Às vezes somar subtrai. No mundo dos videogames, precisaria me esforçar para dar um exemplo melhor disso do que Borderlands 4. Aqui temos muitas novidades, várias delas respondendo diretamente a críticas que as pessoas faziam aos jogos anteriores. Porém, o resultado final é um jogo com menos personalidade, menos engraçado e com muito menos criatividade.

REVIEW BORDERLANDS 4

Talvez a novidade mais clara, óbvia e divulgada em Borderlands 4 é o fato de que agora temos um mundo aberto. Isso também é o principal responsável por eu ter demorado tanto para começar o jogo – além do excesso de lançamentos dos últimos meses. Eu sei que sou suspeito para falar, já que nunca vi com bons olhos um jogo se tornando mundo aberto. Ainda assim, me surpreendeu a importância que colocaram nisso, já que desde o primeiro Borderlands eu sinto que ele tem, no mínimo, traços de mundo aberto.

Na verdade o mundo aberto desta quarta parte se refere à menor quantidade de áreas separadas por carregamento. O jogo agora acontece em um único mapa aberto, onde você pega todas as missões, cumpre parte delas e se locomove com um veículo. Ainda existem áreas separadas por carregamento, normalmente levando a missões maiores e mais lineares. Outras missões, boa parte delas, na verdade, acontece dentro de instalações e cavernas que não são separados do mundo aberto por um carregamento, mas que têm um ponto de entrada e saída bem claros e o caminho da missão é fixo.

PERMEANDO

As missões de Borderlands 4 não são criadas iguais. Tem um monte de sidequests e objetivos de história que envolvem simplesmente dirigir até um waypoint, pegar algo ou matar alguém e depois ir para outro lugar. Você sabe, missões tradicionais de mundo aberto. Estas são as que arrastam o jogo inteiro para baixo. É bem óbvio para qualquer pessoa que já jogou videogame antes, mas as missões que têm um level design propriamente dito são as melhores do jogo.

O mundo aberto também é permeado por pontos de interrogação que levam a uma quantidade erótica de atividades e colecionáveis. Absolutamente nada disso vale a pena ser feito por diversão. Você vai acabar fazendo apenas por necessidade. Afinal, pegar colecionáveis é a única forma de expandir seu inventário, por exemplo. E este é um problema grave em Borderlands desde o primeiro jogo (incrível que ainda não resolveram transformar o personagem num saco sem fundo). Outro problema é que se você não aumentar a quantidade de munição que consegue carregar será literalmente impossível vencer alguns dos chefes mais esponjudos. Sim, literalmente, pois pode acontecer da sua munição de todas as armas acabar e você ficar completamente indefeso.

RESPONDENDO ÀS CRÍTICAS

As críticas ao terceiro Borderlands, no entanto, vão muito além das áreas separadas por carregamento. As pessoas não gostavam também do humor, que diziam ser imaturo; ou dos vilões cômicos inspirados pelo clássico Handsome Jack. Pois Borderlands 4 respondeu forte a essas críticas. Trocou os vilões coloridos do passado por um cara sisudo que é mau porque é mau e pronto. De forma alguma Borderlands 4 é um jogo sério. Mas ele coloca um pé no freio bem forte em relação ao humor. Tem piadas, mas não o tempo todo, e nenhuma delas me fez rir alto. O resultado é um jogo muito menos engraçado do que foi antes, mais semelhante mesmo ao primeiro jogo pré-DLC, antes da série se encontrar como uma comédia escrachada.

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Felizmente, há alguns benefícios muito bem-vindos de qualidade de vida. Por exemplo, se você ver uma arma que não deseja equipar, pode pegá-la mesmo assim marcando-a imediatamente como “lixo”. Daí, quando tiver acesso a uma máquina, pode vender todos os lixos de uma vez. Seria ainda melhor se você pudesse vender o lixo direto do inventário, sem depender de máquinas, já que estas, especialmente nas missões mais lineares, são bem raras. Normalmente elas aparecem apenas no início da missão e antes do chefe. Seu inventário costuma encher muito antes disso se pegar tudo. Ainda assim, isso resolveu quase totalmente meu principal problema com Borderlands.

