Edguy em São Paulo (3/11/2006)

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Na minha época (vixe, agora realmente me senti velho), as bandas de Metal com maior público feminino, eram o Blind Guardian e o Savatage. Os motivos eram relativamente óbvios, já que essas eram, possivelmente, as bandas metálicas que faziam o som mais bonito (na minha opinião, ainda são).

Porém, desde o final dos anos 90, essa preferências das garotas foi gradativamente sendo substituída pelo Edguy. Aparentemente, a maioria delas nutre uma paixão platônica pelo vocalista Tobias Sammet, mas acredito que o motivo vá além disso. O fato de eles fazerem uma música deliciosamente comercial, com um clima divertido e letras bem-humoradas sem dúvida ajuda muito para conseguir o sucesso com a mulherada. E esse sucesso pôde ser comprovado na terceira passagem dos caras por São Paulo, onde a densidade demográfica feminina era muito superior à que é comum vermos nos shows de Metal. E, em alusão ao clipe da música Superheroes, boa parte delas estava usando aquelas orelhinhas de coelhas comuns nos eventos nerds da vida, como a Animefriends.

Embora a quantidade de garotas estivesse proporcionalmente maior, a primeira coisa que percebi ao entrar na casa de shows foi que ela estava relativamente vazia. Sinceramente, achei que esse show fosse estar mais do que lotado, dada a imensa popularidade da banda no Brasil, somado ao fato de que um DVD estaria sendo gravado. Era possível até mesmo chegar próximo à grade ou, para os menos fanáticos, ficar mais ou menos perto do palco sem precisar ser esmagado ou agüentar os tradicionais caras suados e sem camisa que sempre passam se esfregando em todo mundo – irgh!

Outra curiosidade é que seriam liberadas para os fotógrafos apenas a terceira e a quarta música, não as três primeiras como costuma ser. Curioso, mas provavelmente foi para que as câmeras tivessem maior liberdade de movimento no início do show. Exatamente às 22 horas, as luzes se apagam e a introdução começa.

Pouco antes do riff inicial de Catch of the Century (ótima escolha para abrir o show, aliás), é possível ouvir o vocalista Tobias gritando “Welcome to the freakshow!”. O baterista aparece e é ovacionado, seguido dos outros instrumentistas, que começam a tocar. Sammet entra um pouco depois, para alegria das garotas e, pelo menos para minha surpresa, de cabelos curtos.

A segunda música era a longa Sacrifice e, no final dela, já me dirigi ao chiqueirinho para fazer as fotos. Quando entro lá, descubro que o espaço que tinha de sobra na pista, faltava para os fotógrafos, o que foi agravado pelo fato de que apenas o lado direito do local poderia ser utilizado (provavelmente também por causa do DVD).

Tobias se dirige à platéia dizendo que tem uma boa e uma má notícia. A boa era que eles estavam gravando um DVD e a má era que tiveram um problema e teriam que começar o show de novo. A banda sai do palco com a promessa de voltar em dez minutos e os fotógrafos são expulsos do chiqueirinho, avisados de forma bem pouco confiável para voltarem na terceira e quarta novamente.

Aqui abro um parêntese: isso de a banda ter que repetir algumas músicas por causa do DVD já aconteceu em outro show em São Paulo. Eu acho que foi no próprio Edguy, no show do festival Rock the Planet, mas não tenho certeza. Alguém confirma isso?

Voltando, dez minutos depois, o show começa de novo exatamente da mesma forma. Só que todo o suspense e empolgação de quando a banda subiu ao palco pela primeira vez eram bem menores, é claro. Algumas pessoas acharam legal isso, pois foram duas músicas extras no setlist. Mas também vi outras pessoas reclamando que isso esfriou o show e que agüentar uma canção de 8 minutos duas vezes (se referindo à Sacrifice) não seria fácil. Aliás, isso foi bem engraçado, pois até as coreografias da banda e os pulinhos à David Lee Roth do vocalista foram os mesmos e aconteceram nos mesmos momentos.

