A Espiã Que Sabia de Menos

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Alguns atores carregam um grande peso com seus nomes. É o caso de celebridades como Adam Sandler ou, Deus me livre, Jack Black. Você sabe o que vem por aí quando compra um ingresso para um filme protagonizado por eles, então quando a projeção termina e você fica com vontade de gritar na cara do funcionário do cinema que abre a porta, a culpa é apenas sua.

Em menor grau, Melissa McCarthy também traz este peso. Não me lembro de nada decente que ela tenha feito – na verdade, não me lembro de cabeça de nenhum filme dela – mas meu cérebro ligou a cara dela a humor grosseiro e sem graça.

Quando o convite para esta cabine chegou, o enviei para o Cyrino, que o recusou dizendo que “não gostava dessa gordinha”. Claro, essa frase veio no meio de um monte de súplicas do tipo “Corrales, não me faça assistir a essa porcaria”. Eu estava me sentindo benevolente, então resolvi eu mesmo engolir a bomba.

E convenhamos, parecia uma senhora bomba. Melissa McCarthy protagonizando, chamadinha infame no pôster, título que remete a outro filme que, por si só, já era fraco.

Mas eu sou corajoso. Fiz cara de mau, coloquei minha melhor cueca peludinha e fui encarar a bomba de frente como o exemplo de masculinidade que eu sou. E veja só, para minha surpresa…

NÃO ERA UMA BOMBA

Sim, eu sei, estou forçando a amizade escrevendo o sexto parágrafo sem ainda ter feito uma sinopse para o longa. Perdoe-me, delfonauta. É que hoje estou me sentindo especialmente místico, então resolvi colocar a sinopse no cabalístico sétimo parágrafo.

Susan Cooper (a fatídica Melissa), é sidekick do superespião Bradley Fine (Jude Law). Enquanto ele está no campo salvando o mundo, ela fica no QG assistindo tudo e se comunicando com ele, sugerindo estratégias e caminhos para que ele faça o melhor trabalho possível. Eles são uma dupla azeitada, mas a parceria deles está para terminar quando o agente em questão é assassinado. E o pior, a assassina (a bonitona Rose Byrne, que combina com brigadeiro de chocolate branco), fala com a câmera antes de enfiar uns pipocos no herói, revelando o nome de todos os agentes da agência (e viva os pleonasmos!). E agora, quem pode impedir os planos da vilã, se todos os agentes foram comprometidos? Ora, a Sandália Macarte, é claro.

Acontece que ela tem a mesma formação de todos os seus colegas, mas o destino a relegou a salvar o mundo pelos bastidores. E depois de tantos anos, ela está cheia de amor pra dar, disposta a assumir a parte mais sensual de ser um agente secreto. A escolha dela para a missão deixa o colega Rick Ford (Jason Statham) pê da vida. Ele se demite e resolve salvar o mundo por conta própria, aparecendo a partir daí nas situações mais inesperadas e com os disfarces mais esdrúxulos.

Embora seja um papel muito pequeno, sempre que aparece Jason Statham rouba a cena. Ele está constantemente contando suas histórias de guerra com os mais absurdos detalhes. Por exemplo, ele afirma ser imune a 179 tipos de veneno. Não satisfeito, ele conta como descobriu essa informação. É de rachar de rir.

EU JÁ PERDI ESTE BRAÇO!

Isso demonstra a diferença do humor do filme para o que normalmente faz a Melissa McCarthy. Ela normalmente se assemelha a um Adam Sandler, mas este filme tem uma semelhança não apenas temática com o divertido Johnny English. Ou seja, o humor aqui é muito mais do jeito que a gente gosta.

Além do Rick Ford de Jason Statham, tem um outro agente secreto deveras engraçado pra caramba. Trata-se de um cafajeste francês, no melhor estilo Pepe Le Pew, que não para de cantar todas as mulheres que passam na sua frente. E algumas das cantadas são realmente legais e, se eu não fosse um homem comprometido, com certeza as usaria na primeira oportunidade.

Apesar do título e da chamadinha do pôster, Susan Cooper não é atrapalhada. Ela até é uma boa agente, que acaba se metendo em altas confusões muito por causa do seu colega Rick Ford – este sim, totalmente atrapalhado. E essa é mais uma relação deste filme com Johnny English: divulga seu humor na falta de habilidade do protagonista, quando na verdade o humor é muito mais legal que isso.

E assim como na comédia inglesa, aqui também temos muitas cenas de ação e, quem diria, elas são estilosas e divertidas. Até mesmo a gordinha McCarthy parece tremendona em várias cenas de porradaria.

Tem defeitos? Sim. Muitas das piadas são repetidas de comédias anteriores e/ou óbvias demais. Sabe aqueles casos nos quais você vê a punchline vários segundos antes de ela acontecer? É por aí.

No entanto, o filme é surpreendentemente divertido e engraçado, mesmo que nem todas as suas piadas acertem na mosca. É o tipo de comédia que a gente gosta aqui no DELFOS e que está cada vez mais rara no cinema atual. Assim, fica fácil recomendar. Compre seu ingresso e divirta-se. E depois coloque nos comentários a frase do Jason Statham que achar mais engraçada.