Demônio de Neon

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O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn ficou conhecido por suas parcerias com Ryan Gosling em Drive (2011) e Só Deus Perdoa (2013). Ambos eram produções visualmente estonteantes, muito estilosas e que davam uma roupagem mais artsy e alternativa para gêneros mais mainstream, como o policial e o filme de ação.

Também ganhou sua cota de detratores, que o acusam de ser pura forma sem qualquer conteúdo. Seu mais novo filme, Demônio de Neon, que chega agora às nossas salas de cinema, apenas fornece mais munição para esta parcela de críticos. Fazia tempo que eu não via uma obra tão descaradamente vazia, dependendo única e exclusivamente de sua estética.

Aqui temos a história, ou falta de história, de Jesse (Elle Fanning), uma jovem modelo iniciante que chega a Los Angeles atrás do velho sonho de fama e glamour. E não demora muito para que ela se torne uma estrela em ascensão, despertando a inveja das colegas que estão há mais tempo no ramo e mudando de personalidade no caminho para o sucesso.

Quem viu os dois filmes anteriores do diretor sabe o que vai encontrar por aqui. Uma fotografia colorida e bem contrastada, uma cenografia abusando de iluminação neon e uma trilha sonora baseada em sintetizadores, o que, após o lançamento de Stranger Things, está mais na moda do que nunca.

Contudo, se nos outros dois ao menos havia uma história, um fio condutor para mover as coisas, aqui não há nada, o que é ainda mais impressionante, considerando-se que o roteiro é assinado por três pessoas. A coisa é tão vazia que o argumento bem poderia ter sido escrito num guardanapo.

Talvez se tivesse sido um curta-metragem de, estourando, meia hora, pudesse render algo melhor, mas como um longa de quase duas horas é apenas um exercício de futilidade estilística, mostrando também que os truques do diretor estão rapidamente ficando repetitivos e chega cada vez mais a hora dele mudar seus conceitos ou arriscar ficar pelo caminho.

Tudo bem, forçando a amizade dá para dizer que o filme pode ser interpretado como uma fábula sobre a efemeridade da beleza e o lado pouco glamoroso do mundo da moda. Mas está mais para o tipo de obra onde nada acontece, os personagens são unidimensionais e a única distração são as imagens bonitonas, cheias de um estilo que você já viu nos outros filmes do cara.

Nem mesmo quando algumas coisas mais pesadas começam a acontecer lá pelo final, com o único propósito de chocar e nada mais, consegue tirar o estupor que se instalou por quase toda sua duração. Muito pouco, tarde demais. Repito, talvez se fosse um curta reunindo apenas os “melhores momentos”, poderia até ter funcionado.

Demônio de Neon é o popular pastel de vento, bonito por fora, mas cheio de nada por dentro. Para quem gosta de uma estética visual apurada, é de fato muito bonito e vale uma assistida. Mas como cinema e, sobretudo, narrativa, é falho e mostra que só os truques estéticos do diretor dinamarquês não são mais suficientes para segurar a peteca. É preciso se reinventar, e sobretudo contar uma história.

REVER GERAL
Nota
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Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Fez parte do DELFOS de 2005 a 2019.