No final da Sacrifice, vou novamente para o chiqueirinho e, para minha surpresa, quando estava entrando, a assessora pede para ver minha câmera (que, na verdade, é do Cyrino, pois a minha está quebrada) e ela fala para eu voltar na próxima música. Na hora não entendi o porquê e fiquei bem puto com isso. Se estivesse com a câmera que normalmente uso, que é profissional, teria entrado, mas mesmo assim não acho certo utilizar isso como critério de seleção. Provavelmente fizeram isso por causa da superlotação de antes, mas foi muito mal organizado. Deveriam ter pensado nisso antes e já dividido quais músicas cada veículo fotografaria com antecedência.

Enfim, a terceira música era Babylon e a quarta, para meu desespero (pois estaria fotografando ao invés de curtindo), era a minha preferida da banda, Lavatory Love Machine, a hora de cantar junto, segundo Tobias. Meu mau humor pela falta de organização na divisão dos fotógrafos logo se dissipou, principalmente quando eu finalmente realizei o sonho de fotografar a cena clássica do Hard Rock, aquela onde dois músicos cantam no mesmo microfone. Sério mesmo, desde que comecei o DELFOS quero fotografar isso. Achei que realizaria esse sonho no show do Stryper, mas eles não fizeram isso nenhuma vez, ao contrário dos clipes onde faziam sempre. Felizmente, a influência de Hard Rock no Edguy parece atingir também a coreografia dos caras.

Lavatory Love Machine que, aliás, é uma das preferidas de todo mundo, foi estendida para abrir espaço para a platéia cantar. O público foi dividido e o lado que gritou menos foi chamado por Sammet de Argentina. Provavelmente alguém já contou para ele da nossa estúpida rivalidade com os hermanos. Será que quando toca lá ele chama o lado que grita menos de Brasil?

A também tremendona Vain Glory Opera foi a próxima. “Vocês gostam de Heavy Metal?”, pergunta Sammet, “Então vocês vão odiar a próxima música, que é uma balada muito chata”, exclama antes de mandarem a belíssima Land of the Miracle que, aliás, tem um coral bem semelhante aos que o Savatage costuma fazer. Para terminar essa fenomenal seqüência de abertura, veio a divertidíssima Fucking With Fire, cujo riff fez todo mundo pular e cujo refrão foi cantado a plenos pulmões por todos os presentes. Afinal, quem não gosta de falar Fuck? 😉

Aliás, dada a visível repercussão de Fucking With Fire e da Lavatory Love Machine, é bem curioso que o Edguy não se aventure mais por esse estilo, e se limite a umas duas ou três “músicas bobas” (como o próprio Tobias as definiu na entrevista que concedeu a nós) por disco. Particularmente, se os caras investissem mais nessa linha, eles teriam condições de passar o Helloween no seleto rol de minhas bandas preferidas.

Até esse ponto, o show estava maravilhoso. Um setlist bem escolhido, completado por um som ridiculamente alto (dava para sentir não apenas o chão, mas seus próprios órgãos balançando), porém cristalino, indicavam que o Edguy poderia ser o grande show de 2006.

Pois é, poderia. E aqui abro mais um parêntese para falar sobre o new Edguy album, Rocket Ride. Ao contrário da opinião apresentada pelo nosso amigo Guilherme em sua polêmica e divertidíssima resenha, eu achei o disco bem legal mesmo (o que, aliás, prova como duas opiniões opostas podem conviver pacificamente até mesmo em um único veículo). Infelizmente, algumas das músicas mais legais do disco, e até mesmo da banda, na minha opinião, ficaram de fora do setlist. Refiro-me à divertidíssima Trinidad e às fofas Wasted Time e Rocket Ride. Aliás, quando falava sobre esta última, o Guilherme disse que pareciam as Meninas Superpoderosas cantando para trazer a cor de volta ao mundo. Eu concordo com ele, mas ao contrário do cara, é exatamente por isso que acho essa canção tão legal! Agora fecho os parênteses desse texto e vou me limitar a comentar o show.