MENUS E ESTATÍSTICAS

O que mais me incomodava em Borderlands, e em looters no geral, é o tempo que eu passo no menu comparando estatísticas de armas quase iguais. Com este sistema de poder marcar como lixo antes de pegar, isso diminuiu muito. Depois de uma longa batalha, o chão fica cheio de itens coloridos, como na imagem acima. Eu olho todas e resolvo o que é lixo, o que nem vou pegar e o que vou pegar para olhar com calma depois

Ao chegar em uma máquina, imediatamente vendo todo o lixo, e só depois disso vou olhar meu inventário. Em geral, sobra uma pequena quantidade de armas e itens que são melhores do que os que tenho equipado em algo. Daí eu analiso apenas eles, resolvendo o que quero trocar e o que não quero. A quantidade de tempo economizado com essa pequena mudança não é pequena.

TIROTEIO DELÍCIA

Uma coisa que continua gostosa é o gameplay. Dar uns pipocos em Borderlands 4 ainda é uma delícia, e este é discutivelmente o foco do jogo. Encontrar uma arma que clica com você deixa tudo ainda mais divertido. É uma pena que o estilo looter shooter não combina com usar a mesma arma por muito tempo. Você vai subir de nível, seus inimigos com você, e aquela arma sensacional que matava todo mundo com um ou dois tiros vai se tornar cada vez mais obsoleta. E dói muito em pessoas como eu substituir meu personagem todo equipado por coisas roxas e douradas por porcarias verdes e azuis de nível superior, mas é assim que um looter shooter funciona.

A movimentação no mundo aberto é indolor. Ativar sua motinho é rápido e eficiente. Você pode chamá-la a qualquer momento e imediatamente começar a dirigi-la, sem esperar ela se aproximar ou mesmo subir nela. Por outro lado, dirigi-la não é divertido como a motinho de Metroid Prime 4, ainda que o mundo aberto de Borderlands 4 seja mais bonito e muito mais interessante visualmente. Porém, o silêncio enquanto você está dirigindo parece até que a Gearbox gostou da ideia da Nintendo e resolveu vender músicas como DLC, embora não seja o caso.

E já que falamos do visual, eu continuo amando o visual de Borderlands 4. Eu adoro o estilo de desenho, as cores e este mundo. E se você pode argumentar que Borderlands nunca foi tão sério desde que os DLCs do primeiro jogo foram lançados, também pode argumentar que o jogo nunca foi tão bonito.

OTIMIZAÇÃO

Eu joguei Borderlands 4 em janeiro de 2026, alguns meses depois do seu lançamento. Assim, alguns problemas, como o vazamento de memória que prejudicava a performance, já foram resolvidos. Mas o jogo – teoricamente em sua forma final – está longe de parecer polido ou otimizado. Tive problemas sérios na campanha. Alguns são engraçados e inofensivos, como um personagem se sentar onde não tem cadeiras. Outros são graves e exigiram restaurar o save, como um objetivo que se recusou a aparecer quando cheguei no waypoint. Aconteceu até de o waypoint aparecer numa área errada do mapa.

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Em outro momento, em uma missão em que precisava escoltar um NPC para fazer algo, o NPC simplesmente ficou parado atirando nos inimigos. Restaurei o save e o primeiro objetivo se completou imediatamente, mas levá-lo a fazer sua função nos outros dois lugares (são sempre três) levou mais de vinte minutos. Ele simplesmente se recusava a andar até os outros objetivos.

Também tenho a sensação de que Borderlands 4 foi, mais do que os outros, tunado para multiplayer. Quase todos os tiroteios acontecem em arenas, ou seja, lugares grandes com centenas de inimigos em que você não pode progredir até matar todos. De vez em quando é legal, mas depois de 50 horas fazendo isso, a coisa literalmente enche o saco. Depois de algumas horas de jogo, eu comecei a suspirar em desgosto cada vez que tinha um objetivo para cumprir e percebia que precisaria matar 300 inimigos antes, ou então cumprir o objetivo com todos eles atirando em mim.

BORDERLANDS 4

Borderlands 4 não é um jogo que existe no vácuo. Ele parece uma resposta direta às críticas sofridas por Borderlands 3. Minhas críticas ao jogo em questão, no entanto, não eram às telas de carregamento ou ao humor, mas a coisas como limites de inventário e falta de qualidade de vida. Borderlands 4 deu um passo para frente em várias dessas coisas. Acho que absolutamente ninguém vai sentir falta de precisar encontrar um estande do Catch-a-Ride para pegar um carro, por exemplo. Mas a quantidade de conteúdo pouco inspirado e repetitivo ainda é grande. Talvez por causa do mundo aberto seja até maior do que foi em outrora.

Sem dúvida a campanha traz bons momentos, e Borderlands 4 é um bom e divertido jogo quando se esforça. Mas é também uma tremenda perda de tempo quando resolve encher linguiça e, ao longo das mais de 50 horas de duração, tem muita linguiça cheia por aqui.