Faroeste Caboclo

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Os fãs de Renato Russo e Legião Urbana devem estar muito contentes agora, com dois filmes relacionados à banda saindo no mesmo mês. E enquanto a cinebiografia Somos Tão Jovens parece direcionada mais especificamente para os fãs que querem matar a saudade do Renato Russo, Faroeste Caboclo deve agradar mesmo quem não sabe os mais de 150 versos da faixa de cor.

Isso porque, em geral, o primeiro pensamento que passa ao assistir é que este é um filme muito bem feito. Direção, fotografia, trilha sonora, tudo está muito bonito, estiloso e com cara de anos 80. Brasília também é mostrada de um jeito muito legal, evitando os clichês e os pontos turísticos e deixando o clima mais realista e acessível. E ainda tem as referências aos faroestes clássicos, que também estão lá nos momentos certos.

Com certeza você já conhece o João de Santo Cristo, a Maria Lúcia, o Jeremias e até o Pablo, o “peruano que vivia na Bolívia e muitas coisas trazia de lá”. Sendo assim, aí vai a sinopse. Mas cuidado, spoilers.

Respondendo à pergunta que fica na mente de todos, o filme é sim bem fiel à letra da música. Não a ponto de um cara chegar e dizer para o João que ele “perdeu sua vida, meu irmão”, mas o suficiente para soar familiar.

Muitas liberdades são tomadas, de fato, mas isso foi justamente o que impediu uma história tão conhecida de ficar óbvia e/ou previsível. O filme deixa claro que não faz papel de clipe, mas os elementos mais importantes estão lá, e muitos detalhes menores também foram levados em consideração.

A primeira parte do filme é apressada e até um pouco confusa, e leva um tempo até que o ritmo da narrativa se estabeleça e tudo se explique. A parte da infância e adolescência do Santo Cristo, por exemplo, é vista bem rapidamente, em pequenos flashbacks ou só por cima mesmo. O foco vai para a vida dele em Brasília. Mas acho que essa é a mudança que deve causar mais reclamações.

O resto só fez trazer mais profundidade e mais coerência para a trama, como o fato da Maria Lúcia e o Jeremias serem introduzidos mais cedo na história, e não só depois que o João já virou traficante. Neste caso, concordemos que foi melhor assim. E os detalhes novos que foram adicionados aqui, como o policial Marco Aurélio, o pai Senador e a circunstância em que se dá o encontro do casal, também se encaixaram bem.

Outra coisa que agrada são as atuações, que estão bem acima do que a gente está acostumado a ver em filmes nacionais. Fabrício Boliveira carrega a responsabilidade de fazer você torcer (ou ao menos se compadecer) por um personagem que definitivamente não é um herói, e apesar de ser frequentemente ofuscado por seus colegas, consegue alternar muito bem de gentil e quase tímido para perigoso e ameaçador. Ísis Valverde também está cativante e Felipe Abib cumpre muito bem a missão de ser um vilão detestável. E o elenco ainda é reforçado por Antonio Calloni, César Troncoso e Marcos Paulo, em seu último trabalho antes de falecer ano passado.

Este foi o só o primeiro longa do diretor René Sampaio, o que mostra que ele já está no caminho certo e que coisas promissoras podem vir no futuro. Vamos torcer para que ele ache outras histórias pelas quais ele seja tão passional, porque o carinho de fanboy ficou bem nítido aqui.

Resumindo, você já sabe o que vai acontecer ao protagonista e já sabe como ele vai reagir. As emoções que a música despertou em você provavelmente aparecerão todas aqui de novo, e vê-las traduzidas para a telona, com mais profundidade e desenvolvimento, com certeza dará uma nova intensidade a elas. Se a música te marcou ou te impressionou, provavelmente o filme fará o mesmo.