Tem um momento logo no início de O Fim da Rua, em que uma das protagonistas fala que o Carl Sagan dá aula em determinada universidade. Isso deu um tilt forte na minha cabeça. Eu logo pensei “peraí, o Carl Sagan ainda está vivo?”. Afinal, absolutamente nada no filme até então dizia que ele acontecia no passado. Se você também teve este piripaque, eu respondo. O acadêmico em questão morreu em 1996.

Eventualmente, outros sinais começam a aparecer, como a ausência de celulares ou as pessoas usando máquinas de escrever. Só no final ele revela que a história acontece em 1982. Dito isso, tentar localizar o espectador temporalmente em um sessão da tarde com uma referência a um acadêmico que poucos vão conhecer, e menos ainda saber quando morreu, é um grande erro. E isso define bem quão sem foco parece ser O Fim da Rua.

CRÍTICA O FIM DA RUA

Aqui conhecemos os moradores da tal rua com fim, a Oak Street. Ela parece um lugar tradicional dos subúrbios estadunidenses. Sabe, vizinhos que se conhecem e um senso de comunidade que parece fictício, contando que eu nem sei o nome da pessoa que mora no apartamento ao lado do meu. A turma que mora lá parece conviver de forma relutante com um clarão que acontece durante as noites e que parece transportar cocôs enormes e plantas extintas para os jardins. Até aí, é uma terça-feira, certo? Só que deixa de ser terça-feira quando a quarta chega, e toda a vizinhança é transportada para a pré-história.

O Fim da Rua é focado em uma única família, mas fica claro durante a projeção que é um drama que se estende também a todos seus vizinhos. O mais legal são os dinossauros, que refletem as teorias mais recentes de que estes animais tinham penas e bicos. Isso os torna bastante diferentes do que vemos em um Jurassic Park, e é a primeira vez que vejo dinopássaros no cinema.

DINOPÁSSAROS

Lembra que falei antes que o filme não decide com quem fala? Chegou a hora de elaborar isso. A história acontece em 1982, muito antes de as pessoas pensarem que os dinossauros tinham penas e bicos. E mesmo assim, nenhum personagem faz nenhum comentário sobre a aparência diferente dos bichos. Fiquei com a sensação de que tudo foi filmado antes de o visual dos animais ser finalizado e quando decidiram dar a eles uma aparência mais moderna na pós-produção, simplesmente não dava mais para colocar isso no roteiro.

Outra coisa: o filme tem muitas mortes, porém a violência acontece fora das câmeras ou é apenas sugerida, sem sangue ou coisas mais impressionantes. E tudo bem. Até que, em determinado momento, um personagem tem uma perna comida e fica girando no chão com o cotoco sangrando, como se fosse o Neymar depois de fingir uma falta. Para mim, sinceramente, não faz diferença. Mas estamos falando de um filme para crianças ou de algo mais adulto? Se for para crianças, por que esta cena existe desta forma? E se não for, por que não mostrar mais violência ao invés de apenas sugerir?

O FIM DA RUA FICA ALI

O Fim Da Rua é exatamente o tipo de filme para o qual o Carlos Cyrino criou a expressão “filme nada“. Temos aqui algo que entretém em sua parca duração, e que se destaca pelo visual caprichado. Especialmente pelos dinossauros com um visual diferente do tradicional na cultura pop. Infelizmente, nada mais se destaca. O filme é divertidinho, mas em sua tentativa de ser tudo para todos os públicos, acabou sendo um nada para todos.

REVER GERAL
Nota:
Artigo anteriorCrítica Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
Carlos Eduardo Corrales
Editor-chefe. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. É o autor dos livros infantis "Pimpa e o Homem do Sono" e "O Shorts Que Queria Ser Chapéu", ambos disponíveis nas livrarias. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).
critica-o-fim-da-rua-reviewTítulo original: The End of Oak Street<br> País: EUA<br> Ano: 2026<br> Distribuidora: Warner<br> Duração: 1h39m<br> Direção: David Robert Mitchell<br> Roteiro: David Robert Mitchell<br> Elenco: Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella<br>