Lá na época do PS2, quando Metal Gear Solid 3: Snake Eater era novo, eu tentei jogá-lo. Mas eu, como você sabe, era um molecão que curtia jogos mais diretos, tipo Super Mario, God of War e Streets of Rage. Em outras palavras, não tinha paciência para games com mecânicas demais. Eu cresci, fiquei mais paciente e agora tenho até barba. Ainda não sou muito fã de mecânicas a rodo, mas pensei que poderia curtir jogar Metal Gear Solid Delta.
Metal Gear Solid Delta é um remake visual e mecânico de Metal Gear Solid 3. Então mexeram bastante no jogo, mas não mexeram em tudo. O áudio usa as mesmas gravações, as fases são as mesmas, e as cutscenes aproveitam os mesmos dados de captura de movimento. No entanto, tudo foi traçado por cima para parecer um jogo moderno.
As mecânicas também foram refeitas. Agora você consegue trocar de ferramentas e armas sem precisar pausar o jogo, por exemplo. Além disso, há duas formas de jogar: uma com câmera fixa, que remete a como o jogo era em outrora. E outra mais moderna, com câmera por cima do ombro e movimentação livre. É uma pena que você precise escolher a modalidade no início, sem possibilidade de ver as duas versões na mesma campanha. Mas é o que tem pra hoje.
O QUE TEM PRA HOJE EM METAL GEAR SOLID DELTA

Então o jogo é basicamente o mesmo, não é um remake como os que a Capcom costuma fazer para seus Resident Evils. Mas ele foi suficientemente alterado para qualquer pessoa conseguir jogá-lo hoje sem dificuldades que a gente suportava na época, mas que hoje não colam mais. Em outras palavras, Metal Gear Solid Delta é MGS3 como você se lembra, não necessariamente como ele era. E isso é bom. Evita aquela sensação comum para quem já viveu décadas demais, de pegar algo que foi importante no passado e se decepcionar. Eu sei que já aconteceu muito comigo, e provavelmente com você também.
Apesar dos gráficos e controles modernos, Metal Gear Solid Delta deixa bem claro a geração da qual faz parte. Ele é dividido em telas lineares, o que é ótimo até hoje, e muito melhor do que mundo aberto. Mas as telas são realmente pequenininhas.
COMO NO PS2
Você anda por um corredor e ele muda de tela três vezes antes de chegar do outro lado. Há áreas mais abertas, com várias saídas, mas é como se cada tela fosse a sala de uma casa sem teto – e é mais ou menos isso mesmo. O positivo disso é que o jogo autossalva sempre que você muda de tela, então morrer ou recarregar nunca volta muito. O negativo é que você fica constantemente esperando a próxima tela carregar.
Até onde me lembro, o carregamento é feito como era no PS2. A tela fica preta, aparece o nome da nova “sala” e daí a imagem aparece. Ou seja, é bem disfarçado. Mas são pausas frequentes na ação, e o jogo ganharia em ter sido reconstruído de forma mais contínua, mais ou menos como o remake de Dead Space. Afinal, hoje em dia mesmo fases lineares costumam ser contínuas, sem interrupções frequentes.
MECÂNICAS GALORE

