Aquele Que Viu o Abismo, Negro Leo, Embaúba Filmes, Delfos

Uns meses atrás, eu escrevi uma resenha para o jogo narrativo 1000XResist. Lá, eu critiquei com todas as minhas forças verbais a insistência dos videogames em contar histórias com imagens estáticas. Como o jogo tem estética de animê, disse no texto “Você nunca veria um animê contando esta história com personagens estáticos”. Isso também valeria para filmes. Nenhuma outra mídia imagética capaz de movimentos conta suas histórias com imagens estáticas. Pois os diretores de Aquele Que Viu o Abismo, Gregorio Gananian e Negro Leo, leram isso e falaram “segura minha cerveja”.

CRÍTICA AQUELE QUE VIU O ABISMO

Sem brincadeira, boa parte dos pouco mais de 60 minutos de duração (ele tem mais de seis minutos de créditos) é contado mostrando fotos estilo slideshow, com pessoas falando por cima. Os games ainda colocam algum tipo de movimento. Um zoom out na imagem, ou os desenhos estáticos têm camadas que se movem lentamente na imagem. Aqui não. Literalmente o filme fica minutos mostrando uma foto enquanto uma pessoa fala.

Mas é verdade. O filme não é inteiro assim. O diretor Negro Leo também é o protagonista e uma das poucas pessoas que mostram o rosto. E isso é meio que tudo o que ele faz. Quase nunca ele fala, se você desconsiderar os voice overs. O filme parece uma coletânea de imagens aleatórias, algo que você veria com mais qualidade e orçamento em um filme do David Lynch. Uma cena mostra ele girando em um cenário escuro sem nada, porém esfumaçado. Em outra, que dura vários minutos, a câmera fica parada na frente dele enquanto ele finge chorar. É constrangedor, não tem lágrimas e ele está apenas fazendo aquele barulho que as pessoas fazem quando choram.

HELL FOR SALE

Outras cenas parecem ter sido compradas de um banco de imagens oriental. O único motivo pelo qual penso que eles usaram essas imagens é porque o gênero cyberpunk tradicionalmente usa alfabetos orientais como estética. Vá lá, talvez usaram boa parte do orçamento para mandar um cinegrafista para lá com a missão de filmar umas ruas aleatórias. São cenas de pessoas andando, carros dirigindo, prédios, etc. Não é nem um pouco narrativo nem importante, e a única coisa que identifica onde as imagens foram feitas é o alfabeto usado nas placas.

Daí tem algumas outras poucas cenas com outros atores. Todos são absurdamente ruins, e duvido muito que qualquer uma das pessoas que aparece na frente das câmeras já tenha feito um filme antes. Várias dessas cenas são faladas em inglês. A pegadinha é que os atores não sabem falar inglês. Um deles, o que acorda o Negro Leo na rua, fala tão enrolado que a pessoa que contrataram para legendar o filme parece ter simplesmente desistido de entender algumas das suas frases e deixou estes momentos sem legendas. Mais fácil, né?

Finalmente, o filme usa algumas animações de computador. É uma estética semelhante a Missile Command, do Atari 2600. Basicamente, é uma imagem feita por traços, sem detalhes. Você consegue identificar, por exemplo, um menino no balanço, mas não tem as cores ou os detalhes que tornariam isso lindo em uma bela animação. Em alguns momentos, as imagens são projetadas na parede, e sei lá se a intenção era que os desenhos fizessem parte da história, mas eles parecem tão aleatórios quanto o resto do filme. Tipo em um momento o ator fica parado sentado enquanto você vê um bonequinho de palito atirando em outro.

PARECIA BOM

O que me atraiu para este filme? Uma sinopse que parecia torná-lo muito interessante e diferente da maioria dos filmes brasileiros. Se liga no que veio no convite para a sessão de imprensa, a sinopse oficial: “Imerso em uma complexa trama de assassinatos, X (Negro Leo) usa suas visões para tentar sobreviver e navegar por um sistema opressor. Ele se vê encurralado pela ProLife, uma empresa multinacional que recruta civis oferecendo a possibilidade de uma vida eterna”.

Parece legal, né? Olha, eu acabei de assistir ao filme e não me lembro de ele mostrar absolutamente nada disso. Ah, sim, ele mostra o Negro Leo, e eu lembro de algumas outras pessoas falando a palavra ProLife. Falando, mas não explicando o que é. Nada fica claro aqui, e o triste é que este parece ser um filme político com muito a dizer. Infelizmente, carece da língua para dizer o que deseja. O resultado é um filme que talvez diga que seu baixo orçamento levou ao uso da criatividade para algo novo no cinema, mas na verdade levou ao pior filme a que já assisti.

REVER GERAL
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Carlos Eduardo Corrales
Editor-chefe. Fundou o DELFOS em 2004 e habita mais frequentemente as seções de cinema, games e música. Trabalha com a palavra escrita e com fotografia. É o autor dos livros infantis "Pimpa e o Homem do Sono" e "O Shorts Que Queria Ser Chapéu", ambos disponíveis nas livrarias. Já teve seus artigos publicados em veículos como o Kotaku Brasil e a Mundo Estranho Games. Formado em jornalismo (PUC-SP) e publicidade (ESPM).
critica-aquele-que-viu-o-abismo-reviewPaís: Brasil<br> Ano: 2024<br> Distribuição: Embaúba Filmes<br> Estreia no Brasil: 30 de julho de 2026<br> Duração: 1h10m<br> Direção: Gregorio Gananian, Negro Leo<br> Roteiro: João Dumans, Gregorio Gananian, Negro Leo<br> Elenco: Negro Leo, Ava Rocha, Danielly OMM Kaufmann