No início dos anos 2000, com o enorme sucesso de Matrix, muitos filmes orientais passaram a chegar no Brasil, às vezes com anos de atraso. Muitos, como O Clã das Adagas Voadoras, tinham semelhanças com o estilo do clássico estadunidense. Outros, como Oldboy, tinham características da cultura pop oriental que influenciou Matrix, mas eram completamente diferentes.

UMA HISTÓRIA SEM FIM

Oldboy foi lançado originalmente em 2003. Aqui no Brasil, lembro bem de quando ele chegou, e foi em 2004. Eu estava começando o DELFOS, mas ainda não tinha acesso a todas as cabines que gostaria. Lembro de ter assistido a Oldboy no cinema comercial mesmo. E na época achei um tanto chato. Simplesmente esperava que ele fosse mais divertido.

Muitos anos se passaram, e eu até assisti depois aos outros filmes da “Trilogia da Vingança” (Mr. VingançaLady Vingança) no cinema, pois ambos chegaram ao Brasil após o sucesso de Oldboy. Hoje já não sou mais o moleque que era em 2004. Agora entendo mais de cinema, roteiro e narrativa. Mas não vi Oldboy outra vez desde aquele dia no cinema, 19 anos atrás. Estava animado para ver de novo, e quem sabe dessa vez que tenho mais repertório, gostar mais.

O curioso é que lá em 2004, eu escrevi uma crítica emocional para História Sem Fim, filme que estava então completando 20 anos de seu lançamento. Na época, ele me parecia muito velho. Agora, em 2023, quase 20 anos se passaram. O DELFOS já tem quase 20 anos, e Oldboy já completou suas duas décadas. Curiosamente, Oldboy me parece hoje muito mais recente do que História Sem Fim parecia em 2004. Muito provavelmente é porque eu tinha quatro anos quando vi o filme de Wolfgang Petersen pela primeira vez. Quando vi Oldboy, já tinha mais de 20, e até já trabalhava. Tempo realmente é algo muito subjetivo, pois tenho certeza que para muitos lendo isso hoje, 2003 parece tão distante quanto os anos 70 parecem para mim.

CRÍTICA OLDBOY

Oldboy, Pandora Filmes, Delfos

Finalmente chegamos à carne deste prato. A nossa crítica Oldboy. E como escrever uma crítica de um clássico, um filme que muitos já viram? Não é a primeira vez que escrevo sobre um clássico relançado por aqui. Nem mesmo a segunda. Mas é um caso diferente, pois sinceramente não tinha muitas lembranças específicas de Oldboy.

Você provavelmente já sabe do que ele trata. O protagonista é um sujeito que passou 15 anos preso, sem saber o motivo e nem por quanto tempo ficaria no cárcere. Quando é libertado, resolve investigar. Conhece uma moçoila e, com a ajuda dela, vai cada vez chegando mais próximo dos motivos de sua desgraça.

PLANO SEQUÊNCIA BEAT’EM UP

Oldboy é um longa importantíssimo. Sem dúvida um clássico moderno. Mas Okami me ensinou que eu não preciso gostar de clássicos. Tem muito mais peso cobrir o relançamento desta versão restaurada hoje do que teria se tivesse criticado o lançamento original. Mas posso dizer, para meu alívio e o seu, que gostei muito de Oldboy em 2023.

Muitos, eu inclusive, se lembram do filme quase exclusivamente pelo seu lindamente bagunçado plano sequência em homenagem a beat’em ups. Você sabe de qual falo. Aquela longa cena de luta em que o protagonista briga com uma galera enquanto anda para a direita. Obviamente, uma homenagem a este gênero tão querido dos videogames.

A cena é tão icônica e tão influente na cultura pop (a referência mais recente que me lembro é em Sifu) que quando Spike Lee foi fazer sua versão estadunidense, a única mudança que conseguiu fazer foi mover a câmera para a esquerda. E isso sinceramente estragou tudo. “Não entendeu nada” seria uma crítica justa para a adaptação feita pelo diretor gringo.

MUITO MAIS DO QUE O PLANO SEQUÊNCIA

Felizmente, embora seja seu momento mais conhecido, Oldboy transborda em predicados quase durante toda sua projeção. É um filme baseado em um mangá e que consegue combinar em iguais potências as estéticas do cinema e dos quadrinhos orientais. E o resultado é um longa lindo, e extremamente criativo.

Oldboy, Pandora Filmes, Delfos

Em especial, a montagem me chamou muito a atenção. É o tipo de coisa que eu nem percebia lá em 2004 (como diabos eu escrevia críticas de cinema naquela época sem reparar nessas coisas?), mas que hoje me fazem entender o que torna um filme realmente especial. Há várias cenas que brincam com a percepção do espectador, como o momento da liberdade. Nesta, graças à montagem, você fica com a impressão que o protagonista foi largado em um jardim enorme, mas logo repara que é apenas uma pequena área verde em um telhado. O filme usa muito este tipo de montagem, e brilha sempre que faz este truquinho.

Além disso, nós somos naturalmente mais acostumados ao cinema estadunidense. E você sabe, o cinema estadunidense é azul. Ou verde. Ou cinza. É monocromático, é o que quero dizer. Cinema oriental sempre foi mais colorido, a ponto de que quando Zhang Yimou fez A Grande Muralha para os EUA, os críticos se referiam a ele como “uma explosão de cores”. Oldboy nem é dos mais coloridos, mas perto de qualquer superprodução estadunidense, suas cores parecem muito vivas. E acho isso ótimo. Desde quando a cultura pop decidiu que cores não eram mais legais?

NARRATIVA

Se tem algo que ainda não me agrada muito em Oldboy é sua narrativa. E posso atribuir isso à minha mentalidade mais habituada com a narrativa hollywoodiana. Porém, embora tenha entendido a história perfeitamente, senti que o filme se recusava em deixar algo claro em alguns momentos. Certas cenas só fui compreender minutos depois do que “deveria”. As aspas é porque sinceramente não acho que o filme foi planejado para este delay, mas assim foi minha experiência.

Outra coisa que me marcou é quão pesada é sua história. E isso também me faz pensar no impacto do tempo. Hoje, com 40 anos, é muito mais fácil me chocar do que quando tinha 20 e tantos. Sei lá, quando tinha 15 era fascinado por filmes como Faces da Morte ou outros documentários sobre mortes reais, e isso me dessensibilizou por um tempo. Hoje, coisas como o motivo para a prisão do “menino velho” e o próprio final do filme me pegam mais forte. E talvez até por isso eu tenha gostado mais de Oldboy hoje do que antes. Seus momentos chocantes ressoaram mais em mim do que no Corralinhos de 20 e tantos.

20 ANOS DEPOIS: O FIM DA CRÍTICA OLDBOY

E assim encerro esta crítica sobre este relançamento de 2023 de um clássico de 20 anos atrás. Gosto muito mais de Oldboy hoje do que gostei antes, não só pela história, mas também porque vejo bem mais facilmente suas qualidades como cinema, algo que ainda não estava tão preparado para ver na minha juventude. Ver de novo, 19 anos depois da primeira e única vez até então, foi bacana, até porque agora eu realmente vi porque o filme é especial. E você? Já viu Oldboy? Vai aproveitar esta oportunidade para ver pela primeira vez? Me conta tudo! Sabe onde? Na nossa boa e velha seção de comentários aí embaixo, meu camaradinha.