Curtindo a Vida Adoidado

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Relembre a infância com o nosso especial Sessão da Tarde:
Quero Ser Grande – Eu vou ter 30 anos a minha vida toda! E o especial delfiano Sessão da Tarde começa.
Te Pego lá Fora – Dor é temporária. Filme é para sempre.
Tremendões – Ferris Bueller – Ele mata aula para curtir a vida adoidado!
Os Goonies – E se você encontrasse um mapa de tesouro na sua casa?
Clássicos da Sessão da Tarde – Um singelo guia de tremendões das tardes de muita gente.

Levante a mão quem, durante sua vida escolar, nunca acordou um dia e pensou consigo mesmo: “hum, não estou a fim de ir à aula hoje”. E aí você ou deu aquela engabelada nos seus pais ou simplesmente se extraviou no caminho da escola, seja para aproveitar o dia ou simplesmente para ficar de bobeira, coçando. Eu mesmo, durante a oitava série, era chamado de “turista”, pois passava mais tempo na rua do que em sala de aula. Bons tempos.

Se você já praticou a fina arte de cabular aula, então, meu amigo, é muito possível que Curtindo a Vida Adoidado tenha um enorme valor sentimental para você. Eu sei que para mim tem. E mais, trata-se simplesmente do melhor filme teen já produzido na terra do Tio Sam e obra máxima do diretor e roteirista John Hughes, papa do gênero. Verdadeiro clássico da Sessão da Tarde, reprisado anualmente e sem nunca perder o frescor. Se tudo isso não basta para que as aventuras de Ferris ganhem uma resenha delfiana, então não sei o que é preciso.

Bom, a essa altura creio que não exista ninguém nesse site que nunca tenha visto o filme, mas em todo caso, aí vai a sinopse: Ferris Bueller (Matthew Broderick) acorda certa manhã e, com um dia lindo de Sol nascendo, decide que não vai desperdiçá-lo ficando enfurnado numa escola. Enrola os pais dizendo que está doente e parte para um dia de diversão acompanhado de seu melhor amigo Cameron (Alan Ruck) e de sua namorada Sloane (Mia Sara), a bordo da Ferrari do pai de Cameron.

Apenas duas pessoas não caem na conversa de Ferris. Sua irmã, a invejosa Jeanie (Jennifer Grey), que não aceita o fato do irmão sempre se dar bem em suas armações, e o diretor da escola Ed Rooney (Jeffrey Jones), que simplesmente não vai com a cara de Bueller e o considera má influência para os outros alunos. Separados, eles farão de tudo para desmascarar suas malandragens.

E enquanto eles quebram a cabeça tentando pegá-lo no flagra, Ferris trata de justificar o título em português do filme e curte a vida adoidado no centro de Chicago, visitando vários lugares (embora eu realmente ache inverossímil os caras matarem aula para irem a um museu), descolam um almoço num restaurante bacana e Ferris coroa o dia cantando Twist and Shout no meio de um desfile, em cena antológica.

É impressionante como tudo nesse filme é legal. A começar pelos personagens e os atores. Ferris é simplesmente o adolescente mais gente boa do mundo. Consegue tudo o que quer e sabe como se divertir, bem como bolar um baita esquema para sustentar suas mentiras. Interpretado por um inspirado Matthew Broderick, o ator esbanja carisma e é impossível imaginar outro no papel. Todos os outros coadjuvantes são igualmente ótimos (tanto personagens como intérpretes), com destaque para o diretor Rooney de Jeffrey Jones, que rouba todas as cenas onde aparece, com seu jeito de espertão que só se dá mal.

John Hughes também manda muito bem na direção, com a ótima sacada de fazer Ferris falar diretamente para a câmera, como se estivesse se dirigindo especificamente a você. De quebra, consegue orquestrar como ninguém as mais hilárias situações, mantendo o mesmo pique do início ao fim. E acha tempo até para fazer uma divertidíssima citação a Star Wars.

De quebra, o filme ainda passa uma mensagem bem legal. Ferris e Cameron estão no último ano do colegial. Sloane ainda tem mais um pela frente. Depois da escola vem trabalho e faculdade. Logo, esta pode ser a última chance deles aproveitarem uma farra juntos antes de entrarem para a chamada vida adulta. Olhando por esse ângulo, dá até para traçar um paralelo com outro filme tremendão, O Balconista 2, que tem uma temática bem similar.

Outro ponto forte é a própria época do filme. Feito no meio dos anos 80, quem cresceu nessa década já fica nostálgico com os figurinos bacanas e com uma trilha sonora genial. Como não associar o filme imediatamente à música Oh Yeah, do Yello (aquela do Bou-Bou-Tchk-Tchk-Tch-Kah!)? Ou ainda à Twist and Shout, dos Beatles, responsável pelo ponto máximo da fita?

O que vou dizer agora pode soar como uma heresia para os cinéfilos, mas esse filme deve ser visto em sua dublagem clássica. Não estou brincando, ela simplesmente deixa a película ainda melhor, graças ao ótimo trabalho de nossos dubladores tupiniquins. Mas concordo que isso faz parte da memória afetiva, de quem via pela TV aberta quando era criança. Para se ter uma idéia, eu só fui assistir Curtindo a Vida Adoidado com seu som original há alguns anos, quando ganhei o DVD de presente. E, cara, não fica tão legal sem a dublagem que marcou minha infância.

Arrisco dizer que esse talvez tenha sido o primeiro filme favorito da minha vida. E ainda é presença constante na minha lista de melhores de todos os tempos. Também é impressionante constatar o carinho afetivo que um monte de gente possui por ele. Eu mesmo conheço várias pessoas que dividem comigo essa paixão pela fita. E quando nos encontramos, geralmente as conversas são permeadas de citações a esse clássico. Do tipo: “O que está acontecendo?”, “muito pouco!”.

Não bastasse tudo isso, a mensagem “a vida passa muito rápido, e se você não parar de vez em quando para aproveitá-la, ela acaba e você nem percebe”, é marcante. E se para aproveitá-la, for preciso matar uma ou outra aula, melhor ainda (mas acredite, eu não sou tão vagal quanto estou parecendo). Por essas e outras, Curtindo a Vida Adoidado é um verdadeiro clássico, que merece ser visto ao menos uma vez por ano. E salve Ferris!

Curiosidades:

– John Hughes escreveu o roteiro do filme em apenas seis dias.

– Alan Ruck, que interpreta o adolescente Cameron, tinha 29 anos na época das filmagens. Isso é que é estar bem conservado!

– Outros atores cogitados para o papel do melhor amigo de Ferris, mas que o recusaram, foram Anthony Michael Hall e Emilio Estevez. Os dois haviam trabalhado com John Hughes em Clube dos Cinco, de 1985.

– Já para o papel de Ferris, foram considerados John Cusack, Jim Carrey, Johnny Depp, Tom Cruise, Robert Downey Jr., Michael J. Fox e Eric Stoltz. Este último fez teste para o elenco.

– A influência do filme passou até para a música. Nos anos 90, surgiu uma banda de Ska chamada Save Ferris (em homenagem à campanha da cidade para a melhora da saúde de Bueller). Seu maior hit foi uma cover da canção Come on Eileen.

– Pouca gente sabe, mas o sucesso do filme rendeu também uma série de TV. Intitulada simplesmente Ferris Bueller, o programa teve 10 episódios, exibidos de 1990 a 1991, mas não fez sucesso. No elenco, vale citar a presença de Jennifer Aniston (a Rachel, de Friends), que interpretou a irmã de Ferris, Jeanie.

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