400contra1

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Na primeira vez que ouvi falar desse filme, meu pensamento foi o seguinte: “Putz grila! Roubaram minha ideia para um filme pornô”. Ora, o amigo delfonauta com certeza conhece a expressão “5 contra 1”, usada como eufemismo para a descabelação de palhaço individual. Pois isso me deu uma ideia de elevar essa engraçada expressão à última potência e então decidi roteirizar, produzir, dirigir e estrelar um longa adulto que se chamaria 400 Contra 1, tudo sobre o sexy e nerd pseudônimo Full HD. Felizmente, o objeto desta resenha copiou apenas meu genial nome, pois não se trata de um exemplar do cinema educativo adulto.

Em 400 Contra 1, conhecemos um entregador de pizza em um dia normal. Porém, ao entregar a última pizza do dia, ele se depara com um apartamento onde residem 80 mulheres (portanto 400 dedos, sacou? =P), todas elas em trajes sumários. Ele estava tão cansado que nem percebeu quão estranha era essa situação e queria apenas voltar para sua casa, mas elas o dominam e o amarram no sofá, onde vão masturbá-lo por 90 minutos, todas ao mesmo tempo.

Peraí, acho que eu me confundi. Esse é o meu filminho adulto, que você já pode encontrar nas melhores locadoras especializadas. Obviamente, ele é proibido para menores de 21 anos, pois é tão hardcore e tão explícito que críticos especializados já estão dizendo que ele faz Anão Anal 9 parecer Enfermeiras Safadas 4.

Em 400contra1, agora sim o filme objeto dessa resenha, acompanhamos o surgimento da organização criminosa Comando Vermelho, que rolou no período da ditadura. Essa é uma história que mostra como o brasileiro está entre os povos mais estúpidos da Terra e, se você sabe como o Comando Vermelho surgiu, há de concordar comigo.

Durante a ditadura, presos políticos eram encarcerados junto com os presos comuns. Como os inimigos de um Estado de extrema direita são comunistas (que, por definição, querem acabar com as diferenças de classe), eles obviamente começaram a ensinar táticas de guerrilha para os assaltantes e assassinos. O resultado qualquer um com um mínimo de visão poderia prever, e aterroriza o Rio de Janeiro e outras cidades brasileiras até hoje.

Os presos políticos foram estúpidos por não imaginar que o conhecimento que estavam passando seria usado para o mal, enquanto o governo foi estúpido por não perceber que esse conhecimento seria passado e por isso deveria deixar os dois grupos sem nenhuma forma de contato. Afinal, a boa intenção dos comunistas fazia parte da própria ideologia daqueles que, na época, eram revolucionários (hoje são apenas alunos da FFLCH).

No final das contas, os únicos que não foram burros aí foram os únicos que teriam a desculpa de ser (pela falta de instruções e oportunidades). Refiro-me, claro, aos presos comuns, que prestaram atenção em todos os ensinamentos e, ao sair dali, os colocaram em prática, assim criando o crime organizado brasileiro.

Seria legal se 400contra1 abordasse especialmente esse aspecto: como foi possível tanta burrice de todos os lados? Bom, ele não aborda. Ao invés disso, como quase todos os outros filmes semelhantes, ele romantiza os criminosos, dando a entender que a pior coisa que o Comando Vermelho faz é assaltar bancos enquanto grita que “não querem o dinheiro do trabalhador, só o do banco”. E de filme assim o Brasil está cheio, você sabe.

Pelo menos este tem uma desculpa, pois é baseado num livro escrito por William da Silva, um dos criadores do Comando Vermelho, e a gente sabe que um vilão nunca se apresenta como um vilão, né?

A seu favor, 400contra1 tem uma estética interessante, com visual e trilha sonora inspirados pelos pulps dos anos 70 (e que talvez você conheça melhor através dos filmes do Tarantino). A trilha sonora, aliás, é nada menos que sensacional, com excelentes faixas funkeadas que deixam tudo mais interessante quando estão rolando.

Infelizmente, o lado bom termina aí. Falta profundidade para os personagens, que são criminosos do pior tipo apresentados como se fossem revolucionários. Além disso, o filme segue uma não-linearidade gratuita e um tanto boba. Isso porque ela não tem nenhuma razão de existir e, além disso, não apresenta duas linhas temporais paralelas (como Lost, por exemplo), mas várias.

Explico: o filme começa em 1980, vai para 1971, depois para 1977, 1979, 1973 e etc. E algumas dessas cenas fora do lugar duram menos de um minuto e não têm a menor importância (por que aquela cena do namoro no carro não foi deletada, por exemplo?). Com tanta bagunça, na cabeça de qualquer espectador só vão sobrar duas linhas temporais – dentro da cadeia e fora da cadeia. E não tem nenhum motivo para o diretor ter optado por bagunçar as duas situações.

Não que seja difícil de entender. Todos nós já vimos dezenas de filmes brasileiros com exatamente a mesma história e motivações de 400contra1, então tudo que acontece aqui é tão previsível quanto qualquer desenho da época menos inspirada da Disney.

Como o delfonauta sem dúvida já percebeu, 400contra1 não é ruim, mas é genérico e… bem… nada. Se você tem interesse e agüenta MAIS UM filme nacional sobre diferenças sociais, crime e ditadura, vai fundo.