Fome de Poder

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McDonald’s. Aposto que só de ler esse nome já veio à sua cabeça vários elementos relacionados, como o Big Mac, o McLanche Feliz e aquele palhaço assustador que atende pela alcunha de Ronald McDonald.

Eu desafio qualquer um que já foi à lanchonete da Avenida Henrique Schaumann, em São Paulo, a me dizer que nunca teve pesadelos com aquele torso saindo da parede. Ele é como a Mona Lisa, de qualquer lugar que se olhe, ele parece estar te observando. Só que prestes a ganhar vida e tentar comer seus miolos. Mas estou divagando, este não é um filme de terror.

Na realidade, Fome de Poder conta a história de como o McDonald’s se tornou a cadeia de lanchonetes de fast food mais popular e famosa do mundo, e de como isso foi obra de um homem que não leva o sobrenome que batiza a marca, mas ao invés disso se chama Ray Kroc (Michael Keaton).

O sujeito em questão era um mero vendedor de mixers de milk shakes nos anos 1950 quando conhece uma pequena lanchonete numa cidadezinha da Califórnia criada pelos irmãos Dick (Nick Offerman) e Mac (John Carroll Lynch]) McDonald. Ele fica impressionado pelo esquema de produção dos manos, que privilegia a velocidade da feitura dos lanches, algo inédito para a época, e decide que quer entrar nessa.

Logo ele vira sócio dos caras e passa a franquear a marca para todo o país. Porém, Dick tem seus padrões de qualidade que ele exige serem seguidos e Ray considera que muitas de suas exigências atrapalham os lucros. Por aí acho que já dá para ter uma ideia do que vai acontecer.

A princípio, Fome de Poder é uma cinebiografia bastante esquemática, com cara de filme feito para concorrer a prêmios. Contudo, ele até que tem uma virada interessante. Começa mostrando Ray como um sujeito batalhador, mas sem muita sorte. Quando ele conhece o estabelecimento dos irmãos e seu inovador esquema de produção, reconhece uma oportunidade única.

Tudo leva a crer que será uma parceria de ouro, assim como os famosos arcos dourados que são marcas registradas das lojas. Aí entra a virada. Não há nenhum santo na história, mas definitivamente Ray se revela um baita dum c%z@0, perdoe o meu francês. Preso por um contrato ruim e perdendo muito dinheiro, ele logo dá um jeito de virar as coisas a seu favor.

Daí a história entra no modo “capitalista selvagem”, focando nas mutretas de Ray para poder se livrar do contrato restritivo com os McDonalds e lucrar horrores com o novo modo de se servir lanches com grande velocidade. Pois é, Ray não é o fundador do título original, mas ao final ele acaba se tornando o cara responsável pelo imenso sucesso comercial da marca, ainda que para isso seja preciso esmagar os caras que começaram toda a história.

Essa virada na trama e no desenvolvimento de seu protagonista, mostrando Ray gradualmente passando de um sujeito empreendedor a um empresário absolutamente odioso e nojento em sua ética, é o que ajuda o filme a dar um passo além da maioria das cinebiografias estadunidenses. E também ajuda a não considerar o longa apenas como um gigantesco product placement.

Por conta disso e do tema que, creio, interessa a qualquer nerd que adore comer junk food, diria que Fome de Poder, ainda que não seja um grande filme, é interessante o suficiente para merecer uma assistida. Pode não ser no cinema, mas em casa, acompanhado de um combo do McDonald’s (com bacon, de preferência), ele, com o perdão do trocadilho totalmente intencional, desce bem.

REVER GERAL
Nota
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Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Está no DELFOS desde 2005.