É possível admirar e amar consistentemente algo que você odeia? Pois eu venho lidando com essa dicotomia quando analiso Call of Duty. Eu simplesmente os odeio como propaganda de guerra estadunidense ou mesmo como consolidação da indústria de games. Mas eu os amo como jogos de ação lineares e explosivos. Como o famoso Corrales Campanha que sou, Battlefield nunca me apeteceu tanto. Até agora, com Battlefield 6.
Sim, já joguei várias campanhas de Battlefield antes. Mas elas nunca me agradaram tanto quanto as rivais. Elas sempre eram menos focadas em set pieces explosivos e mais em stealth, veículos ou objetivos abertos, e isso nunca me apeteceu tanto. Pois Battlefield 6 parece vir com os dois pés na porta para tirar a coroa de Call of Duty, tanto no multiplayer, do qual vou me abster de opinar, até a campanha, da qual vou opinar adoidado aí embaixo.
NINGUÉM COMPRA BATTLEFIELD PELA CAMPANHA
Eu li esta frase em muitos reviews, e ela sempre me fazia rir. Até porque o interesse que tinha em Battlefield 6 era exclusivamente na campanha. O multiplayer estou feliz em ignorar. E olha, estou impressionado com o que joguei. Logo de cara, parece que os numerosos estúdios da EA resolveram seguir a cartilha do rival em ser mais um filme de ação do que um jogo. Exatamente como eu gosto.
Não me entenda mal, tem tiroteio adoidado aqui. Mas sempre tem coisas explodindo, setpieces absurdas e muita coisa para ver no cenário. Battlefield 6 é uma grande argumentação pela importância do single player dirigido. Por tirar a agência do jogador e fazê-lo passar por fases que são nada menos do que corredores de parque de diversões. Eu amo isso. Eu sinto falta disso. E numa época em que o próprio Call of Duty se afasta da fórmula com resultados devastadores e enorme perda de qualidade, isso torna Battlefield 6 ainda mais especial. Ainda mais contracultura, apesar de ser um dos jogos mais endinheirados já feitos.
REVIEW BATTLEFIELD 6

Eu joguei quase toda a campanha de Battlefield 6 boquiaberto com tamanha qualidade. Com tanta intensidade, tanta emoção. As fases têm uma enorme variação de cenários e gameplay, mas conseguem isso de forma extremamente bem sucedida. Ela alterna entre momentos de tiroteio a pé, tiro ao alvo sobre trilhos, tanque, dirigir carros. Ela pode durar menos do que estamos acostumados a esperar de jogos AAA, mas simplesmente não deixa a peteca cair. Pelo menos não na maior parte do tempo (mais sobre isso em breve).
Tudo isso é emoldurado por um visual absurdamente impressionante e uma performance no mínimo embasbacante. Battlefield 6 roda no PS5 baunilha a 60 fps e ainda tem um modo performance em que destrava isso e roda na maior parte do tempo na casa dos 90. Parece mentira termos um jogo com este visual, este nível de detalhes e, ao mesmo tempo, esta performance, rodando nos consoles.
Sim, eu sei como isso foi possível. Battlefield 6 não usa táticas pesadas como ray tracing. Ao invés disso, ele foi totalmente construído e desenhado a mão. Isso pode dar mais trabalho na criação, mas compensa na performance, que fica consideravelmente mais leve se o jogo não precisa ficar constantemente calculando a iluminação. Talvez em algum momento, com máquinas mais poderosas, o ray tracing e outras técnicas do tipo mostrem vantagens, mas no momento é difícil discordar que este é um dos jogos mais bonitos e de melhor performance disponíveis no PS5. Até, claro, deixar a peteca cair.
O DOLOROSO TOMBO DA PETECA
A campanha de Battlefield 6 tem nove fases. Durante as primeiras sete, eu simplesmente não acreditava quão bom o jogo era e estava me preparando para agraciá-lo com o Selo Delfiano Supremo. E daí veio a oitava fase. E você já a viu antes. Toma um carrinho, toma três campos inimigos, toma um mapa aberto. Vai tomar os campos na ordem que desejar. Tão comum. Sem graça. Entediante. Pior, tão igual a todos os outros jogos disponíveis no mercado, inclusive os Call of Duty mais recentes.
Esta fase é tão ruim e tão pouco inspirada que ela sozinha me fez diminuir a nota desta resenha do Selo Delfiano Supremo para a que você vê aí embaixo. Sim, ela é assim tão fraca. E considerando que a campanha tem apenas nove fases, corresponde sozinha a mais de dez por cento do jogo.
OUTROS PROBLEMAS

Eu diminuí a nota por causa da fase, mas tem outras coisas que me incomodam nestes jogos, tanto tecnicamente quanto politicamente. Tecnicamente, estou cansado de ver um espaço aberto e claramente explorável, mas quando vou andar por ali receber a mensagem “volte para a fase ou vamos carregar o checkpoint“. Por que Call of Duty e Battlefield têm tanto problema em colocar bloqueios claros que limitam a área jogável? Não é mais bem-vindo um bloqueio estilo The Last of Us, que você sabe que não pode atravessar assim que vê?
Ainda tecnicamente, Battlefield 6 é lindo e detalhado, mas é um tanto cru. Tem carregamentos enormes (mais de 30 segundos) apenas com uma tela preta e troféus que não funcionam. É inegável que o jogo seria muito melhor se resolvesse estes problemas. No caso dos troféus, teve dois que simplesmente não poparam para mim, mesmo eu cumprindo os objetivos muitas vezes. Um deles é o de matar cinco inimigos com uma marreta e o outro é de marcar 20 caboclos com o drone. Este último é na fase do mundo aberto, então eu sinceramente não acho que vou ter saco de fazê-la de novo para ganhar o maledeto.
POLITICAMENTE
E daí temos os mesmos problemas que tenho com Call of Duty, da propaganda de guerra estadunidense e tal. Já falei muito disso por aqui, então vou falar de coisas que já falei, mas não tanto quanto isso. Battlefield 6 tem um menu igualzinho ao de Call of Duty, cheio de opções e modos de jogo complicados para uma coisa que se limita a single ou multiplayer. Este menu me dá uma tremenda preguiça e a quantidade de opções é tanta que eu sinceramente não sei se o jogo não tem opção para regular a sensibilidade da câmera ou se eu simplesmente não a achei (achei apenas a da mira, não a da câmera).
Tem outras coisas, como escolher uma opção no menu faz aparecer uma tela onde você dá permissão para a EA te mandar spam por e-mail, que precisa ativamente ser desmarcada, ou você aceita compartilhar o e-mail com a empresa. Toda a apresentação de Battlefield 6 fora da campanha em si, sofre com o fato de ele ser um live service e cai em todas as armadilhas que tornam estes jogos nojentos.
MAS A CAMPANHA É REALMENTE ESPECIAL
E este é o principal ponto desta resenha. Caso você não tenha interesse na parte live service da coisa e queira apenas uma excelente campanha single player, como o Call of Duty fazia no passado, Battlefield 6 é excelente. Provavelmente a EA não quer que você compre o jogo apenas pela campanha. Dito isso, eu gostei muito de jogá-la e recomendo a campanha com todos meus poderes delfianos, mesmo para quem não tenha o menor interesse em seus modos para multijogador.
Mais uma vez, quando Call of Duty está falhando, Battlefield se levanta gloriosamente. Como jogador, torço para que ambos voltem a fazer bons jogos com frequência, mas seria bom que tanto a EA quanto a Activision investissem mais em outras marcas e experiências. De preferência sem mundo aberto.


