Este é o motivo que me fez desistir na minha juventude. Tem muitas mecânicas aqui. Este é um jogo de stealth em seu âmago, mas você pode escolher usar armas letais ou tranquilizantes em qualquer inimigo – até nos chefes. Você precisa se alimentar. Você precisa se curar frequentemente usando coisas como curativos e a própria faca. Também é necessário trocar de roupa constantemente para estar sempre com a camuflagem mais apropriada para a área. E você precisa fazer tudo isso. Ou, então, faz como eu, e joga no very easy.
O very easy é praticamente um cheat code. Ele te dá uma arma tranquilizante com munição infinita. Sua camuflagem parece ficar sempre nos 80%, mesmo que você esteja correndo numa área aberta. Por fim, deixa a inteligência artificial dos meliantes mais próxima do que eu chamaria de burrice artificial. Sem exagero, eu conseguia ir correndo no campo de visão deles e agarrá-los antes que eles reagissem. Se resolvesse usar meu tranquilizante ilimitado então, simplesmente não tinha para ninguém. E nos poucos momentos em que o tiroteio comeu solto, quem saiu comendo todo mundo foi minha cobra pelada.
Sim, eu sei que os gamers true que se prolifelaram desde o lançamento original estão correndo para os comentários para dizer que eu trapaceei contra mim mesmo, evitando me imergir totalmente nas mecânicas ultra realistas de um jogo em que o protagonista literalmente se chama “Cobra Pelada”. Blá, blá, blá, já ouvi tudo isso. E sinceramente, não me importo. Jogando no very easy – algo que o próprio jogo permite – tenho certeza que me diverti muito mais do que se tivesse precisado aprender todas as milhares de mecânicas do jogo. Que, sim, são muitas.
TARADICES E KOJIMICES
O que me leva à história. Se você concorda comigo e com o Yohan de que Death Stranding 2 tem cutscenes demais, provavelmente ainda não teve uma experiência em primeira mão com os Metal Gears. Eu já tinha falado isso sobre Metal Gear Solid 4, e este é mais um caso de que a história vai muito além do necessário para falar muito pouco. As cutscenes duram 30 minutos ou mais, e a história… olha, o tutorial te coloca para salvar um cientista russo e levá-lo para os EUA. Você faz isso, e em seguida ele é recuperado pelos russos. Daí a missão é a mesma, mas agora dura o jogo inteiro.
Mas isso é o de menos. Eu sou fã da tática narrativa de “histórias simples, personagens complexos“. Mas aqui a melhor definição seria “história simples, personagens rasos, cutscenes verborrágicas”. E acrescente um “sem sentido” aí. Tem uma cena em que o vilão está torturando o Cobra Pelada, tentando descobrir qual é a missão dele. Daí a cada soco, ele fala um pouquinho do seu plano. Ele pergunta: “Você está atrás do Legado do Filósofo?”, e em seguida explica o que é o Legado do Filósofo. Antes da cena acabar, ele simplesmente conta para o Snake que está com o Legado em seu poder e fala onde escondeu. Sério, meu? Difícil acreditar que esta cena foi escrita por um roteirista profissional.
E DAÍ TEM A PERSONAGEM EVA

Eu já vi mulheres mais bem escritas em filmes pornô dos anos 70. Basicamente, toda vez que ela está sozinha com o Cobra Pelada, a Eva dá um jeito de tirar a roupa. No mínimo, abre a jaqueta para mostrar seu sutiã. Na maioria das vezes, tira quase tudo e fica apenas de roupa de baixo. Do nada e sem nenhum motivo narrativo. Os dois ficam sozinhos e ela começa a tirar a roupa. Você sabe, para ficar mais confortável. Eu já fui um nerd tarado de 14 anos, e já escrevi algumas coisas aqui no DELFOS de que não me orgulho, mas eu ficaria com vergonha de ter assinado um roteiro como este um dia. Mais estranho ainda é ver a quantidade de dinheiro que foi gasto para realizar estas cutscenes, não apenas uma vez, no PS2, mas para refazê-las com maior fidelidade no PS5.
DESLIGUE O CÉREBRO E… DÃ…
Talvez Metal Gear Solid Delta se enquadrasse na categoria de games como Vanquish, em que você desliga o cérebro para se divertir. Porém, a história não é uma baboseira divertida. A história parece séria, e ter muito a dizer, mas é repleta de baboseiras. Não baboseiras divertidas, mas constrangedoras. Como uma criança querendo discutir filosofia com adultos, o Kojima aparece querendo mostrar o pouco de conhecimento que tem, mas acaba na melhor das hipóteses saindo com um “que bonitinho, ele tentou”.
E talvez fosse mais fácil de igorar as cutscenes se elas não respondessem por 80% do tempo de jogo. Sem cutscenes, Metal Gear Solid Delta dura umas quatro horas, mas realisticamente o jogo vai te custar umas 12 de tanto que você tem para assistir. Até coisas banais, como salvar o jogo, ativam diálogos longos sobre filmes antigos, que parecem estar lá só para mostrar o quanto o Kojima gosta de cinema. E eu entendo, todos gostamos, mas a hora de jogar é de jogar, sabe? E nem faz sentido o Snake parar uma missão de infiltração para falar de um dos muitos filmes chamados Frankenstein.
Metal Gear Solid Delta não é ruim. Pelo contrário, é fácil ver os predicados que fizeram tantas pessoas se apaixonarem por ele. Dito isso, ele simplesmente tenta dar um passo muito maior do que suas curtas pernas conseguem. Mesmo neste endinheirado remake. Aliás, talvez essas coisas tenham ficado mais claras no remake. Afinal, em 2004, narrativas em videogame ainda estavam em sua infância, e jogos que queriam ser filmes eram impressionantes simplesmente por existirem. Hoje, que bons jogos são muito superiores e vendem muito mais do que os melhores filmes, jogar Metal Gear Solid Delta é como ver fotos de quando éramos adolescentes: desengonçados e cheios de espinhas.





































