Clássicos: Smashing Pumpkins – Mellon Collie and the Infinite Sadness

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Os Smashing Pumpkins sempre foram pretensiosos e com objetivos muito bem traçados, mas quase o plano deles vai por água abaixo logo no primeiro disco. Gish, de 1991, deu o azar de bater de frente com um tal de Nevermind, de um certo Nirvana, e caiu no esquecimento. Realmente é uma pena, porque o disco é muito bom, cheio de influências de Metal e aquela energia crua que só os primeiros discos possuem.

Esmagados pelo furacão Grunge, a banda de Chicago decidiu dar uma última tentativa: se o próximo disco não vendesse a banda acabava. Para nossa sorte, Siamese Dream, de 1993, vendeu que nem água, até mais do que eles esperavam.

Com os egos novamente inflados, veio a cartada mais ambiciosa dos Pumpkins: um disco duplo, com o pomposo título de Mellon Collie and the Infinite Sadness, algo como “Melão Colia e a Tristeza Infinita”.

Discos duplos hoje em dia são perigosos e raros. Perigosos porque há o risco de não se manter o nível de qualidade em toda a obra (lembre-se que antes havia muitos discos duplos porque os vinis não comportavam a mesma quantidade de músicas que o CD), tornando-se cansativos e enfadonhos. Raros justamente porque, além do fato da maior duração do CD, as bandas preferem não arriscar. E ainda tem o agravante do preço mais alto (principalmente no Brasil), o que pode diminuir as vendas.

Meu amigo delfonauta, vale a pena desembolsar uma boa quantia de suados reais por este disco. Não é a toa que ele é o CD duplo mais vendido da história (cerca de 5 milhões de cópias). Mas e o The Wall do Pink Floyd, você me pergunta? Simples, ele é o vinil duplo mais vendido e outro belo disco, mas esse assunto fica para outro dia.

Voltando ao álbum dos Pumpkins, são 28 músicas divididas em 14 por disco. O primeiro, chamado Dawn to Dusk, começa com a faixa que dá nome à obra toda, uma instrumental calminha, praticamente levada apenas por um piano. É uma espécie de introdução para o que está por vir. E o que vem é Tonight, Tonight, com seu belo arranjo de cordas e Billy Corgan pedindo para que se acredite nele.

Aqui abro um parêntese para falar sobre a voz de Corgan. Muita gente não gosta da banda especificamente por causa da voz anasalada do vocalista. Tudo bem que o seu timbre não é nada bonito (nem ele gosta), mas ele faz o que pode com ele e isso até ajuda a identificar a banda. Você sabe na hora em que a voz entra que se trata de uma música dos Smashing Pumpkins. Confesso que a voz enjoada de Billy também me incomodava muito no começo, mas acabei me acostumando.

De volta ao que interessa, após a bela Tonight, Tonight, que também tem um dos melhores videoclipes que eu já vi, vem uma seqüência de pauladas que possuem outra das marcas registradas da banda, guitarras maravilhosamente distorcidas, cortesia de James Iha, mestre no assunto. Jellybelly, Zero, Here is no Why e Bullet With Butterfly Wings (esta última uma das minhas favoritas em todos os tempos).

Pausa para um refresco com a calminha To Forgive, e voltamos a bater cabeça com An Ode to No One, seguida de uma seqüência de músicas mais experimentais, com efeitos diferentes e estruturas menos convencionais.

Aliás, esta é uma das vantagens do disco duplo. Sobra espaço para a experimentação e acabam entrando belas músicas que geralmente acabariam ficando de fora de um disco simples.

