Quando eu recebi meu acesso a Death Stranding 2, ele já era um dos jogos mais bem-avaliados do ano. O primeiro também foi muito bem-avaliado, mas gerou sentimentos bem díspares entre críticos e público, com muita gente não querendo chegar perto dele novamente. Eu entendo isso, apesar de ser do time que curtiu o jogo. Era um game que exigia muito do jogador, não pela dificuldade de terminar em si, mas por ser trabalhoso, cansativo, e diferente da maioria dos outros jogos. Assim, sua continuação ser universalmente aclamada me causou estranhamento.
Comecei a jogar esperando mudanças consideráveis, e fiquei surpreso quando o jogo parecia ser um mais do mesmo. Depois de muito tempo fazendo sua campanha, percebi: o jogo não teve mudanças consideráveis, mas aparou muito bem suas arestas, tornando-se mais aprazível e menos trabalhoso. Isso com certeza fez muita diferença.
REVIEW DEATH STRANDING 2
Death Stranding 2 continua a história do primeiro. Sam (Norman Reedus) se isolou perto da fronteira do México com sua filha adotiva Lou, e estão vivendo lá como ermitãos. Daí a Fragile (Léa Seydoux) aparece pedindo para ele ajudar a conectar o México. Este é o primeiro capítulo, e é bem longo, mas o grosso do jogo aparece depois quando, papo vai e papo vem, o objetivo vira conectar a Austrália.
É aí que a história propriamente dita começa, que o game abre, que o mapa fica grande, e que boa parte das novidades são apresentadas. O básico do gameplay é o mesmo de antes. Estamos falando literalmente de um walking simulator, com muito dinheiro investido em gráficos e cutscenes, mas com uma grande profundidade em mecânicas de caminhada. Ao contrário dos walking simulators mais comuns, aqui andar é, sim, gameplay. Você precisa administrar o peso que carrega, onde carrega, o equilíbrio, e escolher os chãos mais secos e menos inclinados que te levam a seu objetivo.
As principais novidades estão nas colheres de chá que tornam isso mais fácil. Você pode, por exemplo, contribuir materiais para construir monorails, que são transportes automáticos entre vários pontos do mapa. O mapa também é muito menos íngreme do que o anterior, e isso significa que é perfeitamente viável dirigir por ele quase inteiro. Assim, você pode, e ainda é recomendável, investir materiais para construir estradas. Porém, isso é menos necessário, já que dá para dirigir pela terra mesmo, apenas com velocidade reduzida e consumo de bateria dos veículos.
A MAIOR COLHER DE CHÁ

Talvez a maior colher de chá seja o aumento de opções de fast travel. Você tem pelo menjos uma meia dúzia de formas de viajar de um ponto a outro automaticamente. A maioria delas não permite levar entregas, mas uma permite, e é uma mão na roda. Viajar junto com sua nave, o DHV Magellan, é rápido, prático e permite levar a maior parte das entregas. A nave aparece automaticamente junto a alguns dos principais pontos em que você vai conectar no jogo. Dentro dela você tem os benefícios de um quarto próprio, mas o melhor é o fast travel. Você pode usar a nave para viajar de forma rápida para qualquer um dos pontos em que ela atracou antes. Também dá para guardar os materiais de construção, que são grandes e pesados, dentro dela. Assim, pelo menos os monorails e estradas que ficam perto dos pontos de fast travel, são mais fáceis de restaurar. Mas não espere que eles já apareçam construídos. Os materiais cedidos pelos outros jogadores contribuem, mas a contribuição final sempre deve ser sua.
Veja bem, ela não atraca em todos os pontos de conexão, mas o simples fato de você ter vários pontos do mapa em que pode chamar a nave – ou viajar com ela para lá, ajuda muito. Em determinada missão, eu estava em um canto do mapa e precisava ir no meio de uma área sem conexão. Mas havia um ponto de fast travel mais próximo do outro lado da área. Eu pude iniciar e terminar a missão dali, o que deve ter me economizado pelo menos uns 20 minutos.
RESPEITO DE TEMPO
Eu não diria que Death Stranding 2 respeita seu tempo. A forma mais correta de dizer é que ele respeita mais seu tempo do que o anterior. Mas isso faz diferença. Além disso, o jogo é extremamente imersivo e difícil de parar. Eu costumo ter um horário em que me obrigo a parar de jogar videogame todo dia, e com Death Stranding 2, constantemente me atrasava. “Só mais uma entrega”, pensava, e dificilmente fazia de fato mais que uma entrega. Mas as maledetas sempre se mostravam mais complicadas e demoradas do que eu imaginava, e quando ia ver, tinha passado do meu horário em 30, 40 minutos.