Depois de uma primeira metade tão empolgante e com a platéia nas mãos, nada como jogar todo esse trabalho fora e acabar com a empolgação da galera com um solo de bateria. E, cara, esse foi um banho de água fria realmente fria. Extremamente longo (deve ter passado de 10 minutos, mais do que o suficiente para tocar Rocket Ride e Trinidad) e seguindo à risca a cartilha dos solos de bateria em bandas de Metal. Na tradicional parte em que o cara acompanha um playback, a música escolhida foi a Marcha Imperial, de Star Wars, o que até que foi legalzinho, não pelo cara ter feito algo criativo (qualquer pessoa que já foi em uns três shows de Metal, deve ter visto pelo menos quatro vezes um baterista acompanhar uma música orquestrada em playback), mas simplesmente porque a Marcha Imperial é deveras tremendona. E tirando essa parte, o tédio da galera foi visível. Tinha uns gatos pingados que acompanhavam com palmas, mas também tinha muita gente pedindo para acabar logo ou perguntando para os amigos “quem vai em um show do Edguy para ver solos de bateria?”.

O setlist até ainda tinha umas músicas legais, mas esse solo de bateria foi mais destruidor do que os poderes do lado negro da força e o público não voltou a agitar mais em nenhum momento com a mesma intensidade com que fez nas primeiras músicas. Nem mesmo o sucesso Superheroes levantou a galera. Aliás, até levantou, mas no mau sentido, pois lá se vão as pessoas subindo nos ombros das outras, impedindo que todos aqueles que estão atrás – e que também pagaram ingresso – assistam ao show como teriam direito.

Nesse dia, praticamente todos os sem-noção que subiram eram garotas usando as orelhinhas e que ficavam balançando a cabeça exatamente da forma como as coelhinhas fazem no clipe da música. Isso acabou confirmando as minhas suspeitas (que foram apresentadas aqui) de que os manés que fazem isso não fazem para enxergar melhor, mas para chamar a atenção dos artistas. E assim como no G3, ficou bem claro também que os músicos fazem questão de não olhar para essas pessoas, desviando o olhar para os locais da platéia onde as pessoas eram mais respeitosas (Lucky bastards!).

Depois dessa, alguém joga um par de orelhinhas no palco e Sammet coloca na cabeça do guitarrista Dirk Sauer. Como se isso ainda não fosse metrossexual o suficiente, ainda exclama: “Olha que coelhinho mais bonito!”. Pena que a maior parte das bandas de Metal não tem essa capacidade de rir de si mesmo como o Edguy faz, pois acredito que esse é um dos segredos de seu sucesso.

Para a próxima música, Tobias pede para todos mostrarem seus celulares. “Isqueiros são coisa do passado! Estamos na era da tecnologia, temos que mostrar os celulares nas baladas!”, diz ele. E continua: “a próxima é sobre pêlos pubianos e como se livrar deles. Ela se chama Shave Me”. Mandam, então, a balada Save Me. Aliás, salvar por salvar, eu preferia que tivessem mandado a hilária Save Us, sobre os coelhinhos bateristas alienígenas. E já que falei sobre o álbum Mandrake, a próxima é a bela Tears of a Mandrake, uma das que mais animaram o pessoal nessa segunda metade de show.

