Toni Erdmann

0

Toni Erdmann é um filme alemão que tem feito sucesso no circuito dos festivais e é cotado como o grande favorito para levar um careca dourado de filme estrangeiro no Oscar deste ano. Todo mundo fala bem dele. E, como na maioria das vezes onde alguma coisa parece ser unanimidade, minha reação típica após conferir o que quer que seja costuma ser “mas é disso que tá todo mundo falando?!”. Desta vez não foi diferente.

Para começar, ele tem sido considerado uma comédia. Você já viu alguma comédia alemã? Pois é, nem eu. Acho que a coisa que mais chegou perto disso até hoje foi Adeus, Lênin! e olha lá. Há um motivo para isso. O povo alemão pode ter muitas qualidades, mas ser engraçado não é uma delas.

A língua também não ajuda, afinal, se até quando eles dizem “eu te amo” mais parece que estão dando um esporro na outra pessoa, imagina tentar fazer humor com esse idioma todo durão. Então, consideremos isso aqui no máximo uma dramédia e ficamos elas por elas.

Pois bem, temos a história de Winfried, um sujeito metido a “zé graça” que gosta de usar dentes falsos e fazer piadinhas ao melhor estilo “tio do pavê”. Sua filha, uma jovem executiva, anda trabalhando demais e está estressada. Depois de uma visita surpresa do pai que não sai como ele planejava, ele resolve se aproximar dela com outra abordagem.

Ele adota a persona de Toni Erdmann e começa a se passar por empresário, frequentando os mesmos locais que a filha e assim tentando tirar algum sorriso dela, reacendendo a relação entre eles. E tentando fazer com que ela relaxe um pouco e lembre que a vida não é apenas trabalho.

Esta pegada mais crítica com a cultura do “trabalhe até morrer” do mundo moderno é bacana e bastante pertinente. Afinal, a maioria das pessoas trabalham feito condenadas para grandes corporações sem rosto, ganhando dinheiro para um grupo de ricaços e sem tempo para elas mesmas poderem aproveitar seus salários. É loucura, eu sei, mas acontece. Principalmente aqui em São Paulo, onde a população parece achar este modo de vida totalmente sem sentido o máximo. Pessoas, cara, não dá para entendê-las…

Mas voltando, embora essa temática seja bem apropriada, ela fica mais como pano de fundo, com a relação entre pai e filha dominando a coisa. Daí, para o filme funcionar a contento, tudo dependerá de você simpatizar com Winfried. Se você curtir o estilo do figura, creio que gostará da película bem mais do que eu.

Eu já não o considerei um velhinho simpático e um tanto excêntrico num ato de amor pela prole, e sim um pai inconveniente e constrangedor que, por mais que estivesse com a razão, não optou pela melhor forma de ação. Aliás, toda vez que ele colocava aqueles dentes falsos e a peruca, não ficava engraçado, mas sinistro pra caramba. Parecia mais um stalker totalmente creepy do que um pai divertidão preocupado com a pimpolha.

Assim, se seu santo não bater com o do personagem, prepare-se para longos, desnecessários e intermináveis 162 minutos. Sério, por onde andam os editores açougueiros, aqueles que não têm medo de cortar? Quase três horas disso é abusar demais da paciência de qualquer um.

No fim das contas, Toni Erdmann até tem alguns bons momentos, ainda que estejam bem espalhados pela duração excessiva. Isso, aliado à boa temática, até o eleva um pouco, mas nunca deixa de ser um filme no máximo regular, e que, para mim, não justifica todas essas láureas que cobrem o pôster.

REVER GERAL
Nota
Artigo anteriorLEGO Batman: O Filme
Próximo artigoCinquenta Tons Mais Escuros
Formado em cinema (FAAP) e jornalismo (PUC-SP), também é escritor com um romance publicado (Espaços Desabitados, 2010) e muitos outros na gaveta esperando pela luz do dia. Além disso, trabalha com audiovisual. Adora filmes, HQs, livros e rock da vertente mais alternativa. Fez parte do DELFOS de 2005 a 2019.