente às 22:00 e tudo seguiu exatamente no horário previsto, inclusive a jam final, que estava marcada para 1 hora da matina e começou na horinha. Prova de que é possível fazer um show com várias apresentações acontecendo no horário previsto. É só querer.

E assim terminou o “Festival G3”, que possibilitou que os fãs de guitarra tupiniquins finalmente se deliciassem com o melhor que este instrumento pode oferecer. Fico na torcida para que o G3 visite nosso país muitas outras vezes no futuro. E que tragam um terceiro guitarrista merecedor do posto na próxima vez.