Sabe aquilo que dizem sobre primeiras impressões? Pois então… Poucas vezes na vida tive uma primeira impressão tão negativa sobre um jogo quanto com Blood of Mehran. As cutscenes iniciais são muito feias e parecem ser de baixíssimo orçamento. A história começa no final, com um combate tutorial com o que parecia ser o último chefe. Seus golpes não têm impacto, a ponto de você sequer ter certeza se está acertando o inimigo, a não ser pela vida dele diminuindo. Sim, Blood of Mehran causa uma péssima primeira impressão. E a segunda não é muito melhor.
REVIEW BLOOD OF MEHRAN
As cutscenes, que já pareciam feias de cara, têm a tendência de mostrar imagens incompletas a cada novo corte. A barba do Mehran, por exemplo, que deveria ser encorpada e gloriosa, parece crescer novamente a cada close que a câmera faz em seu rosto. Este carregamento tardio de texturas se estende por todo o jogo, inclusive com chãos que parecem ficar se mexendo conforme você navega por eles. Isso mesmo com o jogo tendo algumas das telas de carregamento mais longas e intrusivas desde o advento do SSD.
Além disso, no primeiro dia que eu joguei, os achievements não estavam funcionando. E quando foram ativados, não foram retroativamente. Isso causa problemas bizarros no meu perfil, como eu ter a conquista para terminar o jogo sem ter a de passar pelo tutorial ou pelo primeiro chefe.
Parece uma bomba, né? Pois é, parece mesmo. Mas daí o jogo de fato começa. E embora em nenhum momento Blood of Mehran seja um jogo excelente, ele ganha consideráveis pontos comigo por ser um hack and slash linear com um combate próprio e visual muito bonito. Pois é, as cutscenes, especialmente os personagens humanos, em close, são muito feios. Mas os cenários são realmente especiais, ajudados pela beleza natural e incomum de um jogo que se passa na Mesopotâmia.

Acredito que esta será uma tendência cada vez mais comum em jogos AA. Hoje em dia, com artistas capacitados, é possível fazer um jogo 3D com cenários bonitos, elaborados e realmente especiais. Mas animar personagens humanos em cutscenes, com aquela qualidade next-gen de um jogo da Naughty Dog é algo que vai ficar reservado por um bom tempo para estúdios e jogos muito mais endinheirados. Eu estou em paz com isso. Embora eu adore cutscenes que parecem filmes, odeio os outros exageros dos jogos AAA e admiro a ambição da Permanent Way em, apesar das dificuldades e da falta de orçamento, contar sua história em cutscenes totalmente faladas e animadas.
COMBATE
O combate de Blood of Mehran realmente carece um bocado de impacto. Suas animações deveriam ter mais peso e ser possível sentir mais cada golpe desferido ou tomado nas fuças. Mas a seu favor, temos aqui um hack and slash que não é um soulslike. Eu costumo citar que na época de outrora, tínhamos várias séries de hack and slash. God of War, Devil May Cry, Ninja Gaiden, Force Unleashed, Heavenly Sword. E cada um deles tinha um combate único, todos criavam seu próprio estilo de porrada, ao invés de todos copiarem um único jogo, como acontece hoje com Dark Souls. Blood of Mehran segue essa tendência.
Isso traz apenas qualidades. De fato, o combate não é tão bom quanto costuma ser em um soulslike. Mas é único. Nenhum outro jogo é realmente parecido com ele, e suas falhas e vitórias são totalmente suas. Felizmente, o combate é muito melhor do que parece naquela primeira luta tutorial. Você tem várias armas, ataques especiais e um uso de cura que lembra muito Ghost of Tsushima. Sim, porque ser um jogo único não significa não ter influências. Mesmo que às vezes elas beirem a cópia indiscriminada, como uma cena em que você fica de ponta cabeça atirando em inimigos que se aproximam. E Blood of Mehran faz isso duas vezes na campanha. Bem estranho, considerando que The Last of Us, sua inspiração, faz apenas uma.
CANSANDO
Blood of Mehran também ganha pontos por ser um jogo linear. Um game dirigido. Você faz o que deveria estar fazendo naquele momento, sem pensar o que mais poderia estar fazendo. Ele tem trechos de stealth, porradaria aberta, quebras-cabeças e chefes, tudo dirigido. Mas não posso negar que a coisa cansa um pouco. Mais grave ainda, o jogo parece ficar pior a cada nova fase. O quebra-cabeça de se aproximar da bruxa é um saco, assim como o trecho em que você precisa se esconder de uma ballista com poder de instakill.
Mas a última fase repete o problema da ballista com um checkpoint que fica antes de uma cutscene não pulável. Ou seja, para cada tentativa, que às vezes não passa de 10 segundos, você precisa esperar um carregamento bastante longo, seguido de uma cutscene. Eu quase desisti aí. Na verdade, na última fase eu quase desisti várias vezes.
O checkpoint final, por exemplo, te coloca em uma arena com várias fases e com combinações de inimigos cada vez mais apelões. Uma delas te coloca contra um monte de meliantes punhando bestas que simplesmente não param de atirar. Isso causa um stunlock permanente e você não consegue nem se defender, nem se curar, nem atacar. E morrer exige lutar contra todas as fases anteriores.
O jogo não é especialmente difícil, mas os desafios pentelhos e as longas telas de carregamento quando você morre fazem com que seções que exigem repetição, como essas, fiquem muito mais cansativas.
A HISTÓRIA DO SANGUE

Já falei da baixa qualidade das cutscenes, mas também não posso deixar de falar da história. E esta beira a criatividade zero. Os vilões matam a família do Mehran e ele parte numa cruzada de vingança para matar todos os envolvidos. Onde você já viu isso antes? Pois é, em todo lugar. Inclusive em dúzias de videogames. Eu estou cansado de histórias de vingança, e elas são tão absurdamente comuns na cultura pop que acho que está na hora de simplesmente parar de contá-las. Se não tem ideias para uma história mais elaborada que um Streets of Rage, faça como Streets of Rage e simplesmente crie um jogo focado nas mecânicas. Daí dá até para evitar as cutscenes, que hoje representam uma enorme quantidade do orçamento de qualquer jogo 3D que não pegue atalhos para realizá-las.
Talvez eu tenha sido mais negativo aqui do que gostaria, e isso não representa exatamente minha relação com Blood of Mehran, que foi predominantemente positiva. Mas a verdade é que terminá-lo me deixou com um gosto amargo na boca, dada a baixíssima qualidade das últimas missões.
O jogo tem defeitos, e é minha função como resenhista apontá-los. Mas é, por outro lado, é um game com uma ambientação bacana, lindos cenários e um combate único, ainda que falho. Se você é um fã de hack and slash como se fazia na época de outrora – e Tutatis sabe que eu sou – certamente vale conhecer.






































