Jogos Vorazes

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Quando Jogos Vorazes estava em desenvolvimento, tudo que eu lia sobre ele me parecia interessante. Mas daí vieram aqueles pôsteres comparando o filme a Crepúsculo e a desanimação foi geral, especialmente porque, desde que a Paris Filmes faturou alto com Crepúsculo, eles parecem estar interessados apenas em filmes com os mesmos atores ou temas semelhantes.

A sinopse, no entanto, ainda parecia interessante. Aliás, não apenas interessante, mas conhecida. Se liga: em uma realidade alternativa, um grupo de jovens é levado a um local isolado e são obrigados a matarem uns aos outros. A essa altura, o delfonauta sagaz pensou em Battle Royale e não está errado. Jogos Vorazes é um dos plágios mais claros desde que alguém resolveu escrever a fanfic Harry Potter e a Mitologia Grega.

As semelhanças, infelizmente, não são apenas limitadas ao tema, mas incluem detalhes específicos da história. Do vídeo introdutório alegrinho ao aviso sonoro dizendo quem bateu as botas, Jogos Vorazes é EXATAMENTE como seria um remake estadunidense de Battle Royale. Em outras palavras, é quase o mesmo filme, mas com mais dinheiro, menos cérebro, atores mais velhos e menos violência (esses dois últimos itens são obviamente reflexos do medo de o filme não levar a classificação PG-13).

Ora, o tema do negócio é colocar crianças e adolescentes de 12 a 18 anos se matando. É polêmico por si só e, em um país que morre de medo de matar crianças em filmes, não faz nenhum sentido terem resolvido filmar isso. Eles resolvem o problema de forma bem picareta: toda vez que vai rolar violência ou algum momento impressionante, a câmera sai de foco ou começa a tremer muito. Nessas cenas, aliás, você sequer é capaz de diferenciar uma árvore de uma pessoa, por exemplo. Um artifício sem dúvida usado para manter a classificação em PG-13, mas que sacrifica os momentos mais interessantes de um longa que tinha tudo para ser excelente.

Quando finalmente a batalha começa, e as crianças correm na direção dos suprimentos, você sabe que fatalmente vai rolar violência e apenas os mais fortes sairão dali. E essa expectativa é fantástica. Essa abertura das “festividades” é uma das cenas mais fortes do cinema recente, mas quando a contagem regressiva finalmente chega a zero, a opção pela classificação PG-13 cobra seu preço e a cena acaba sem você ter a menor noção do que aconteceu ali, além de que algumas pessoas morreram. E a decepção pela expectativa não correspondida é enorme.

Também tentam contornar a censura usando um elenco composto praticamente por jovens adultos (que provavelmente fingem ter suas 18 primaveras), o que também não faz sentido. Já que as crianças são escolhidas por sorteio, seria natural que suas idades fossem mais sortidas, e não tivesse apenas uma criança de verdade entre 24 jovens sorteados. Também seria uma forma de se diferenciar de Battle Royale, já que no filme japonês as crianças são colegas de classe e têm, portanto, a mesma idade (e se conhecem).

A mão estadunidense também fica clara nos production values. As roupas e cabelos espalhafatosos passam muito bem a visão de sociedade decadente típica das ficções-científicas distópicas que ele tenta homenagear, e é algo que o Battle Royale original não tinha dinheiro (e talvez nem interesse) para emular.

Justiça seja feita, no entanto. Jogos Vorazes tem algumas características próprias, como a espetacularização do sadismo e da violência. Tudo bem, isso também lembra UM BOCADO o clássico O Sobrevivente, aquele com Arnold Schwarzenegger. Ainda assim, é interessantíssimo o fato de as crianças precisarem ter patrocinadores para continuarem vivas, e mais interessante ainda ver que, apesar de todas elas estarem ali à força, acabam se rendendo à fama repentina e à possibilidade de riqueza, ainda que o caminho para isso coloque suas próprias vidas em risco.

Como em Jogos Vorazes é tudo um show, as crianças também sofrem um treinamento intensivão para aprenderem a ficar vivas e a cuidar de si mesmas. É uma pena apenas que nenhum outro personagem além do casal de protagonistas seja desenvolvido. Temos a vítima (a tal única criança), o grupinho de vilões e um monte de genéricos, mas os únicos que realmente têm algum traço de personalidade são os personagens de Josh Hutcherson e Jennifer Lawrence. Dessa forma fica fácil imaginar quem vai chegar ao final vivo, e tira boa parte da graça do filme.

Tem até um momento perfeito para apresentar todos os participantes, pois eles passam por uma entrevista individual na TV. Porém, ao invés de o roteiro aproveitar para desenvolvê-los um a um, opta por transformar isso em um videoclipe, e mostrar apenas as entrevistas dos dois protagonistas, justamente as que menos importam, pois eles nós já conhecemos. Mais um ponto para Battle Royale que, apesar de ter o dobro de participantes, pelo menos se dedica a apresentar cada um deles por nome na hora da “chamada” e a mostrar como cada um deles morreu.

Essa parte “pré-massacre” é tudo o que diferencia Jogos Vorazes de Battle Royale. Depois disso, quando a guerra realmente começa, acaba dando aquela sensação Release the Kraken de coito interrompido, pois isto é um Battle Royale menos violento, com muito menos crítica social e com muito mais medo de ser polêmico. Em outras palavras, é exatamente como um remake estadunidense do clássico do cinema oriental seria. Mesmo assim é um filme legal. Se eu não conhecesse Battle Royale, a nota seria bem maior e essa resenha muito menos crítica. Porém, entre a cópia descarada e o original, fique sempre com o original e valorize aqueles que realmente criam algo. Você sabe que são poucos na sociedade atual.

CURIOSIDADES:

– O livro The Hunger Games, de Suzanne Collins, foi lançado em 2008. O livro Battle Royale, de Koushun Takami, saiu em 1999.

– Apesar de Battle Royale ser um best-seller literário e o filme ser um dos maiores clássicos do cinema japonês recente (tendo inclusive faturado vários prêmios), Suzanne insiste que nunca tinha ouvido falar dele até entregar seu manuscrito para a editora. Aí fica aquela dúvida: ela é ladra ou não tem cultura? A gente acredita nela, delfonautas? Dica: Não!

– Quando Quentin Tarantino assistiu Battle Royale, ele saiu falando para todo mundo que queria ouvir que gostaria de ter feito aquele filme.

– A atriz Chiaki Kuriyama, que fez Gogo, a japinha psicótica de Kill Bill é uma das participantes de maior destaque do jogo do Battle Royale, e conseguiu o papel no filme de Tarantino justamente por isso.

– É triste ler resenhas estadunidenses do livro Battle Royale o comparando a Jogos Vorazes, e não o contrário.

– Desde 2006, os EUA vêm querendo fazer uma versão estadunidense do filme Battle Royale, mas o desenvolvimento tem sido complicado e não se sabe a que pé anda hoje.

– O diretor Gary Ross roteirizou o clássico da Sessão da Tarde Quero Ser Grande.