A Viagem

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Desde que começou a divulgação para esse filme, com as enxurradas de imagens e os trailers de cinco minutos, já dava para perceber que não era um filme qualquer. Adaptar um livro que conta seis histórias diferentes espalhadas por vários séculos parece bastante complicado, e foi o projeto mais ambicioso e ousado que apareceu em muito tempo. Só isso já me deixaria curiosa, afinal ousadia anda meio em falta em Hollywood.

Além disso, parecia ser um desses filmes cheios de poesia e espiritualidade, que restauram sua fé na humanidade. Isso tudo com um toque de sci-fi filosófico wachowskiesco e voilà, eu estava oficialmente ansiosa. O tom não é tão otimista quanto eu pensava: o lado negro da natureza humana também é bastante explorado aqui. Mas não faz mal, isso fez com que cada ato de bondade parecesse ainda mais especial e comovente. Mas vamos com calma, primeiro a sinopse.

A Viagem conta como as ações e consequências de nossas vidas individuais influenciam umas às outras no passado, presente e futuro, através de seis histórias passadas em diferentes épocas: no século 19, quando um advogado está viajando de navio até São Francisco; nos anos 30, acompanhando um compositor que quer ser um grande artista para dar o troco na família que o deserdou; nos anos 70, quando uma jornalista investiga um mistério envolvendo um reator nuclear; em 2012, quando um editor começa a ter problemas graças a um de seus escritores; em 2144, na Nova Seoul, com uma das garçonetes criadas geneticamente apenas para servir; e num futuro mais distante e pós-apocalíptico, em que uma pequena comunidade de um vale recebe uma visita de uma civilização mais desenvolvida.

Ficamos pouco tempo por vez em cada segmento: as cenas alternam entre momentos divertidos e trágicos, misturando mistério, drama, romance e ação. Às vezes isso incomoda, porque te tira da cena justamente quando você está começando a se aprofundar nela, mas também deixa um certo suspense e mantém o ritmo da narrativa, o que ajuda as quase três horas de filme a passarem mais rápido. Alguns arcos são mais cativantes que outros, mas nenhum deles é ruim.

As atuações estão nada menos que excelentes. Tom Hanks está muito versátil e em geral muito bem, principalmente em sua impagável versão do presente e no futuro distópico como Zachry, um homem atormentado que não é mau, mas toma decisões erradas e acaba pagando por elas. Halle Berry já parece mais igual em todas as épocas, mas também não incomoda. Doona Bae e o fofo Ben Wishaw (o Q de Skyfall) são os grandes destaques, apesar de só serem protagonistas uma vez. Jim Sturgess foi uma surpresa positiva, Hugh Grant está irreconhecível e o tremendão Hugo Weaving também está bem em todos os seus papéis, sempre como vilão. Todos os protagonistas conseguem fazer você se importar com eles e, mesmo entre os coadjuvantes – Jim Broadbent, James D’Arcy, Keith David, Susan Sarandon – ninguém deixou a desejar.

O visual também ficou muito caprichado. Dividir a direção entre os Wachowski nas cenas futurísticas e Tykwer nas de época deu certo e ajudou a destacar a diferença entre os segmentos. O futuro ficou com ar tecnológico e sofisticado de sci-fi enquanto o passado ficou com um charme melancólico e romantizado, exatamente como a concepção que a gente tem deles.

A maquiagem merece um parágrafo só para si: algumas tentativas de mudar a etnia dos atores ficaram pouco convincentes e às vezes estranhas, a ponto de te distrair do filme. As versões orientais do Jim Sturgess e do Hugo Weaving, por exemplo, ficaram uma coisa meio Benedict Cumberbatch misturado com alienígena, realmente esquisito. Mas no geral, está impressionante. Se você ficar para ver os créditos certamente vai se surpreender com quantas aparições o mesmo ator fez e você não percebeu.

Sabe quando você revê um filme várias vezes e descobre um novo detalhe cada vez que assiste? Com A Viagem fica claro que para ver tudo o que tem para ser visto é preciso assistir mais de uma vez. Não só para reparar nessas versões do elenco que passam despercebidas, mas também para entender melhor o porquê de cada personagem reencarnar em determinado momento da história, que função ele tem naquele arco e qual sua influência nos arcos futuros. Algumas das conexões entre épocas são muito claras, como o legado que o segmento de Nova Seoul deixou para o povo do vale no futuro distópico. Mas outras são bastante sutis, pequenas consequências de uma decisão ou atitude tomada.

O único problema disso é que, à medida que as tramas vão se desenrolando, dá a impressão de que no final todas as histórias vão convergir para um grande ápice onde tudo se conecta de algum jeito, e não é exatamente o que acontece. Pensei que pelo menos a sinfonia, que é o título original, teria um papel maior, mas ela é só mais uma peça recorrente, como algumas frases que reaparecem – “I will not be subjected to criminal abuse!” – e acabam mudando o curso dos eventos. No fim, nem todas as histórias têm de fato uma conclusão e nenhum elemento é comum a todos os arcos. É compreensível, mas deixou uma sensação incômoda de que as pontas não foram bem amarradas e isso custou o Selo Delfiano Supremo.

Enfim, o filme é longo e denso, e até um tanto cansativo, mas vale muito a pena. A Viagem tem seus problemas, mas é grandioso e memorável em muitos aspectos. Não deixe de conferir.

CURIOSIDADES:

– O filme estreou nos EUA em outubro, demorou pra caramba para chegar aqui. Será que se tivesse estreado antes ele teria entrado para a lista de Melhores Filmes de 2012?

– Na última reunião delfiana secreta eu mencionei que estava empolgada por este filme, e por isso o nosso clemente ditador me convidou para escrever a resenha dele, marcando assim a minha primeira cabine de imprensa. Legal, né? ^^

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