Se tem uma paródia que esses bebedores de domínio público gostam de fazer é a Cinderela. Salvo engano, A Meia-Irmã Feia é o terceiro filme desde 2024 a contar uma pequena variação da mesma história. A diferença é que este está relativamente bem avaliado, mas isso não significa que é bom. Pelo menos não diante dos estandartes de excelência delfiana.
A pegada aqui é contar a história da Cinderela do ponto de vista de uma de suas meia-irmãs. Você já tinha pensado em todo o sofrimento desta vilão clássica da literatura e dos desenhos animados? Tudo para pegar seu príncipe? Pois está na hora de pensar.
CRÍTICA A MEIA-IRMÃ FEIA
Curiosamente, o filme começa com algo que não me lembro de ter visto antes: o casamento do pai da Cinderela com a futura madrasta malvada. Obviamente, ele morre e deixa a mulher, uma interesseira, presa com a filha dele. Ao contrário das versões mais conhecidas, a família da moça não é má o tempo todo. Tipo, elas fazem algumas maldades e a Cinderela é vítima, mas a coisa é bem mais leve do que em A Maldição de Cinderela.
Ao invés disso, a verdadeira vítima aqui é a Elvira, a tal Meia-Irmã Feia. Quando a família fica sabendo do baile onde o príncipe vai escolher sua noiva, todos resolvem deixar a dita-cuja bonita para ser escolhida por ele. O principal problema narrativo é que ela não é feia nem no começo.

Isso não seria um problema na literatura, mas no cinema, uma arte audiovisual, é. Afinal, não basta você dizer que alguém é feia, você precisa mostrar isso. Caso contrário, há uma ruptura, como a magérrima Anne Hathaway fazendo papel de gorda em O Diabo Veste Prada.
É PRECISO SOFRER PARA SER BONITA
A Meia-Irmã Feia é basicamente um filme sobre os procedimentos e sofrimentos a que a Elvira se submete para ficar “bonita”. Ela passa por cirurgias, engole um ovo de tênia para emagrecer e resolve o problema do sapatinho de cristal exatamente da mesma forma que uma das paródias anteriores fez. É tudo bem explícito e, sinceramente, chocante. Até mesmo as cenas de cirurgias são terríveis e filmadas com o sadismo típico de um body horror. Aliás, em muitos aspectos, A Meia-Irmã Feia lembra A Substância. Só não é bom.
O resultado de tanto sofrimento é bem semelhante ao que o Jonas Jogador vive fazendo para “consertar” as mulheres de videogame que não considera femininas o suficiente. Você já deve ter visto algumas das reconstruções da Alloy, por exemplo.
Mas no final das contas, a história é a mesma que já conhecemos, apenas contada de outro ponto de vista. A Cinderela dança com o príncipe, ela foge à meia-noite, esquece um sapato, etc. O filme apenas contribui para tornar a Elvira uma figura menos vilanesca, e mais trágica. Isso é o suficiente para você? Cá entre nós, essas paródias de domínio público já deram o que tinham que dar criativamente, mas aparentemente são uma boa fonte de renda para os envolvidos. Então continuam sendo feitas. E eu continuo resenhando. Oh, dia. Oh, vida. Oh, mais uma Cinderela.








