Ainda no assunto “respeito de tempo”, o jogo se estende demais, especialmente em seu último terço, quando as missões exigem ir e voltar por pontos repetidos, e também boa parte delas acontece em uma montanha com visibilidade péssima. Esta falta de visibilidade prejudica forte um dos pontos altos do jogo: seu visual fotorrealista.
FOTORREALISTA
Acho que nunca joguei algo visualmente tão realista quanto Death Stranding 2. No jogo em si, ele é muito bonito e bem feito, mas quando fui ver as imagens que capturei, nossa senhora, a maioria delas parece foto. É incrível quanto dinheiro cada frame de Death Stranding 2 parece exalar. Hideo Kojima é um cara que realmente contribui para o mundo dos jogos ser melhor, não porque eu seja grande fã de suas criações, mas porque ele traz valores de produção AAA para gêneros que dificilmente saem do âmbito indie, como os próprios walking simulators. E sim, já tivemos walking simulators que criam mecânicas elaboradas para andar, como Manual Samuel, mas nenhum deles tinha este nível de valores de produção.

Isso vai muito além do visual. Tem o elenco famoso, digno de uma superprodução hollywoodiana. Tem a captura de movimentos, a direção das cutscenes e o design de áudio. É tudo no nível mais alto que a tecnologia interativa é capaz de entregar hoje em dia, e é realmente impressionante. Por mais que o gameplay não fale com você, vale a pena experimentar Death Stranding 2 pelo menos pelos seus valores de produção. E se você encontrar um jogo que gostar por trás de tudo, melhor ainda.
COÇA MINHAS COSTAS E EU COÇO A SUA
Tudo isso serve ao fator social de Death Stranding 2, em que tudo que você faz aparece nos jogos de outras pessoas e vice-versa. Como no anterior, quando você conecta uma área, estruturas popam nos arredores. Isso envolve pontes, veículos, tirolesas. No final do meu jogo, disse que eu conectei com 1000 pessoas, o que é realmente impressionante. E a boa notícia é que toda essa parte social funciona mesmo sem pagar a Plus.
O primeiro capítulo, no México, por exemplo, envolve ir avançando lentamente e conectando cada área. Depois disso, você deve voltar ao começo, o que parece bem chato, mas agora que está tudo conectado, o transporte é bem mais fácil, rápido e agradável. Claro, isso não compensa o final repetitivo que tenta repetir o mesmo truque, mas na primeira vez é bem legal. Outra coisa legal de explorar áreas já conectadas é que agora dá para você fazer uma playlist com as músicas licenciadas e jogar ouvindo, como se fosse um walkman. Em áreas de combate ou de história, a música para automaticamente, então dá para usar sem medo de perder um momento mágico dirigido, como quando músicas específicas tocam para dar um clima.
COMBATE E CUTSCENES
Tenho algumas questões com ele. Death Stranding 2 ainda é mais trabalhoso do que eu chamaria de agradável. Também há um excesso de cutscenes que são muito longas, além de várias cenas que você vê várias vezes e nada acrescentam, como o Sam tomando banho (dá para pular, mas cada banho que você toma são cinco ou seis cutscenes separadas para pular) ou dormindo.
Quanto ao gameplay em si, o combate está mais frequente e melhor do que era antes, mas ainda me incomoda quando aparece. Especialmente os BTs. Eu nunca ficava feliz quando eles apareciam. E também condenaria o excessivo uso de câmera lenta. Quando um inimigo te vê, câmera lenta, cada inimigo que você vence, câmera lenta, cada arma que você pega, câmera lenta. Durante o combate, o jogo parece ficar lento quase o tempo todo.
BTS E O DEATH STRANDING 2
O que deixa os BTs especialmente chatos é que o jogo te ensina que alguns deles enxergam, e outros não. Mas o design de ambos é muito parecido. Basicamente, os que enxergam são iguais aos outros, só que maiores. Assim, é comum você tentar passar despercebido e ser atacado. Ou pior, achar que é um dos pequenos fraquinhos e atacar e ser um dos grandões que demora um tempão para morrer. Também me incomoda a duração extrema do jogo, que para mim levou mais de 50 horas para rodar os créditos. Poucas coisas na vida continuam interessantes depois de 50 horas. E, como falei antes, Death Stranding parece desistir de ser legal no último terço da sua campanha.
Assim, Death Stranding 2 é uma boa continuação que não reinventa a roda, mas faz o suficiente para ser muito menos divisivo do que seu anterior. Além disso, e mais importante, traz valores de produção altíssimos para um gênero representado quase totalmente pelos independentes, demonstrando o tipo de experiência que poderíamos ter de monte se empresas como Warner, Ubisoft e EA parassem de jogar dinheiro fora com live service e RPGs de mundo aberto. Seria legal se outros além do Kojima tivessem a capacidade de atrair este nível de investimento, mas por enquanto o cara é um caso único.

