É o caso de Love, uma canção fofinha intencionalmente “estragada” por efeitos de estúdio, Cupid de Locke, Galapogos, Muzzle (outra das minhas favoritas do disco), culminando com Porcelina of the Vast Oceans (uma daquelas músicas que começa bem baixinha e vai crescendo até as guitarras tomarem conta do pedaço) e Take Me Down, uma baladinha cantada por James Iha, que por sinal é muito melhor vocalista que Billy Corgan, mas possui o carisma e a presença de palco de uma pizza (Hum… pizza…). A música em si é meio desconjuntada, seus pedaços parecem não se encaixar direito. E assim, acaba o disco um. Calmo como havia começado.

Preparado para o segundo disco? Então lá vai. Twilight to Starlight já começa nervoso, com Where Boys Fear to Tread e Bodies. A seguir vem Thirty-Three, muito parecida com To Forgive, e In the Arms of Sleep, com uma das letras mais românticas do disco. Saca só uma palhinha, já vertida para nossa língua pátria: O sono não virá a este corpo cansado agora / a paz não virá a este coração solitário / Há algumas coisas que eu vivo sem / Mas quero que você saiba que preciso de você agora mesmo.

Após a demonstração de afeto acima e da música mais Pop que eles possivelmente já fizeram (a famosa 1979), somos presenteados com a faixa mais suja e pesada do disco, Tales of a Scorched Earth. Tem muita banda de Metal por aí que não atinge o mesmo nível de peso.

Ainda passamos por Thru the Eyes of Ruby e Stumbleine (esta só com voz e violão dedilhado) até chegarmos a X.Y.U. – a derradeira faixa roqueira do disco. A partir daí, as “abóboras esmagadoras” nos preparam para o encerramento com We Only Come Out at Night (que tem até harpa), Beautiful, Lily (My One and Only) e By Starlight, todas elas com o pé no freio. São bonitas, mas só funcionam no conjunto do disco como um todo. Ouvidas separadas perdem muita força.

Por fim, há uma faixa especial de encerramento, não à toa chamada Farewell and Goodnight (Adeus e Boa Noite), basicamente uma música de ninar cantada por Billy Corgan, James Iha e a baixista D’arcy, onde eles nos desejam uma boa noite (o disco é longo) e bons sonhos. Qualquer semelhança com Good Night, a faixa que encerra o Álbum Branco dos Beatles (por sinal, também duplo) não é mera coincidência!

Agora que já ouvimos o disco juntos, é hora das considerações finais. Eu recomendo altamente ao amigo delfonauta que escute o álbum de uma tacada só, para que sua força seja mais bem percebida. Além disso, apesar de não ser um disco conceitual, há uma temática nas letras que conferem unidade à obra. Basicamente, tratam-se de sentimentos (alguns bons, outros nem tanto) tirados de experiências vividas pelo líder Corgan. As letras são das melhores já escritas no rock de língua inglesa, fugindo do lugar comum do gênero. A ordem das faixas também ajuda a criar o “efeito montanha-russa”, intercalando tapas na orelha com doces acalantos e esquisitices divertidas.

Musicalmente, merece destaque também o batera Jimmy Chamberlin. De formação jazzística, o rapaz toca que é uma barbaridade. Pena que, durante a turnê deste disco, tenha acontecido sua expulsão da banda devido à morte do tecladista de apoio Jonathan Melvoin, que morreu de overdose quando estava se submetendo a essas substâncias em companhia de Chamberlin.

As experimentações iniciadas aqui continuariam no álbum seguinte, Adore, antecipando em dois anos o que o Radiohead faria em Kid A. Infelizmente, o disco difícil e com poucas guitarras afastou os fãs.

As guitarras voltaram apenas no último disco, o regular MACHINA/The Machines of God, mas aí já era tarde demais. Sem repetir o mesmo sucesso de outrora, os Pumpkins decidiram jogar a toalha e terminaram no final de 2000, deixando como legado um punhado de canções nervosas, barulhentas e angustiantes, outro punhado de belas baladas e um dos melhores álbuns do rock da década de 90, e duplo, o que é ainda mais difícil. Mas como você, delfonauta, deve saber, eles nunca gostaram de trilhar o caminho mais fácil.

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