George, o Curioso

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A-há, sabia que você não resistiria à curiosidade e acabaria clicando. Permita-me começar este texto com uma tradicional divagação delfiana. Macacos são legais. Tenho alguns projetos para fazer uma sitcom (aliás, se você tem um senso de humor parecido com o meu e quiser participar, me manda um e-mail) e, sem dúvida, os macacos teriam um lugar de honra reservado em praticamente todos os episódios.

Posso dar um exemplo de como macacos podem ser engraçados (desde que você também seja um fã de humor nonsense) se voltarmos alguns anos, para a época em que eu era redator de uma agência de propaganda. Entrou um trabalho que consistia em um filme para um doce cujo público-alvo eram crianças. O doce era deveras nojento e ruim, tratava-se de uma gosma roxa, cujo único atrativo era a embalagem divertida. O posicionamento desejado era aquele básico para coisas de criança: “esse produto leva você para um mundo de aventuras”, “permite fazer coisas que você normalmente não faria” e et ceteras do tipo. Uma das idéias que minha dupla e eu tivemos era a seguinte: molequinho está tentando fazer prova, com uma imensa dificuldade. Então, ele olha para a mesa ao lado e vê um macaco comendo o doce e fazendo a prova com a maior facilidade.

Diz aí, isso não seria tão divertido se ele olhasse para o lado e visse um cachorro fazendo a prova. Infelizmente, embora a agência inteira tenha rido da idéia, acabou não sendo aprovada. O diretor de criação (com ênfase na palavra “diretor”, a ponto de apagar a parte da “criação”) optou pelo básico que uma agência sem criatividade faz: um videoclipe. Essa é uma estratégia que eu sempre vi como o equivalente a dizer para o cliente: “seu filme não é importante para nós, então vou deixar a produtora fazer o que quiser nele”. Pois é fato, em um videoclipe, toda a criatividade que entra é da produtora. A agência só dá a letra e manda fazer uma música alegre e mostrar crianças brincando. Todo o resto é com a produtora. Enfim, tudo isso foi só para mostrar como macacos são legais. Agora vamos ao filme.

Você já ouviu falar em George, o Curioso? Você pode não se lembrar, mas se é ligado em cultura Pop, com certeza já, pois a história do macaquinho é muito citada em sitcoms como Friends, por exemplo. Normalmente, essas referências são adaptadas nas legendas para algo mais conhecido por aqui, ou então são traduzidas ao pé da letra e perdem toda a graça da original.

George, o Curioso é uma série de livros infantis, muito conhecida nos EUA (acredito que seja para eles mais ou menos como O Sítio do Pica Pau Amarelo é para nós), protagonizada por um cara chamado Ted e um macaquinho chamado George que é… uhn… curioso. Na verdade, esses livros são tão populares que é estranho que a Disney nunca tenha baseado um de seus desenhos clássicos nela.

As histórias consistem em George sendo deixado sozinho em casa e, motivado por sua curiosidade, acaba se metendo em confusões. O sucesso dos livros é atribuído à identificação das crianças (curiosas por natureza) com o macaquinho, que mexe em tudo que vê, tenta entender como as coisas funcionam e adora liberar sua criatividade. Na verdade, eu diria que não são apenas as crianças que podem se identificar com o símio. Eu mesmo ainda sou assim e já deixei de ser criança há mais de uma década, infelizmente.

Pois o filme, assim como Os Sem-Floresta é uma preqüência aos livros e mostra como Ted (voz de Will Ferrell na versão original, que não será distribuída em nossos cinemas) conheceu George. A curiosidade de George, é claro, vai meter os dois em muitas confusões, algumas bem engraçadas. A cena onde o macaquinho descobre as tintas enquanto a mulher toma banho, em especial, é impagável.

O estranho é que, como qualquer pessoa curiosa sabe, normalmente as confusões nas quais essa característica nos metem não é nem engraçada, nem bonitinha. Bizarro que em uma sociedade que pune a vontade de fuçar, uma historinha como essa tenha ficado tão popular.

O visual, obviamente, não é tão refinado como algum desenho recente da Disney, mas admito que é muito bom poder assistir novamente no cinema a uma animação tradicional (nem me lembro qual foi a última), que considero visualmente muito mais interessante do que a tão popular computação gráfica.

A música também merece destaque. Embora não se trate de um dos musicais que causam pesadelo no Cyrino, o desenho conta com várias canções bem bonitinhas, quase todas de autoria de Jack Johnson.

O efeito clichê também está presente, afinal, como eles aprenderiam o maldito valor da amizade se não tivesse uma parte triste na história, não é mesmo? Aliás, não seria legal se algum desenho usasse nesse momento uma música com uma letra que falasse coisas como “Essa é a parte triste / mas não fique triste, amiguinho / ela acaba logo”?

Uma coisa bizarra você pode constatar pelo próprio pôster publicado lá em cima. Tá vendo que ele tem, do lado direito, um splash dizendo que as cópias são dubladas, mas mantiveram abaixo do título os nomes de Will Ferrell e Drew Barrymore? Curioso, não? Mas não se preocupe, bravo delfonauta, dessa vez a dublagem não foi avacalhada por algum global ou pela Paris Hilton brasileira.

No geral, trata-se de uma animação bem infantil mesmo. Se você, como o Cyrino, não vai com a cara de filmes de criança ou mesmo desenhos em geral, é melhor passar longe. Mas se você for como eu, e tiver capacidade de voltar a ser criança por uma hora e meia, provavelmente serão 90 minutos bem divertidos.

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