O Crescente Vermelho é como uma divisão da Cruz Vermelha que ajuda pessoas em locais de conflito ou desastre. Em uma cena particularmente dolorosa de A Voz de Hind Rajab, os atendentes do call center do Crescente Vermelho resolvem compartilhar a situação da menininha Hind Rajab nas redes sociais, na esperança de conseguir viabilizar ajuda. Uma das pessoas fala “olha as mídias sociais, estão cheias de corpos de pessoas dilaceradas. Você acha que dizer que uma menina está sangrando vai comover alguém?”.
É verdade. Minhas redes sociais estão repletas das crueldades que Israel faz com o povo de Gaza. Já cheguei a ver vídeos filmados pelo próprio exército às gargalhadas, enquanto eles torturam e humilham palestinos. Parece distante. Parece que não tenho o que fazer a respeito. Daí continuo com minha privilegiada vida de brasileiro de classe média. Não deveria ser assim. Como chegamos a tal ponto de apatia?
CRÍTICA A VOZ DE HIND RAJAB
A Voz de Hind Rajab é, como filme, realmente muito parecido com o também excelente Culpa. Porém, ao invés de mirar apenas o entretenimento, é político. É um filme sobre o sofrimento de um povo sofrendo genocídio que grita com o fim de seu fôlego “por favor, pare de nos matar”. E tenta fazer isso da forma menos agressiva possível, tentando até mesmo evitar apontar o dedo para Israel. Estão literalmente implorando, tentando mostrar como tem sido a vida em Gaza através da dolorosa história de uma menina que nem está entre os crimes mais hediondos cometidos neste genocídio, embora certamente seja um dos mais famosos.
A Voz de Hind Rajab acontece totalmente no escritório do Crescente Vermelho. Um atendente lá recebe o aviso de uma família que estava evacuando a região que Israel prometeu bombardear mas foram atacados assim que saíram de casa. As ligações são realmente impressionantes por usar de um esquema muito interessante. É uma versão real do que foi feito de mentira em Contatos do 4º Grau. Ele alterna as cenas de ficção – as do escritório – com as gravações reais feitas no dia.
Em outras palavras, a voz da menininha do outro lado do telefone realmente é A Voz de Hind Rajab. Isso também gera cenas extremamente chocantes, mesmo não havendo nem sinal de sangue ou violência gráfica. Afinal, quando alguém morre no telefone, você sabe que aquela gravação realmente é a pessoa morrendo na vida real. Assustador e perturbador, realmente.
HIND RAJAB
O filme é tenso até não poder mais. A tensão da história está no fato de a ambulância dos socorristas estar a oito minutos da posição da menina. Hind está compreensivelmente desesperada ao ter que se esconder em meio aos presuntos ainda quentes e sangrando da sua família. Porém, o protocolo é o Crescente Vermelho falar com a Cruz Vermelha, que vai então falar com Israel, que precisa aceitar não atacar os socorristas no caminho do resgate. É uma enorme burocracia sem sentido (pedir para quem causa o genocídio não atacarem quem vai ajudar os alvos não faz sentido), mas sem passar por ela a vida dos socorristas corre perigo.
Isto é uma crítica de filme, então não posso dar informações sobre o fim da história. Mas a garota tem até uma página na Wikipédia, se você quiser saber se o filme tem um final feliz. Na vida real, a gente sabe até exatamente quem ordenou o ataque à família. Então, para ser sincero, assistir a A Voz de Hind Rajab é quase como ver um remake de Culpa com personagens palestinos. Porém, o fato de saber que essas conversas são reais, que isso aconteceu, e que a dramatização vem quase exclusivamente para preencher o espaço deixado pela conversa real, torna o filme muito assustador. De verdade.
De fato, eu estou habituado a ver vídeos com as crueldades israelenses nas redes sociais, mas é diferente ver uma história, redondinha e te apresentando aos personagens. Senti que ficou ainda mais forte – e os vídeos que habitam minhas redes já são o suficiente para me deixar triste, assustado e com raiva. A questão é: quem realmente precisa ouvir este grito de socorro vai fazer isso? Ou vai continuar se iludindo achando que árabe é sinônimo de terrorista e que Israel está na razão ao tentar exterminar este povo inteiro da face da Terra?








