“Vocês são fantásticos, esse DVD vai ficar tremendão! Vocês merecem que todos os DVDs de Metal sejam filmados no Brasil!”, exclama um empolgado Tobias Sammet para delírio da ainda mais empolgada platéia. Aproveitando a pausa, o cara apresenta a banda, sempre com piadinhas. Continua a zoeira que fez na nossa entrevista com os baixistas e diz que Eggi, apesar de tocar baixo, é um cara legal. Também diz que Dirk Sauer é um guitarrista lindo. Já em relação ao outro guitarrista, Jens, eles combinam de se encontrar no quarto depois. Por fim, o baterista Felix recebe o título de cara estranho e louco e que, apesar de tocarem juntos há dez anos, ele continua incompreensível. Banda apresentada, Tobias diz que, além de um péssimo piadista e de um vocalista terrível, ele também toca guitarra muito mal e vai mostrar isso para nós. Então ele encoxa Jens e toca na guitarra do cara o riff inicial da pesadona Mysteria.

Depois dessa, a banda sai do palco para mais uma daquelas enrolações tradicionais e outro banho de água fria que acontece em todos os shows: os bis não espontâneos. Como todo mundo sabe que vai ter o bis, ninguém pede nada, ficam apenas esperando a banda voltar. Só que o Edguy parece fazer questão de que, mesmo que esteja tudo planejado e ensaiado, o bis seja pedido. Então, depois de uns 10 minutos de intervalo (durante o qual vejo um dos câmeras responsáveis pela filmagem do DVD falando no celular, provando que não é apenas no tratamento aos fotógrafos que faltava profissionalismo nesse dia), umas três ou quatro pessoas gritam o nome da banda e eles voltam ao palco imediatamente. Se não editarem essa parte no DVD, vai ficar deveras constrangedor.

Tobias diz que a próxima música será uma cover e mandam Avantasia, de seu projeto paralelo, que muitos consideram até mais legal que o Edguy. A participação de Dedé Matos, esperada por todos, dada a amizade do cara com a banda alemã, não ocorreu, para tristeza geral.

“Essa é nosso primeiro de quatro shows no Brasil, amanhã vamos para o Rio”, exclama Tobias, que é surpreendido com uma sonora vaia. E continua: “Vocês não gostam do Rio? Mas vocês sabem que o Iron Maiden gravou um DVD lá, não sabem? Esse DVD do Maiden não foi tão bem sucedido porque não foi gravado em São Paulo!”. Pronto, alegria geral. Se tem algo que realmente alegra os paulistanos é ouvir alguém falar mal do Rio.

Mas as piadas não acabam por aí. “A próxima música é para os idiotas!”, grita ele, se referindo a King of Fools, que seria a seguinte. Nesse momento, um cara ao meu lado fica acenando como se falasse “Olha eu aqui, eu sou um idiota”, enquanto os amigos apontavam para ele, o que achei bem engraçado e me lembrou até aquela turminha divertida a que me referi no show do Helloween, mostrando que até o público do Edguy parece ser, de certa forma, herdado da abóbora germânica, dado o bom humor que predomina na obra das duas bandas.

Saem do palco para mais um bis planejado, mas dessa vez dão um intervalo menor. Sammet agradece ao público por fazer parte desta noite tão especial e promete voltar na próxima turnê, em dois anos. Para terminar, mandam Out of Control e se despedem do público às 12:27, depois de mais ou menos duas horas de show (excluindo a repetição das duas primeiras músicas). Enquanto as luzes se acendem, a balada Spirit Will Remain ecoa nos amplificadores enquanto o público deixa a casa.

Em comparação aos dois shows anteriores do Edguy por aqui, colocaria este como o do meio. Melhor que o do Rock the Planet, mas inferior ao da turnê do Mandrake. Tivessem substituído o solo de bateria por mais duas músicas ou parado por menos tempo antes do primeiro bis, sem dúvida teria sido um show bem superior, talvez até digno do cobiçado Selo Delfiano Supremo. Da forma que foi, deve render um bom DVD, mas tivemos shows melhores esse ano, na minha opinião. Vamos aguardar e torcer para que dessa vez saia o registro.

Agradecimento especial ao colega Carlos Cyrino e à mamãe Cyrino por ter emprestado sua câmera possibilitando que o G3 e o Edguy tivessem uma cobertura delfiana.

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Editor-chefe e editor de games. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).